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Paróquia de Santa Isabel inaugura o ‘Céu’
Tocar o Céu na cidade
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“É um Céu a abrir-se”, destacou o Cardeal-Patriarca na inauguração do ‘Céu de Santa Isabel’. Esta paróquia histórica da cidade – criada pelo primeiro Patriarca de Lisboa – viu concretizado o sonho da pintura do teto da igreja.

 

“O Céu tem um significado pleno. Este, pela maneira como está pintado, é um céu especialmente translúcido e daí que faça adivinhar muita coisa, que é a vantagem de ser um céu. É um Céu a abrir-se”, manifestou aos jornalistas o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, ao chegar à igreja de Santa Isabel, no final da tarde do passado dia 19 de julho. “Reparemos que em muitas igrejas há o céu pintado no teto, com mais ou menos símbolos religiosos explícitos. Mas creio que o Céu, só por si, já é um símbolo religioso muito convincente”, acrescentou. Quando questionado sobre um céu do século XXI num edifício do século XVIII, D. Manuel Clemente sorriu: “O Céu até é mais antigo do que o século XVIII e mais moderno do que o século XXI”.

Na inauguração do ‘Céu de Santa Isabel’, o pároco desta paróquia da cidade, padre José Manuel Pereira de Almeida, lembrou “o modo interessado como o Cardeal Policarpo, há sete anos”, quando a paróquia “iniciou o sonho” da pintura, “acompanhou o projeto”. Este sacerdote destacou igualmente “o entusiamo do Bispo Auxiliar, o senhor D. Tomaz da Silva Nunes, ao seguir as etapas iniciais”. “Agora, eles já sabem mais do Céu do que nós”, manifestou, referindo-se aos dois prelados falecidos em 2014 e 2010, respetivamente. O padre José Manuel Pereira de Almeida agradeceu ainda “às senhoras que diariamente faziam a limpeza da igreja, permitindo que se celebrasse a fé num espaço com dignidade e elevação”.

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) teve “um papel decisivo”, segundo o pároco, no culminar da pintura do teto da igreja de Santa Isabel, com um apoio financeiro superior a duzentos mil euros. Presente na inauguração do ‘Céu de Santa Isabel’, o provedor da SCML, Pedro Santana Lopes, destacou que a instituição cumpriu “uma obrigação”. “Faz parte dos princípios estatutários da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e do seu compromisso originário, apoiar as obras espirituais e as obras materiais”, referiu, dando os “parabéns” a todos os envolvidos no projeto.

 

“Um sinal do Céu verdadeiro”

O ‘Céu de Santa Isabel’ nasceu há sete anos, numa conversa do padre José Manuel com o amigo Nuno Proença, “grande especialista da conservação de pedra em Portugal”. “Pedi-lhe para ele vir a Santa Isabel, para o restauro do teto”, lembra ao Jornal VOZ DA VERDADE, sublinhando que o antigo teto da igreja – pintado em cinzento azulado, “simulando um céu de noite”, e que “atualmente mais parecia um chumbo pesadíssimo” – “nunca tinha sido ‘mexido’ desde os anos 60, no pós-concílio”. Em 1999, quando este sacerdote chegou à paróquia, “chovia dentro da igreja”. O telhado foi, por isso, “a primeira obra, e teve de ser revisto agora, antes da pintura do céu”.

O projeto ‘Um Céu para Santa Isabel’ surgiu a partir de um convite feito pelo pároco ao artista Michael Biberstein, por sugestão do gabinete de Arquitetura Appleton & Domingos, em outubro de 2009. A maquete do projeto foi apresentada na Appleton Square, no âmbito da Trienal de Arquitetura de 2010. “O interesse que o projeto então despertou levou à decisão de angariar fundos destinados à sua concretização. Nessa fase, e graças a apoios diversos, com destaque para o BES e BPI, foi possível dar início ao projeto”, escreveu o pároco, na folha paroquial.

Na sequência da morte súbita de Michael Biberstein, em 2013, a escassos meses de iniciar a pintura do teto, Ana Nobre de Gusmão, viúva do artista, e todas as pessoas já envolvidas no projeto resolveram dar continuidade e estabeleceram que o teto deveria ser pintado de acordo com o original da maquete. “Para proceder à reavaliação e ao reajuste do projeto inicial foi alargada a equipa, com a participação do artista Julião Sarmento, do curador Delfim Sardo, da Galeria Jeanne Bucher-Jaeger de Paris, da Factum Art Foundation, a quem coube a execução da pintura”, acrescenta o padre José Manuel, destacando “o apoio financeiro da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa”.

Questionado pelo Jornal VOZ DA VERDADE se “já se toca o Céu, em Santa Isabel”, o padre José Manuel refere que o ‘Céu de Santa Isabel’ “é pelo menos um sinal do Céu verdadeiro”. “Espero que o céu de Santa Isabel ajude à interioridade e à paz que se procura continuar a construir, a exemplo de Santa Isabel que foi uma grande construtora da paz”, manifesta.

 

Rato, Amoreiras e protagonismo laical

Santa Isabel é considerada uma paróquia histórica da cidade de Lisboa, com quase 300 anos de existência. “Esta é uma paróquia do tempo do primeiro Patriarca de Lisboa. Foi D. Tomás de Almeida que criou a paróquia e é ele que vende a baixela para se construir a igreja”, lembra o padre José Manuel Pereira de Almeida.

Além da igreja paroquial, do século XVIII e agora com um teto do século XXI, a paróquia de Santa Isabel tem no seu espaço geográfico mais dois espaços de culto: a Capela do Rato e a capela no centro comercial das Amoreiras. “A Capela do Rato é uma reitoria e está confiada ao padre Ismael Teixeira, meu vigário paroquial; a capela nas Amoreiras foi uma coisa inovadora, do tempo do senhor D. Albino Cleto, porque o senhor Patriarca D. António Ribeiro queria levar a Igreja onde as pessoas estivessem – porque de facto as Amoreiras foram o primeiro grande centro comercial da cidade”, salienta.

“Reconhecer e promover o protagonismo dos leigos da paróquia” foi a primeira aposta pastoral do padre José Manuel Pereira de Almeida ao chegar a Santa Isabel, em 1999, numa dimensão que “foi formada a partir dos três núcleos de intervenção eclesial: a evangelização, a liturgia e a caridade”. Na evangelização, este sacerdote destaca a importância da catequese, “que está bem desenvolvida e muito cuidada, com gente nova”. “Quando cá cheguei só tínhamos as catequistas tradicionais, que eu não tenho nada contra, mas progressivamente isso foi passando para os universitários e pós-universitários. São jovens que podem não ter os diplomas todos, mas a formação é feita à medida das necessidades. É uma formação em exercício, de alguma maneira”, aponta.

 

Mobilidade no tecido urbano

Situada na área geográfica da freguesia de Campo de Ourique – constituída pelas antigas freguesias de Santo Condestável e Santa Isabel –, a paróquia de Santa Isabel é atravessada por “duas grandes avenidas – a Rua D. João V e a Avenida Álvares Cabral – e tem depois uma rua histórica, no seu limite, a Rua de São Bento, e também a Rua do Sol ao Rato”. “É uma freguesia da cidade com grandes prédios e muitos pequenos pátios, sobretudo nas ruas mais pequenas”, descreve o pároco, sublinhando que a paróquia é frequentada “pelas pessoas que vivem na freguesia”, mas também “por muitas outras que vivem fora”. “Há mais de um século que, na organização social, há uma relação pacificada entre estratos sociais diversos e também com uma situação etária diversa”, garante o padre José Manuel, destacando a “excelente relação de cooperação” com a junta de freguesia. “Desde que cheguei que procuramos valorizar a festa de Santa Isabel, a 4 de julho. Fazemos a bênção do pão e das rosas, numa celebração especial, e depois ao fim da tarde temos o sacramento do Crisma. Desde que a freguesia se ‘perdeu’ e se juntou na nova freguesia de Campo de Ourique, o senhor presidente da junta, o Dr. Pedro Cegonho, tem tido a preocupação da sua presença pessoal nas celebrações da festa da paróquia, propondo uma animação de rua com a feira medieval”, frisa o pároco.

Nos últimos anos, chegaram “muitos casais novos à paróquia”, alguns dos quais “netos de gente que já cá mora há muito tempo”. Sendo “uma paróquia teoricamente envelhecida”, o padre José Manuel assegura “não se sentir esse envelhecimento na vida paroquial”, em especial “devido àquilo que o senhor Patriarca sublinha muitas vezes: a mobilidade no tecido urbano”. “Há pessoas que são desta paróquia, fazem cá a sua vida cristã, mas não moram na freguesia. Temos muitas crianças nas Missas dominicais, assim como muitas famílias. Quando falta a família ‘tal’, percebe-se que há um banco que está menos ocupado do que é costume. É muito bonito ver tantas famílias, que depois se reflete na catequese, onde temos 500 crianças – o que em Lisboa, no centro, é raro!”, frisa este sacerdote, de 63 anos.

Após a publicação, em 2008, das Normas Pastorais para o Patriarcado de Lisboa ‘A celebração dos Sacramentos e Sacramentais’, a paróquia de Santa Isabel iniciou uma metodologia catequética prevista neste documento de D. José Policarpo, então Cardeal-Patriarca: as crianças da catequese receberem o sacramento do Crisma aquando da Primeira Comunhão. E a experiência ‘piloto’ tem “corrido muito bem”, segundo o pároco. “Na Vigararia de Lisboa III, fomos os primeiros a aderir à nova metodologia, juntamente com a paróquia de Benfica. Desde então, temos menor abandono de catequese. É absolutamente curioso. No concreto, noto que tem dado os seus frutos”, destaca, mostrando-se satisfeito pelo facto de a catequese em Santa Isabel “ter todos os volumes disponíveis”.

 

Responsabilizar na caridade

Santa Isabel é uma paróquia da cidade que não tem centro social paroquial. “É algo de muito bom, porque responsabiliza a comunidade inteira, pela atenção aos pobres e excluídos”, destaca o pároco, lembrando que “quando começou a crise, em 2008”, esta paróquia foi “das primeiras a responder, com o projeto da Ceia de Santa Isabel, em que todos – os que precisavam mais e os que precisavam menos –, sem fazer exclusão ou diferenças, eram atendidos”.

Fechado este projeto, a paróquia organizou o ‘Família a família’, há cerca de dois anos. “Fomos buscar a ideia a um projeto da paróquia de Cedofeita, da Diocese do Porto, mas fazemo-lo de maneira diferente: famílias que ajudam famílias, sabendo quem ajudam ao nível do número de elementos e das suas idades e com o quê, ao nível alimentar ou de produtos básicos de higiene. Isto responsabiliza, porque sabem que o que não dão, a família não recebe”, salienta, frisando que “são várias famílias a responsabilizarem-se por uma família necessitada”. “O bom resultado do ‘Família a família’ é que já tivemos duas famílias que deixaram de precisar de ajuda. E uma delas já passou mesmo a ajudar!”, revela o padre José Manuel.

Na caridade, os Vicentinos “têm uma tradição grande na paróquia e o seu trabalho é complementado pelo projeto ‘Mais próximo’, de visitadores, em que os jovens acompanham idosos ou doentes em suas casas”. A Casa de Chá de Santa Isabel - Vicentinas, situada na Rua de São Bento, nº 700, é um espaço comercial que pertence à paróquia. “Era um espaço pertencente a uma conferência vicentina que terminou e foi-nos confiado. Mantivemos os postos de trabalho, que foi muito bom, e desenvolvemos a obra. Só isso já seria uma boa ação social, mas depois apoiamos ainda diversas iniciativas”, expõe o sacerdote.

O projeto ‘Abrigo’, dirigido aos sem-abrigo, foi criado em articulação com a Comunidade Vida e Paz. “Precisávamos fazer as coisas com competência e em sinergia”, conta, destacando igualmente “o atendimento social, que funciona muito bem”.

 

‘Amoris laetitia’ e juventude

Nestes quase 17 anos que leva como pároco de Santa Isabel, o padre José Manuel Pereira de Almeida tem apostado na formação. “Procuramos dar formação de toda a ordem: para a oração – que só se faz, fazendo! – e nas áreas bíblica, eclesiológica e moral, em que a paróquia beneficiou da presença dos padres Tolentino e João Eleutério”, refere, realçando também as conferências anuais dos Encontros de Santa Isabel, que decorrem em janeiro, desde há alguns anos. “O próximo vai ser sobre a Exortação Apostólica Pós-Sinodal ‘Amoris laetitia’, do Papa Francisco”, revela.

O Agrupamento 39 - Santa Isabel do Corpo Nacional de Escutas foi “o primeiro em Lisboa”, segundo o pároco. “É um agrupamento antigo, que foi reaberto no último ano do meu predecessor, padre Pedro Gamboa, que era um homem dedicado à juventude e aos escuteiros. Ele veio para Santa Isabel já muito velhinho e doente, mas mesmo assim ainda foi capaz de reerguer os escuteiros. Nos dias de hoje, temos um belo conjunto de chefes e muitos lobitos. É um bom agrupamento, em que os acampamentos costumam ter cerca de seis dezenas de elementos”, frisa.

Da geminação com a paróquia de Santa Isabel de Majune, no Niassa, norte de Moçambique, esta paróquia da cidade de Lisboa assegura que “cerca de trinta rapazes e trinta meninas de um lar possam estudar para irem para o Ensino Secundário em Lichinga”. Desta geminação nasceu o projeto Majune, que se desenvolve em Lisboa: “A experiência de missão é ir acolhendo, integrando e acompanhando crianças, miúdos e jovens que estão em casas de acolhimento, na sequência de determinação judicial”.

 

Filme com o ‘pai’ do ‘Céu de Santa Isabel’

Com a inauguração da pintura do teto da igreja de Santa Isabel, o auditório do Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva, próximo da igreja paroquial, vai passar a exibir, todos os sábados e Domingos, pelas 16h00, e até 11 de setembro, o filme ‘O meu amigo Mike ao trabalho’, de Fernando Lopes, com o artista suíço Michael Biberstein (1948-2013), considerado o ‘pai’ do ‘Céu de Santa Isabel’. Produzido pela Midas Filmes em 2008, a película de 48 minutos é uma das últimas realizadas por Fernando Lopes, tendo sido filmada no ateliê do Alandroal do pintor radicado em Portugal desde os anos 70.

  

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Após a inauguração do ‘Céu de Santa Isabel’, o Cardeal-Patriarca de Lisboa presidiu à Eucaristia. “Gosto particularmente deste Céu de Santa Isabel exatamente por não ser assim tão explícito. Quando pintamos céus, sobretudo quando somos crianças, fazemo-los muito azuis… este Céu de Santa Isabel não é assim, é translúcido, ou seja, tem uma luz que vai além dela e de tanto mais que representa. O rasgão azul vai como que alargando entre as nuvens, e é exatamente assim que podemos ver o Céu porque só a pouco e pouco ele se vai desvendando nos nossos olhos, nos nossos corações e na nossa vida”, observou D. Manuel Clemente, na homilia.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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