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Somália: o país africano onde há apenas uma igreja católica
A fé na clandestinidade
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Infelizmente são muitos os países no mundo onde os Cristãos são perseguidos. A Somália é um deles. Ameaçados por grupos jihadistas radicais, os crentes são obrigados a viver a sua fé clandestinamente. Neste país do chamado “Corno de África”, em que até o Natal foi proibido, há apenas uma igreja católica e não mais de dez pessoas arriscam ir até lá para rezar.

 

São poucos, muito poucos, os Cristãos na Somália. Mas todos eles estão ameaçados, todos eles correm risco de vida. Rezar ou manifestar publicamente a sua fé neste país do “Corno de África”, onde a Igreja Católica é perseguida há quase três décadas, pode significar a morte. Na memória de todos está ainda o choque pelo assassinato, às mãos de um comando extremista, junto à porta da catedral, de D. Salvatore Colombo, Bispo de Mogadíscio. Foi no dia 9 de Julho de 1989. Mais recentemente, outros cristãos pagaram com a vida a ousadia de manifestarem em público a sua fé em Jesus. Foi assim com Annalena Tonelli, uma enfermeira voluntária morta em 2003 noutro ataque armado, ou a Irmã Leonella Sgorbati, também assassinada a tiro por dois homens armados em 17 de Setembro de 2006, depois de mais de três décadas de trabalho junto das comunidades mais vulneráveis em África. A sua morte revelou o grau de insensatez dos criminosos mas ainda hoje os Cristãos da Somália recordam o seu exemplo de vida, a simpatia com que sempre acolheu os outros, o seu sorriso luminoso e as últimas palavras que proferiu, depois de o seu corpo ter sido trespassado pelas balas: “perdoo-lhes, perdoo-lhes…”

 

Proibir o Natal

Salvatore, Annalena e Leonella são apenas três nomes de um longo martírio de cristãos na Somália. Ninguém sabe ao certo quantas pessoas já perderam a vida neste país africano situado entre o Oceano Índico, o Quénia, a Etiópia e o Jibuti. A violência que é exercida contra os Cristãos não é, porém, a única tragédia da Somália. A pobreza, a corrupção e o desgoverno têm feito o resto. Mas a perseguição aos Cristãos está bem presente. Ainda no ano passado, o Governo proibiu até as celebrações do Natal por serem contrárias à fé muçulmana, medida que muitos viram como uma perigosa cedência aos grupos terroristas que anseiam transformar o país num protectorado gerido com mão de ferro pela sharia, nomeadamente o temível Al-Shaabab, ligado à Al Qaeda. É neste contexto concentracionário que vivem os Cristãos na Somália. São uma ínfima parcela da população mas todos arrastam consigo o estigma de serem uma comunidade perseguida, de serem um alvo do terror. Os constantes ataques e ameaças empurraram a Igreja deste país para a quase clandestinidade. D. Giorgio Bertin, administrador apostólico de Mogadíscio e Bispo de Jibuti, disse, a este propósito, à Fundação AIS, que esse é apenas um mal menor. “Mesmo se tiver que ser no silêncio, ainda assim é melhor do que não estar.”

 

A única Igreja

Os Cristãos da Somália são perseguidos, ameaçados, mas não desistem. Ainda agora, conseguiram reabrir, ao fim de décadas, a pequena Igreja de Santo António na cidade de Hargeisa, na chamada Somalilândia, uma região autónoma situada no Norte da Somália e junto ao Jibuti. A reabertura deste templo, que se confunde mais com uma capela do que com uma igreja, dificilmente seria notícia não fosse o caso de ser o único espaço de culto existente actualmente em todo o país. D. Giorgio conta a história à Fundação AIS. “A igreja foi construída pelos capuchinhos em 1950, mas durante muitos anos permaneceu fechada. Antes do levantamento dos rebeldes contra as autoridades somalis em Mogadíscio – a capital da Somália –, eu celebrava lá pelo menos três vezes ao ano, incluindo o Natal e a Páscoa... depois, ficou muito perigoso. Em Janeiro, entrei em contacto com as autoridades em Hargeisa, e expliquei que gostaríamos de reabrir a igreja e que usaríamos o espaço também como lugar de actividades humanitárias sob responsabilidade da Caritas.” E a proposta foi aceite.

 

Milagre de Santo António

O Bispo fala agora na reabertura da igreja com um sorriso que dispensa mais palavras, mesmo reconhecendo que são muito poucas as pessoas que têm participado nas missas. “São umas dez pessoas, no máximo, contudo isso não diminui a importância de haver um lugar de culto” com as portas abertas na Somália.
A pequena igreja em Hargeisa é o único lugar visível de presença da Igreja Católica em todo o país, num forte contraste, por exemplo, com o número cada vez mais crescente de mesquitas financiadas pela Arábia Saudita. Consagrada a Santo António, esta Igreja é como que um sinal do atrevimento dos que não se deixam amedrontar pelo terrorismo. Na Somália, a fé é vivida clandestinamente por um número ínfimo de cristãos que são, até por isso, um exemplo de coragem para todos nós. D. Giorgio Bertin sabe que os Cristãos do seu país não estão abandonados, que podem contar sempre com as orações e a generosidade dos benfeitores e amigos da Fundação AIS. Foi com a sua ajuda, aliás, que se reconstruiu a Igreja em Hargeisa e não será de estranhar que, com a intercessão de Santo António de Lisboa, um dia venha a ser possível rezar às claras, sem medo de atentados, de violência e de morte na Somália.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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