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Líbano: histórias de medo e de angústia entre cristãos refugiados
“Vamos matar-te…”
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O vale de Bekaa é hoje a morada de centenas de milhares de refugiados oriundos da Síria. Muitos são cristãos. Alguns foram obrigados a fugir para salvar a própria vida. Mas nem ali, no Líbano, se sentem seguros.

 

A primeira vez que o telefone tocou, Samir ficou sem palavras, como que paralisado. Do outro lado da linha, uma voz masculina, áspera, dizia que sabiam onde estava e que iam matá-lo. Quando pousou o aparelho, Samir nem precisou de dizer qualquer palavra. A sua mulher adivinhou logo que seria algo de muito grave.

Samir e Sabine têm ambos pouco mais de 50 anos. Viviam em Raqqa, na Síria, cidade que, infelizmente para eles, se tornou no primeiro bastião dos jihadistas do auto-proclamado “Estado islâmico”. Os primeiros dias foram terríveis. Ainda hoje não conseguem esquecer o que viram, as atrocidades que foram cometidas, o medo que se instalou na cidade.

 

Viver no medo

No princípio, Samir e Sabine foram ameaçados. Eles e todos os outros cristãos que viviam na cidade, ou se convertiam ao Islão, ou pagavam um imposto ou eram passados a fio de espada. Samir e Sabine pagaram para poderem continuar a viver como cristãos, na sua casa, mantendo as coisas que tinham amealhado na vida. Samir guarda ainda um recibo desses pagamentos. É um papel, passado em nome dos jihadistas, onde se prova o pagamento deste imposto anual de cerca de 3.700 euros. O preço da liberdade. Na verdade, foi apenas uma extorsão. Apenas mais uma. O terror que presenciavam nas ruas de Raqqa ultrapassava tudo o que poderiam imaginar. Pessoas assassinadas nas ruas após julgamentos sumários que se transformaram em espectáculos públicos. Pessoas apedrejadas até à morte, decapitações…

 

A falsa conversão

O horror banalizou-se de tal maneira que Samir e Sabine, mesmo pagando o imposto de protecção, por serem cristãos, sentiam-se, de dia para dia, mais inquietos, mais inseguros. E foi assim que decidiram simular que se tinham convertido ao Islão. Samir ia todos os dias à mesquita onde fingia orar e Sabine passou a cobrir-se toda de negro, dos pés à cabeça, não podendo sair à rua sem ser ao lado do marido. “Odiava tudo aquilo”, confessa.

A vida de fingimento prosseguia, numa inquietação evidente, até ao dia em que lhes disseram, em alvoroço, que os soldados iam buscá-los a casa, pois tinham sido denunciados. Valeu-lhes a ajuda de um casal muçulmano amigo que os escondeu. De noite fizeram-se à estrada até Alepo. Iam aterrorizados. Nem dava para imaginar o que lhes poderia acontecer se fossem apanhados. Já estavam em Alepo há cerca de dois meses quando o telefone tocou pela primeira vez. “Sabemos onde estás. Vamos aí e vamos matar-te!”

 

A caminho de Beirute

Fizeram as malas e fugiram pela segunda vez. Dirigiram-se para Beirute. Ali, ao menos, na capital do Líbano, estariam seguros, disseram um para o outro. Puro engano. Ainda mal se tinham acostumado à vida de refugiados na cidade quando voltaram a ser ameaçados. Do outro lado da linha, as mesmas palavras a prenunciarem o mesmo fim trágico. “Sabemos onde estás. Vamos aí e vamos matar-te!” A partir daquele instante, a cidade transformou-se numa enorme armadilha. Em qualquer rua, em qualquer esquina, qualquer jihadista poderia apanhá-los desprevenidos. Que fazer? Nenhuma autoridade poderia protegê-los 24 horas por dia. Samir e Sabine decidiram fugir uma terceira vez. Para eles, o importante era mesmo não renegar a fé. Poderiam ser presos, violentados e mortos. Mas seriam cristãos até ao fim. Fazer as malas, para eles, tornou-se numa rotina cada vez mais fácil. Tudo o que tinham cabia quase num simples saco de plástico.

 

O tesouro da fé

Partiram para o Vale de Bekaa, onde se juntaram a milhares de outros refugiados, a milhares de outros cristãos que, como eles, perderam tudo o que tinham para conservarem a fé em Jesus Cristo. Foram tempos duros, muito difíceis mesmo. Longe vão os tempos em que sonhavam com o futuro em Raqqa. Agora o que têm cabe numa simples mala. Estão vivos e conseguem sorrir por isso. “A nossa fé está agora mais forte do que nunca”, diz Sabine. No entanto, desde que chegaram ao Vale de Bekaa, que o telefone de Samir já voltou a tocar. “Não interessa onde estão. Nós vamos encontrar-vos!” Samir e Sabine sabem que é apenas uma questão de tempo até os jihadistas cumprirem a ameaça. É por isso que planeiam abandonar o Médio Oriente. “Já não nos sentimos seguros aqui”, explicam. Para onde vão, não sabem ainda. Mas sabem que, mesmo se não tiverem já nada para colocar na mala, ainda transportam consigo o tesouro mais valioso de todos: a fé. E isso ninguém consegue roubar-lhes.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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