Entrevistas |
Conor Cunningham: Darwin não matou Deus mas a heresia
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Filósofo e teólogo reconhecido internacionalmente, Conor Cunningham é pai de três filhos e na força da idade continua a produzir vários livros de filosofia que pretendem acabar com as controvérsias pessoais e institucionais entre pensamento e fé. No Youtube está um documentário feito para a BBC, com o título “Did Darwin Kill the God?”. A faculdade de Filosofia de Braga convidou-o para uma conferência e numa entrevista ao JORNAL W o filósofo irlandês partilha o seu pensamento.

Na sua opinião a religião não pode ser um “extra”, um apêndice, da vida humana. Porquê?

Porque sem Deus nada funciona. O mundo natural – árvores, flores, cães, gatos, crianças, comida – requer o teológico, requer o divino, requer tudo isto só para existir. Não podemos ter natureza – o mundo natural – sem Deus. Quando tirarmos Deus e considerarmos o mundo natural, o mundo natural implodirá, entrará em colapso.

 

No documentário que dirigiu para a BBC fez uma questão complexa no nosso tempo: “Terá Darwin morto Deus?”

Não, Darwin matou a heresia. Quanto mais estivermos ofendidos e chocados pelo Darwinismo, menos cristão somos. Porque uma das principais teorias do Darwin é que partilhamos um ancestral comum com os macacos. Os macacos e os humanos – homo sapiens – partilham um ancestral comum há muitos milhões de anos. E pensamos isto como verdadeiramente insultuoso. Muito insultuoso, mesmo. Alguns até dizem: sinto-me muito insultado por isso!

Porém, nós não nos importamos que Deus se tenha tornado homem. Para nós, isso é fácil. Mas esse é que é um escândalo. O caso de Darwin? Parece fácil. Agora, o mistério da Incarnação [de um Deus que se faz homem]? Isso é verdadeiramente, escandaloso. A doutrina é que é verdadeiramente ofensiva. E é a verdade do cristianismo.

 

Depois de muitos estudos como define numa frase o que significa o criacionismo e o darwinismo?

O criacionismo é uma heresia cristã. É engraçado porque se lermos Richard Dawkins, e se lermos os criacionistas, verificamos que os dois acreditam no mesmo. Os dois tentam tornar o Génesis – o primeiro livro da Bíblia – num texto científico. Assim, os dois pressupõem que a ciência é a única via para a verdade.

Para os criacionistas, se o Génesis não for ciência não é verdade. Portanto, na realidade acreditam no mesmo. Mas o Génesis não fala sobre ciência, mas comunica-nos verdades metafísicas e filosóficas. É porque existe uma existência antes de mais, porque o Deus de amor e o Deus de generosidade criou o universo.

 

No seu livro Genealogia do Nihilismo confessa que não é Nietzsche o primeiro nihilista. Onde se encontra então o nihilismo como doutrina na cultura contemporânea?

Onde encontro niilismo? A ideologia nihilista? Encontro-o no criacionismo e no ultra-darwinismo, como Dawkins e Dennet e outros, na adoração do Estado… é uma forma de niilismo. A adoração do capitalismo é uma forma de niilismo. E vê-se hoje em dia no “credit crunch” [a crise financeira]… O desastre financeiro é um resultado de adorar o dinheiro e pensar que o dinheiro continuará a criar mais e mais dinheiro. E implodiu porque era um ídolo. Estávamos a ser idólatras e a pensar que o dinheiro iria resolver todos os nossos problemas, que era o seu próprio criador. O ultra-capitalismo é niilista porque usa dinheiro como o seu deus, como o seu ídolo.

Vemos o nihilismo no criacionismo, no darwinismo, na adoração do Estado é isso que causa as guerras. Precisamos desesperadamente do catolicismo para apresentar um tipo mais rico de existência, mais sofisticado e complexo. [Para apresentar também] o Bem, o bem comum: Como fazer um dia de trabalho? Porque é que educamos os filhos? Como que é que educamos os filhos? De como vivemos? Porque vivemos assim? Porque respeitamos o outro? O catolicismo precisa mesmo de se apresentar na sua maneira mais plena e universal. Tem que dar conta de tudo… Não quero dizer uma teocracia. Não quero dizer que a Igreja Católica ou que o cristianismo deva estar envolvido em todos os aspectos, mas que deve ser, nalgum sentido, a filosofia englobante, que oriente o nosso agir. Precisamos do catolicismo e do cristianismo para darem conta da economia, política, do Estado, das nossas famílias, de todas estas coisas. E sem isto o catolicismo não está a ser universal, não está a ser católico.

 

Mas não é verdade que Deus morreu na cruz?

Sim, o melhor autor para ler sobre isto é um dos Padres da Igreja, Cirilo de Alexandria. Sim, com certeza que Deus morreu. Cristo tinha duas naturezas – divina e humana – e Deus morreu na cruz. Mas isso não significa…

 

Então o mundo viveu três dias sem Deus?

Mas isso não significa que Deus tenha mudado. Deus é simples na sua Trindade. Deus morreu mesmo na cruz, na pessoa de Jesus Cristo… Quando Cristo ao morrer na cruz, não é que Deus tenha estado ausente durante três dias… A Paixão de Cristo revelou o sofrimento pelo que era realmente. Sem a Paixão de Cristo não existe sofrimento no mundo. Sem a Paixão de Cristo não há solução para o sofrimento do mundo. Não há esperança e, com certeza, não há beleza. E acho que a Paixão de Cristo nos revelou toda a razão da existência desde o início dos tempos. Revelou-nos as nossas verdadeiras naturezas. Revelou-nos o que estávamos a suportar. Revelou-nos, na sua Paixão, também a solução dos nossos sofrimentos e o nosso destino.

 

A cultura rejeita o absoluto e consequentemente Deus. Como olha para o relativismo contemporâneo?

Penso que a actual cultura cria mais violência, mais injustiça, mais hipocrisia, inconsistência e vamos todos sofrer por causa isso. Teremos Estados-Nações a pensarem que são deuses, e fazer guerra contra outros Estados-Nações.

Mas será que vai haver um colapso por si próprio? Não! Porque o pecado vai aparentemente sobreviver na humanidade. Agora, as mortes que advêm desta cultura poderão ser horrorosas para nós. Sempre que falares como cristão e pareceres ser reaccionário ou reactivo ou conservador ou simples… e até quando falamos da Europa como continente cristão, já não gostamos de fazer isso. E se o fizeres, parece que és fascista ou que estás a discriminar. Mas isso não é verdade! Só por ser uma cultura cristã, particular, é que podemos acolher a diferença. Se é simplesmente verbalismo ou relativismo, nem sequer notamos a diferença. Os que não concordam connosco, os que não têm fé, nem sequer podem falar com eles porque tudo é, de repente, igual. Portanto só sendo verdadeiros como europeus e como cristãos é que podemos acolher o outro, é que podemos realmente falar e dialogar com muçulmanos, ateus e agnósticos.

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