Missão |
Irmã Myri, religiosa portuguesa na Síria
“A fé é o melhor dom que se pode ter nesta terra”
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Mária Lúcia Ferreira (agora conhecida como Irmã Myri) nasceu em Lisboa, no dia 19 de maio de 1981. Sempre viveu numa aldeia da paróquia do Milharado, concelho de Mafra. Frequentou a escola primária na sua aldeia. Pertence à  Congregação das Monjas da Unidade de Antioquia e vive a sua missão na Síria.

 

Nasceu seis dias depois do atentado ao Papa João Paulo II e foi batizada alguns meses depois, no Domingo de Cristo-Rei. “Por causa dos laços que esse lugar e acontecimentos têm com as aparições de Fátima, estas coincidências virão a ser sinais muito importantes na minha vida”, partilha. Continuou os seus estudos na Malveira “como todas as crianças da região” e depois frequentou a escola secundária em Loures. Estudou depois dois anos na Faculdade de Veterinária em Lisboa, “antes que o Senhor me tenha seduzido e seja mais forte que eu para me arrancar ao que gostava muito”, partilha. Com quatro ou cinco anos de idade sentiu que o Senhor lhe deu uma “graça interior mística e substancial”, que só foi discernida mais de 20 anos depois, quando chegou à Síria. Quando entrou na catequese não conseguiu ligar o ensinamento que recebia da Igreja a essa experiência íntima que também não sabia nomear. Cresceu educada na fé “mas racional e científica de mentalidade”. “Desde cedo me sentiam diferente do meu meio natal e muitas coisas sociais ou mundanas que normalmente interessam às pessoas não me despertavam interesse nenhum e por essas e por outras tinha muitas dificuldades nas relações interpessoais, preferia isolar-me e refugiar-me nos livros, na televisão ou simplesmente procurar o silêncio e a solidão ou contemplar a natureza”. Viveu uma profunda crise de identidade que quase a levou a abandonar a Igreja, mas após participar nas Jornadas Mundiais da Juventude de Paris, num encontro internacional com Kiko Arguelo, fundador do Caminho Neocatecumenal, diz-nos: “Deus teve a misericórdia de me dar uma prova à minha medida de que algo existia além deste mundo. Imediatamente me lancei à procura d’Ele e alguns meses depois entrei na nova comunidade do caminho neocatecumenal que se formou na paróquia, depois das habituais catequeses”, conta-nos.

 

Unificação interior

A partir dos 16 anos, tudo começou a mudar: “Pouco a pouco uma unificação interior, reconciliação e abertura a todos os níveis, ao mesmo tempo que uma descida aos meus infernos interiores para ser realmente libertada, que não foram momentos fáceis mas benditos, porque já não vivia sozinha como antes”. Começou a querer aprender tudo e não tardou a partir. Entre os 18 e os 20 anos começou a ser apaixonada e arrebatada pelo Senhor. “Era o ano do Jubileu 2000, muitas ocasiões e encontros. Um deles foi em Fátima, sozinha diante de Nossa Senhora. Gosto da canção ‘Palpitação’ dos Madredeus para descrever o que vivia nessa altura. Deixo esta frase: “E a donzela aceita o ensejo sem a confissão”, assim era, sabia sem saber nem querer admitir. Na verdade só soube ao mesmo tempo que toda a gente: quando na peregrinação paroquial de um fim-de-semana ao Mosteiro das Irmãs de Belém nos Monts Voirons, Alpes franceses, por ocasião da primeira profissão de uma Irmã da paróquia do Milharado, simplesmente fiquei lá. Todo esse dia foi vivido numa confrontação interior. Ao despedir-me dela, disse-me: ‘Vais-te embora? Espera, ainda não conversámos! Há aqui um retiro vocacional no próximo mês’. ‘Não posso, tenho coisas para fazer, um exame, e...’ Mas no caminho até ao autocarro, dialogando com ela e interiormente, quando lá cheguei já não tinha razão nenhuma que me retivesse. Todos me esperavam, acabei por dizer: ‘Deem-me a minha mala, fico cá’. Claro que toda a gente, ou quase, ficou embraçada, sobretudo porque não sabiam o que dizer aos meus pais que ficaram de rastos, foi um choque! Mais tarde perguntei à Irmã porque me disse aquilo: ‘Tinhas cara de quem não tinha nada a fazer no mundo!’”.

Fez então o retiro vocacional de Agosto e decidiu ficar. Voltou um mês e meio a casa e partiu, sendo enviada para o mosteiro da Terra Santa. Partilha connosco o seu testemunho: “Fiquei lá 7 anos, só tendo voltado a França no ano seguinte para tomar o hábito. Acabei por partir por várias razões, a principal sendo que embora o enquadramento exterior da vida da comunidade estivesse orientado para favorizar a união mística com o Senhor, o ensinamento e direção espiritual ficava muito aquém do objetivo, sentia um mal-estar espiritual, que estagnava ou andava para trás. No entanto o Senhor escreve sempre direito por linhas tortas, foi uma experiência que me ensinou muito e, apesar de estar em clausura, me proporcionou algo de muito importante: o contacto no terreno com as várias realidades, conflitos, hoje presentes na Terra Santa e a sua significação escatológica e muito atual”.

 

A missão na Síria

“Enviaram-me então, em Maio de 2008 à Síria, ao cuidado da Madre Agnès- Mariam de la Croix para um discernimento espiritual. Ela tinha sido carmelita de clausura no Líbano e recebido um apelo para se dedicar à restauração da única Igreja de Antioquia, trabalhando para a unidade dos cristãos. O Senhor inspirou-a para restaurar um antigo mosteiro em ruínas na Síria e uma comunidade ia-se constituindo e foi erigida com o nome de Monjas da Unidade de Antioquia. Tinha intenção de ficar só o tempo necessário para um discernimento e acompanhamento espiritual, talvez um mês, mas o Senhor não me deixava partir. Acabei por tomar o hábito em Dezembro de 2010, sempre sem ver onde o Senhor me queria levar. No entanto, a parte espiritual que me faltava antes fui recebendo-a no meio de muitas dificuldades. Em 2011 começou a guerra, em Abril de 2012 a Madre Agnès viu-se obrigada a deixar o mosteiro por causa de ameaças de morte e para a segurança do resto da comunidade. Durante 2 anos e meio não a vimos, foi um sofrimento mútuo muito grande. Para a comunidade a vida continuou dentro dos muros do mosteiro por causa do perigo. Mas o Senhor quis proteger-nos e não permitiu que nada nos acontecesse, embora o mosteiro tenha sido várias vezes bombardeado. Foi uma altura de experiência e crescimento espiritual muito forte porque não havia outro apoio senão a fé e a confiança em Deus ao ponto de poder exclamar que a fé é o melhor dom que se pode ter nesta terra. Várias vezes estivemos para partir mas o Senhor manifestava-se para nos dizer que ficássemos. A nossa Madre foi solicitada para ajudar os que sofriam, ações de reconciliação às vezes muito importantes, falar para informar o que realmente se passa no país, ajuda humanitária. Hoje que o perigo à nossa volta se afastou, temos espaço para pensar em ir ajudar os que estão em maior necessidade, sobretudo criando projetos para ajudar as pessoas a ficar no país ou de ajuda humanitária de emergência. O facto de estar na Síria e de parecer que o Senhor fez coisas espetaculares na minha vida não faz de mim uma pessoa melhor ou mais especial que outra: é a Sua graça que se manifesta assim, a missão que me pede para cumprir, o papel a preencher no seu Corpo Místico (cada um tem o seu, o mais humilde pode não ser o mais pequeno). E uma grande responsabilidade num vaso de barro. Faz 15 anos que o Senhor me enviou e retém no Oriente. Tem sido um dom e também uma provação, que vivo principalmente para a Igreja e por Portugal que tem um papel único a jogar nestes tempos em que vivemos por causa de toda a nossa História coroada pelas aparições de Fátima que têm uma atualidade gritante neste momento precisamente aqui, onde se está a decidir o futuro do mundo inteiro à beira de uma guerra mundial atómica”, testemunha.

texto por Catarina António, FEC – Fundação Fé e Cooperação
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