Domingo |
À procura da Palavra
“Silêncio”
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SOLENIDADE DE S. VICENTE
“Por minha causa, sereis levados
à presença de governadores e reis,
para dar testemunho diante deles e das nações.”
Mt 10, 18


Em 2023 voltaremos a celebrar num domingo S. Vicente, padroeiro da Diocese de Lisboa. E passaremos ao lado das leituras do domingo para mergulhar, como neste ano, nos textos próprios para a solenidade deste mártir. Jovem diácono da Igreja de Saragoça, acompanhou prisioneiro o seu bispo Valério até Valência, onde foi martirizado em 304. Entre tradição e lenda, os seus restos mortais teriam sido recolhidos numa ermida, no Cabo que foi baptizado com o seu nome, e mandados trazer por D. Afonso Henriques para Lisboa em 1173. Herói da devoção dos cristãos moçárabes, nunca pode rivalizar com a devoção familiar a S. António. Ao seu nome se junta o atributo “Mártir”, para o distinguir de outros “Vicentes”, e para sublinhar o seu testemunho.


A palavra “mártir” vem do grego e significa “testemunha”. E foi em torno do testemunho de fé e de valores, concretizado em torturas, sacrifícios e morte, que ganhou a densidade que tem. Jesus anunciou perseguições, julgamentos e até a morte aos seus discípulos, por causa do seu nome. Prometeu que o Espírito Santo falaria por eles, mas até os próprios familiares os haviam de perseguir. Antecipou como promessa a identificação com a sua paixão e morte. Não é uma proposta aliciante para quem deseja levar a todos o anúncio do amor de Deus e a fraternidade que Ele convida a viver! Mas junta: “Se alguém estiver ao meu serviço, meu Pai o honrará” (Jo 12, 26).


Estreou esta semana o último filme de Martin Scorsese, “Silêncio”, adaptado do livro com o mesmo título do escritor japonês Shusaku Endo. Creio que sintoniza muito bem com esta festa de S. Vicente. A fé e a dúvida, a coragem e o medo, a palavra e o silêncio, o santo e o pecador, a negação e a afirmação, o poder e o serviço, foram alguns dos inúmeros temas que no livro me impressionaram. Do filme (que ainda não vi, na esperança de uma releitura do livro) não quero repetir o que muito se tem dito, mas partilho algumas palavras do actor Andrew Garfield, que interpreta Sebastião Rodrigues, um dos dois padres jesuítas que partiram à procura do seu mentor, o padre Cristóvão Ferreira que tinha renegado a fé: “Uma das coisas que percebi enquanto rodávamos o filme é que estamos sempre a venerar qualquer coisa. Estamos sempre a dedicarmo-nos a algo, mesmo que não tenhamos consciência disso. Por isso, é melhor termos consciência e escolher aquilo a que nos dedicamos.”


Será o silêncio de Deus uma constante de todos os martírios? Como o grão de trigo que morre para dar fruto no silêncio da terra? E não nos fez Cristo voz que se eleva contra o mal e a injustiça? Talvez fale mais alto a própria vida como diz Sebastião Rodrigues no final do livro: “O Senhor não ficará em silêncio. Mesmo admitindo que ele se mantenha calado, toda a minha vida até hoje falará dele para todo o sempre”!

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