Entrevistas |
Manuel Martínez-Sellés, autor do livro ‘E Deus fez-Se célula’
“É um erro usar avanços técnicos para interferir na vida humana”
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Escreveu um livro para mostrar que, na defesa da vida, “não existe contraposição entre ciência e fé”. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, o médico Manuel Martínez-Sellés, autor do livro ‘E Deus fez-Se célula’, mostra como, através do exemplo, consegue ter os sete filhos a defender ativamente a vida – “até mais do que os pais!” – e critica a falta de formação e informação sobre o tema.

 

Costuma-se dizer que a diferença entre Portugal e Espanha é de apenas uma hora. Parece-lhe que a realidade espanhola, no que diz respeito à defesa da vida, poderá estar prestes a ver brevemente os mesmos avanços em Portugal?

Penso que as ameaças contra a vida, em Espanha e em Portugal, são muito semelhantes e têm vindo a aumentar nos últimos anos. E, lamentavelmente, é provável que aumentem no futuro. Em Espanha começou com a chegada da ideologia de género e em Portugal está a chegar. Provavelmente, o efeito positivo que se tem visto em Espanha, e penso que também em Portugal, é que nós, os que defendemos a vida, estamos a tomar uma atitude mais ativa.

É muito frequente esta desinformação de dizer que os estágios iniciais da vida são um conjunto de células mas, cada vez mais, também se podem encontrar livros, revistas e páginas web com uma visão clara, científica e cristã de quando começa a vida, que é no momento da fecundação e o motivo pelo qual a dignidade humana se deve respeitar do início até ao fim.

 

O que pretendeu com o livro ‘E Deus fez-Se célula’?

O que tentei com este livro foi mostrar que esta defesa da vida, do ponto de vista da fé, também se pode apoiar nos avanços que a ciência tem tido e não existe contraposição entre ciência e fé. Há mais cientistas que, ao estudar estes temas, se convertem por ver a beleza da Criação. O que eu tento é dar argumentos do ponto de vista da fé mas também do ponto de vista da ciência, para defender a vida desde o começo.

 

Como professor, sente que existe falta formação, ou informação, nas novas gerações, sobre o verdadeiro valor da vida e da sua preservação?

Completamente. Dou aulas a estudantes de Medicina e muitos deles vêm com as ideias que se começam a introduzir – por vezes explícita e, por vezes, não tão explicitamente –, e é triste que um estudante de Medicina use termos tão pouco científicos como “pré-embrião”. Sou professor de cardiologia e patologia médica mas em todos os sistemas de medicina, em algum momento, vem este assunto. O que tento transmitir aos meus alunos é o que sempre se defendeu do ponto de vista científico: a vida humana começa no momento da fecundação e por motivos extra científicos houve algum momento em que isso se tentou modificar. Até do ponto de vista legal, existe uma declaração do tribunal europeu, de 2011, que determina que o início da vida é no momento da fecundação. Por isso, é triste que haja estudantes de Medicina que não tenham estas ideias claras.

Também gosto muito de gerar o debate e permitir que os alunos expressem a sua opinião. É sempre interessante ver o motivo pela qual defendem as opiniões... que muitas vezes são baseadas em problemas que os próprios passam.

 

Na sua família, com sete filhos, como é que se dá a conhecer a defesa da vida?

Com o exemplo. Temos a sorte de, até agora, os nossos filhos mais velhos defenderem a vida ativamente... Aliás, se calhar, até mais do que os pais! Isto é simplesmente viver a beleza de cada uma das gravidezes que a mãe tem tido. É natural, numa família numerosa, que os membros dessa família acabem tendo a consciência do dom que é ter um irmão. Sempre que a minha mulher ficou grávida, a notícia foi sempre recebida com alegria, tanto por nós como por eles... mesmo apesar de termos sete filhos e morarmos numa casa com três quartos... Já começa a ser uma situação difícil. Apesar disso, eles também veem essa situação com uma perspetiva de generosidade. Também temos o costume de ir em família às manifestações em defesa da vida. Desta forma, todos eles acabam por ser defensores da vida.

 

Na medicina, a ética tem sido ultrapassada pela técnica?

Eu não diria isso. Os avanços técnicos são muito positivos. A questão é: como é que vamos usar esses avanços técnicos? Por exemplo, os avanços técnicos que nos permitem ajudar geneticamente as plantas ou os animais são muito positivos. O erro seria usar esses avanços para interferir na vida humana. Penso que não devemos culpabilizar os avanços técnicos que nos têm permitido melhorar muito a quantidade e a qualidade de vida. Aliás, os avanços que se têm visto em medicina são espetaculares. Grande parte dos tratamentos que utilizo habitualmente nem sequer existiam quando acabei o curso, em 1995.

É verdade que nem tudo o que é tecnicamente possível é eticamente justificável e o problema que existe é que, da mesma forma como em todas as profissões, há pessoas com ideias diferentes e que têm atitudes eticamente condenáveis. A minha experiência é que os médicos, na sua grande maioria, são defensores da vida.

 

Já lidou de perto com algum caso de alguém que queira abortar? O que faz mais falta a essa pessoa?

Sim, já lidei. Diria que fazem falta três coisas. A primeira é a informação. Há muitas mulheres que ficam grávidas e que quando começam a suspeitar que estão grávidas, o embrião já está desenvolvido, tanto que já tem coração. Como cardiologista, gosto sempre de dizer que o coração começa a bater no mês da fecundação. Muitas destas mulheres são enganadas, porque lhes dizem que não têm ainda uma criatura humana mas um conjunto de células. Por exemplo, quando estava na faculdade tinha uma amiga que trabalhava numa ONG e quando as mulheres queriam abortar, eles ofereciam a possibilidade de fazer uma ecografia. Na maior parte das vezes, a mulher, após ver o embrião, mudava de opinião. A segunda coisa é o apoio. Em Espanha quem está a abortar são mulheres pobres, emigrantes... Provavelmente se essas mulheres recebessem apoio, logicamente que preferiam continuar com a gravidez. Por último, transmitir à mulher que aquela nova vida é um dom. Mesmo na pior situação, existe sempre a possibilidade de dar a criança para adoção. O aborto produz uma situação de morte irreversível mas também produz uma situação de dor, depressão, alterações físicas e psíquicas na mulher. Existem vários artigos científicos que demonstram isso e que muitas vezes se tentam ocultar.

 

O que a Igreja pode fazer mais na defesa da vida?

Há várias coisas que já se fazem e podem fazer. A Igreja é a instituição do mundo que mais defende a vida. Em primeiro, devemos transmitir a beleza do início da vida. É importante chamar as coisas pelo nome. Em português e espanhol temos a mesma palavra – “aborto” – para nos referirmos ao aborto espontâneo e ao aborto provocado. Os ingleses têm a sorte de ter duas palavras distintas: «Miscarriage» (aborto espontâneo) e «abortion» (aborto provocado). Mesmo assim, a palavra aborto soa mal e já se inventou o termo “interrupção voluntária da gravidez”, que é um termo triplamente “desinformador”. Diz-se “interrupção” como se fosse um aspeto fisiológico; depois, “voluntária”, sabendo que muitas das mulheres são pressionadas pelos pais das crianças e pelo trabalho; por último, fala-se em “interrupção da gravidez” como se não fosse um menino ou menina que vai morrer nesse momento. A Igreja tem de transmitir a beleza da vida, mesmo já se tendo feito muito nesse objetivo.

Penso também que a Igreja tem de se aproveitar dos diferentes contactos que continuam a existir com muitas pessoas – através dos casamentos, batizados, Natal – para dar informação, porque, por vezes, o que mais falta é informação. Por último, devia transmitir que todos e de forma particular os cristãos devem ser defensores mais ativos da vida.

 

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Perfil

Manuel Martínez-Sellés é casado, tem sete filhos e recebeu inúmeros prémios nas áreas de cardiologia e bioética. É médico cardiologista, professor universitário, presidente da secção de Cardiologia Geriátrica da Sociedade Espanhola de Cardiologia e vice-presidente do Comité de Ética do Hospital Universitário Gregorio Marañon. É Doutor em Medicina e Cirurgia, Mestre em Desenho e Estatística em Ciências da Saúde e Especialista Universitário em Pastoral Familiar. 

Manuel Martínez-Sellés esteve na Igreja de Cristo-Rei da Portela, em Lisboa, no passado dia 23 de setembro, para apresentar o livro ‘E Deus fez-Se célula’, da Paulus Editora, que está disponível nas livrarias e em www.paulus.pt. 

 

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‘E Deus fez-se célula’, de Manuel Martínez-Sellés

 

Capítulo 7 - Manipulação da linguagem

 

Enorme manifestação. Cerca de 5000 pessoas reuniram-se na Puerta del Sol, em Madrid... Os manifestantes exigiram o fim da violenta campanha contra o aborto por parte de setores ultraconservadores.

El País, 24 de janeiro de 2008

 

O mundo de pernas para o ar: defender a vida é violento. O problema é que existem pessoas que acreditam nisso. A linguagem é muito importante, permite comunicar ideias, pensamentos e sentimentos. Infelizmente, tanto na bioética do início como na do fim da vida, tem havido uma mudança errada, premeditada e quase universal da linguagem. Esta mudança facilita adotar a mentalidade, promovida pela confusão e o relativismo cada vez mais difundidos, que defende que não se sabe exatamente onde começa e onde acaba o homem ou a pessoa. É uma confusão intencional que visa manipular a opinião pública a favor dos interesses da cultura da morte e do desprezo da vida humana (especialmente a mais fraca). O aborto passa de crime ou pecado a direito. Ao embrião é negada a natureza humana e torna-se num objeto suscetível de eliminação ou experimentação.

A coisa não fica por aqui, inventam-se novos termos ou palavras como “interrupção voluntária da gravidez” para evitar dizer aborto com tudo o que implica. Como escreveu certa vez o Pe. Enrique Monasterio, do jeito que isto vai acabaremos chamando ao homicídio “interrupção voluntária da vida alheia não desejada”. A verdade é que o termo “interrupção voluntária da gravidez” está errado em cada uma das suas palavras, porque não é uma interrupção dado que não há retoma; quase nunca é voluntária porque as mães sofrem todo tipo de pressões; e aquilo com que se acaba não é só uma gravidez, é uma vida humana, dado que o aborto envolve acabar com uma vida humana (a mais inocente e indefesa de todas), e não acabar com um processo fisiológico da mulher como a digestão ou o sono.

Mas mesmo este pseudotermo pode acordar algumas consciências, e é, por isso, que é cada vez mais comum o uso das suas iniciais, IVG, para esconder a dura realidade do aborto. Na verdade, o termo aborto é insuficiente porque, na nossa língua, tão rica noutros campos, uma só palavra designa o aborto provocado e o espontâneo (miscarriage para os ingleses). Abortion soa mais forte e mais real em inglês, os seus partidários chamam-se a si mesmos pro-choice fugindo do temido termo.

Já comentei a manipulação de diferentes expressões como “pré-embrião” para se referir ao embrião não implantado; “pílula do dia seguinte” para um medicamento abortivo que impede a implantação; “meninos ou embriões-medicamento” para a criação e destruição de embriões para curar doenças; e num capítulo posterior, vamos ver o “aborto terapêutico” para matar um embrião ou feto por um suposto alto risco para a mãe. Essas distorções da linguagem não são apenas eufemismos, dado que pretendem arrebatar ao embrião não implantado a sua condição humana. Se não é um ser humano, a sua destruição não é considerada um crime e legitima-se qualquer manipulação em embriões humanos não implantados. Alguns aproveitam para estender a legitimação a todos os tipos de embriões e fetos (devemos recordar que aos dois meses muda o nome de embrião para feto).

São famosas as declarações da ministra espanhola Bibiana Aído, feitas durante uma entrevista à Cadena SER. A chefe do Ministério da Igualdade foi questionada por um ouvinte se um feto de treze semanas, que ele considerava muito semelhante a um bebé, a um ser vivo, efetivamente o era. Ela respondeu: «Um ser vivo, claro, o que não podemos dizer é ser humano, porque isso não tem base científica.» Trata-se de generalizar um suposto “direito ao aborto”. Na realidade, em Espanha, já há vários casos de médicos condenados por “privar do direito ao aborto” ao não fazer o diagnóstico pré-natal de síndrome de Down ou de malformação fetal.

Infelizmente, em muitos países como Espanha, a sociedade está a assumir esses novos significados, sem reparar nas consequências que deles resultam. A cultura da morte em que vivemos procura uma progressiva apatia em relação ao aborto e à manipulação de embriões humanos. Às vezes, mensagens truncadas tornam difícil distinguir se numa situação estamos diante de um caso de contraceção ou de aborto e prevalece a indiferença social em relação ao aborto e à manipulação de embriões.

A confusão é tão intensa que eu já vi casais cristãos bem-intencionados recorrer à fertilização in vitro, que, entre outras coisas, produz sistematicamente abortos. Uma boa solução é dada por Santo Inácio de Loyola: «Para estarmos seguros, devemos defender o seguinte: o que aparece diante dos meus olhos como branco, devo considerá-lo como preto se a hierarquia da Igreja o considerar assim.» São palavras muito atuais neste campo, dado que o que é branco, muitas vezes, é apresentado como preto e vice-versa.

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