Missão |
Padre Adelino Ascenso
“O Japão é um mundo enigmático, cativante, árduo, repleto de contrastes e contradições”
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O padre Adelino Ascenso nasceu a 30 de Outubro de 1954. Fez o curso filosófico-teológico na Universidade Católica Portuguesa do Porto, os estudos de 2º e 3º grau na Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma, entre 2004 e 2008, e é mestre em Teologia. É Superior Geral da Sociedade Missionária da Boa Nova (SMBN) e esteve alguns anos em missão no Japão.

 

A vocação de padre missionário

Aos 11 anos de idade recusou-se a entrar no Seminário Menor. Após essa decisão teve um percurso “particularmente diversificado”, tal como nos conta: “Lecionei línguas (português e alemão) e trabalhei como tradutor na Alemanha, dediquei-me às artes plásticas na Alemanha e em Portugal e parti para a Ásia, permanecendo durante um ano na Índia, no Nepal e no Tibete. Depois desta «luta contra Deus» – como eu defino estas duas décadas de busca, desde que me recusara a entrar no Seminário Menor – «perdi a batalha» quando estava num mosteiro budista no Nepal: decidi que regressaria ao meu mundo cultural europeu e seguiria a vida sacerdotal. No entanto, ainda não chegara o tempo certo, pelo que parti para a América Latina. Mais tarde, ao avaliar estas viagens pelos dois continentes, que tiveram a duração total de três anos, considerei-as de grande importância para o meu amadurecimento humano e espiritual, assim como para a minha vocação de padre missionário”. Em 1991 entrou no Seminário Maior da Sociedade Missionária da Boa Nova em Valadares e a 21 de fevereiro de 1998 foi ordenado sacerdote, na Sé de Leiria. A 10 de março de 1998 partiu para o Japão “estendendo-se, assim, o campo de ação da Sociedade Missionária da Boa Nova (SMBN) àquele país e ao continente asiático em geral”.

 

Eleito Superior Geral

Ao chegar ao Japão, estudou a língua japonesa durante dois anos e, no ano 2000, iniciou oficialmente as suas atividades pastorais. Trabalhou em paróquias da Arquidiocese de Osaka e, a pedido da Universidade Católica de Osaka, começou a leccionar naquela instituição. Entre 2004 e 2008 estudou na Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma e, após terminar o doutoramento em teologia, regressou a Osaka. Durante mais alguns anos lecionou na Universidade Católica de Osaka ao mesmo tempo que desempenhava as funções inerentes ao trabalho pastoral em paróquias e assumia responsabilidades “no campo do diálogo inter-religioso e da comissão de liturgia da Arquidiocese de Osaka”. Em julho de 2014 realizou-se em Portugal a XII Assembleia Geral da SMBN (na qual participou como delegado do grupo do Japão) onde foi eleito Superior Geral.

 

“Atendemos e escutamos muita gente desesperada”

Sobre a sua experiência no Japão, partilha: “Desde o início da minha presença no Japão que travei conhecimento com pequeninas comunidades católicas e procurei entrar na daquele país onde o cristianismo ainda é mais ou menos encarado como «religião estrangeira». O número atual de católicos japoneses não ultrapassa em muito aquele do denominado «século cristão», isto é, o período subsequente à chegada de Francisco Xavier ao Japão, em 1549. Permanece a interrogação: «Porque é que o cristianismo não ganhou raízes no solo japonês?» Trata-se de uma reflexão que não nos deve abandonar. A Igreja japonesa é atualmente constituída por 16 dioceses. Três delas são arquidioceses. Todos os bispos são japoneses. Haverá cerca de 800 padres japoneses e outros tantos estrangeiros. A percentagem de cristãos é cerca de 1% da população de 127 milhões; os católicos, cerca de 0,3%, isto é, à volta de 400 mil. Haverá também cerca de outros 400 mil católicos estrangeiros, principalmente brasileiros, filipinos, vietnamitas e peruanos, embora a nacionalidade dos católicos estrangeiros atinja as várias dezenas. Uma Igreja muito bem organizada para tão poucos fiéis. É que a Igreja não se dedica apenas à manutenção dos grupos de paroquianos. A Igreja tem universidades, escolas, jardins infantis, hospitais, etc. Diz o Papa Francisco que, apesar de pequena, a comunidade católica do Japão é hoje muito respeitada pelos japoneses por causa do serviço que ela presta a todos, independentemente da religião. Atendemos e escutamos muita gente desesperada. Uma Igreja «estrangeira» que talvez necessite de uma Cristologia renovada, na linha de um Cristo débil, companheiro e de compaixão maternal.” Diz-nos que “o Japão é um mundo enigmático, cativante, árduo, repleto de contrastes e contradições. O povo é gentil, atencioso, delicado, de nível cultural elevado. Um país economicamente rico, mas cheio de pobrezas, que se radicalizam nas mortes por excesso de trabalho e no elevadíssimo número de suicídios. Um filão de novas formas de pastoral de encontro e acompanhamento discreto e atento. O ser-se companheiro, caminhar com…Esta é uma das características que terão de cunhar o missionário indelevelmente. Apercebemo-nos de que a aprendizagem da língua – fator imprescindível para desenvolver qualquer atividade pastoral no Japão – é apenas um meio de comunicação que nos conduz à entrada do gigantesco edifício da cultura, com as suas formas de pensar, agir e reagir tão distintas do nosso mundo ocidental, que a cada momento brota, naturalmente, a interrogação quanto às nossas pretensões de certeza. Uma depuração, uma kenosis dolorosa mas necessária. Normalmente, dedicamos os dois primeiros anos à aprendizagem da língua, com 4 horas diárias numa escola de línguas, de segunda a sexta, e com muito “trabalho de casa” diário. Depois destes dois anos, começamos a trabalhar em alguma paróquia, cometendo muitos erros no nosso japonês titubeado. Primeiro, as pessoas dizem-nos que falamos bem e nós sentimos o nosso ego a subir; daí a pouco tempo, damo-nos conta de que quando dizem que falamos bem querem dizer que ainda temos muito que aprender. E o nosso ego cai por terra. Desce, também, a nossa autoconfiança. Mais tarde, paulatinamente, apercebemo-nos de que as pessoas já não nos dizem que falamos bem. É chegado o tempo de começarmos, lentamente, com muita humildade, a alicerçarmos melhor aquilo que dizemos e fazemos, pois talvez estejamos no bom caminho da aprendizagem. Isto acontece, geralmente, depois de 5 a 7 anos”.

texto por Catarina António, FEC – Fundação Fé e Cooperação
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