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Irmã Guadalupe: o exemplo admirável dos Cristãos sírios
Livres até ao martírio
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A Irmã Guadalupe esteve em Portugal e repetiu vezes sem conta as mesmas histórias. Falou das bombas que continuam a ensanguentar Alepo, descreveu a cidade sitiada por terroristas, explicou como é terrível sobreviver sem água nem luz eléctrica durante quase todas as horas de todos os dias e contou por que razão, apesar de tudo isso, os Cristãos da Síria são exemplo para todos nós.

 

Centenas de pessoas escutaram, sempre num impressionante silêncio, as histórias que a Irmã Guadalupe trouxe da Síria, mais concretamente da cidade de Alepo, que a guerra transformou nos últimos cinco anos num autêntico matadouro. Esta religiosa argentina, de 43 anos, da Família Religiosa do Verbo Encarnado, visitou o nosso país a convite da Fundação AIS para poder contar, olhos nos olhos, todas as histórias que presenciou da violência da guerra, da perseguição aos Cristãos e do incrível testemunho de fidelidade que todos eles continuam a oferecer ao mundo. Todas as guerras são brutais, mas depois das palavras da Irmã Guadalupe, as imagens da cidade desfigurada de Alepo, que quase todos os dias nos entram em casa pelas televisões, ganham como que um novo significado. Há uma imensa tragédia que se esconde nos prédios em ruínas de Alepo, nas pessoas que são resgatadas dos seus escombros, e no sentimento de impotência perante o rebentamento das bombas, o silvo das balas. Percebe-se melhor toda essa tragédia depois de se ter escutado a Irmã Guadalupe, mas o que fica a ressoar na nossa memória são as palavras que repetiu vezes sem conta para que não nos distraíssemos do essencial: “Há mortos todos os dias.” E todos os dias – diz esta religiosa argentina – há novas histórias de cristãos que não renunciam à sua fé mesmo que tenham de pagar com a vida essa coragem.

 

Os novos mártires

“Tanto no bairro onde vivíamos como em todos os outros bairros havia ataques constantes dos grupos terroristas. Nas primeiras semanas era proibido sair e refugiámo-nos nos sótãos e caves, e assim ficámos uma, duas semanas, sem sair, à espera que terminasse. Mas as semanas transformaram-se em meses, e os meses em anos. Então, aprendemos a conviver com a guerra. Habituámo-nos a adormecer em plenos bombardeamentos e a sair à rua sob tiroteios. Não havia outra opção e as pessoas tinham de continuar a viver. Os ataques eram permanentes, mas sobretudo nos bairros cristãos.”
Em silêncio, sempre em silêncio, como quem assiste a algo de muito precioso, centenas de pessoas escutaram as palavras da Irmã Guadalupe em todos os encontros, em todas as vigílias de oração em que participou. “E acreditam que os Cristãos renegam a sua fé para salvar as suas vidas?” A pergunta ficou suspensa dos seus lábios durante alguns segundos. Depois, sorrindo, deu a resposta: “Quando os terroristas entram nos bairros e, um por um, ameaçam matar os Cristãos com metralhadoras caso não se convertam, acreditam que eles renunciam à sua fé? De maneira alguma! Acham que eles morrem renegando a fé, com gritos desesperados? Não. São mártires. Morrem com um sorriso nos lábios. Morrem pronunciando o Santíssimo nome de Jesus Cristo. São os nossos mártires, a glória da Igreja dos nossos tempos.”

 

Pessoas comuns

Estes novos mártires são pessoas concretas, comuns, “pessoas como nós, com as suas limitações e defeitos”. Com os seus medos. No entanto, disse também a Irmã Guadalupe, são pessoas “conscientes da única razão por que devem viver e da única razão por que devem morrer”. Para quem vive num Ocidente cada vez menos comprometido com a religião, as palavras da Irmã Guadalupe – escutadas no Estoril, Lisboa, Porto e Almada – foram como que alfinetadas na nossa consciência. Ela veio dizer-nos, através dos exemplos concretos de tantos Cristãos, que a fé é inegociável mesmo quando se tem uma arma apontada à cabeça. “No Egipto, por exemplo, os Cristãos fazem tatuagens da cruz na própria pele. Qual a razão? Em primeiro lugar, para se distinguirem como Cristãos. Não é para se esconderem, não é para fingir. Não é para se acomodarem no mundo, para parecerem bem. É para se distinguirem como Cristãos. Marcam-no na própria carne. A segunda razão por que tatuam a cruz é para se prepararem para o martírio. Seguramente que eles recebem uma graça de Deus para se manterem firmes, pois o martírio é uma graça. E é uma graça que é consequência também da oração de todos vós.”

 

Livres até ao fim

A Irmã Guadalupe esteve em Portugal em nome dos Cristãos perseguidos na Síria, no Médio Oriente. Ela esteve connosco para denunciar uma tragédia que o mundo teima em querer ignorar, mas, acima de tudo, veio pedir as nossas orações e o nosso compromisso para com estes irmãos. “É doloroso voltar a recordar, uma e outra vez, todos estes exemplos, todas estas histórias. Mas é muito gratificante e encorajador poder fazê-lo convosco. E é isso que continuamos a pedir: que rezem por eles, que não deixem de o fazer, porque realmente estão a sustentá-los com as vossas orações.” Os Cristãos de Alepo, na Síria, têm dado um exemplo de fé extraordinário ao mundo, a todos nós. Como a Irmã Guadalupe explicou, muitos destes cristãos têm o hábito, ancestral, de tatuarem a cruz na própria pele, identificando-se assim abertamente com Jesus. No entanto, eles têm demonstrado todos os dias, na violência da perseguição e da guerra, que, na verdade, têm a cruz tatuada é no coração. Por isso é que são verdadeiramente livres. São livres até ao fim. Até ao martírio.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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