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Venezuela: Bispo de Carúpano traça retrato inquietante do país
“As pessoas têm fome”
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Já não é possível iludir mais com as palavras. Na Venezuela, as pessoas passam fome, os hospitais estão em ruptura, os supermercados têm as prateleiras vazias e a situação de emergência estende-se a todos os sectores da sociedade. O clima de tensão entre oposição e governo é cada vez mais elevado. A Igreja pede ajuda. Acima de tudo, implora as nossas orações.

 

Colapso. Dificilmente se encontrará uma palavra que exprima melhor a situação em que se encontra a Venezuela. Falta electricidade, não há medicamentos, as prateleiras dos supermercados estão praticamente vazias. O colapso é geral. Nem os hospitais escapam. Todos os dias há notícias de pessoas que morrem por falta de cuidados médicos essenciais. O índice de mortalidade entre crianças com menos de um mês aumentou 100 vezes nos hospitais. No fim-de-semana passado, mais de 35 mil venezuelanos aproveitaram a abertura parcial da fronteira com a Colômbia – encerrada desde Agosto do ano passado – em busca de alimentos e medicamentos que escasseiam no país. O desespero é total. E o medo também. A Venezuela encontra-se numa situação de emergência. D. Jaime Villarroel, Bispo de Carúpano, esteve há dias na sede da Fundação AIS, em Köningstein, na Alemanha, para pedir ajuda para o seu povo. As suas palavras estão carregadas de angústia. “Estamos pior do que nunca. Os hospitais não têm medicamentos, não há comida em nossas casas, os camiões de transporte são saqueados continuamente porque as pessoas têm fome e já não se respeita nada.”

 

Violência crescente

A crise do petróleo, com o preço do crude a baixar continuamente nos mercados internacionais, veio destapar toda a imensa fragilidade do tecido económico da Venezuela. Com as prateleiras vazias, nem as palavras encolerizadas do presidente Maduro respondem já aos anseios das populações. “As pessoas têm fome”, explica o prelado numa frase desarmante e dramática. “Isto era algo de impensável na Venezuela”, acrescenta. Com o colapso da economia, floresce o mercado negro. Mas, nem aí as pessoas conseguem obter aquilo de que necessitam e, por vezes, faltam coisas tão básicas em suas casas como sabão ou papel higiénico, para não falar em comida, azeite, leite… O empobrecimento forçado da população está a deixar marcas violentas na Venezuela. O país corre o risco de uma guerra civil. A situação é cada vez mais insustentável e a Igreja não consegue encontrar respostas para todos os problemas. “Já não sabemos o que fazer nem a quem acudir”, lamenta-se D. Jaime. “A polícia e os políticos são, muitas vezes, corruptos. Estamos abandonados.”

 

Pedido de ajuda

No fim-de-semana passado, milhares de venezuelanos aproveitaram uma abertura esporádica da fronteira com a Colômbia para se abastecerem de algumas das coisas que estão desaparecidas das prateleiras das lojas ou que estão fortemente racionadas: óleo, farinha de milho, massa, feijão, papel higiénico, sabão, medicamentos… No rosto de muitos destes venezuelanos percebia-se a aflição de quem já só pensa em sobreviver, de quem não sabe como alimentar os seus filhos. De quem está desesperado. De dia para dia, a situação agrava-se. Os episódios de violência vão crescendo e atingem também a Igreja. Ainda recentemente, cinco seminaristas pertencentes à arquidiocese de Mérida foram brutalmente agredidos e espancados, alegadamente por um grupo de pessoas afectas ao governo. Até a própria catedral de Carapuno foi alvo já de vandalismo e profanação. “Já não se respeita nada”, diz, desalentado, D. Jaime. Para os bispos, que têm promovido jornadas de oração pela paz na Venezuela, estes incidentes reflectem “uma sociedade carente de valores” que está “em decomposição”. Na verdade, o país vive numa lógica de sobrevivência. Ninguém sabe como vai ser o dia de amanhã. Mas é nestes tempos de bruma, de obscuridade, que também se fortalecem os laços de solidariedade, que se fortalecem os valores da entreajuda. Olhando para o drama em que se encontra a Venezuela, ganham um eco formidável as palavras que o Santo Padre dirigiu recentemente à Ajuda à Igreja que Sofre: “Nós, homens e mulheres, precisamos da misericórdia de Deus, mas também precisamos da misericórdia uns dos outros.” D. Jaime esteve na sede da Fundação AIS a pedir apoio para o seu povo e a implorar as nossas orações para que a Venezuela consiga desembaraçar-se deste labirinto sem cair na armadilha da guerra civil.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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