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Paquistão: histórias de fidelidade, apesar da perseguição
Vidas sem medo
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Foi em Março. Vai fazer, daqui a umas semanas, dois anos. Akash, 20 anos, estava de guarda com uns amigos à porta da Igreja de São João, em Youhanabad, num Domingo, por causa dos rumores insistentes de que estaria iminente um atentado bombista. E era mesmo verdade. Akash, num gesto heróico, morreu para salvar a vida de todos os outros.

 

A história tem sido contada vezes sem conta entre a comunidade cristã local. Tudo aconteceu numa fracção de segundos. Akash, 20 anos, atirou-se sobre um homem, um terrorista, no preciso instante em que este ia fazer explodir o colete bomba que trazia consigo. Morreram os dois, mas, com aquele gesto, o filho de Bashir e de Nazbano conseguiu impedir mais um banho de sangue, conseguiu impedir que mais uma tragédia viesse a enlutar a comunidade cristã no Paquistão. Bashir ainda não se habituou ao luto, ainda não se conformou com a ideia de que perdeu o seu filho. No entanto, sempre que recorda o que aconteceu naquele Domingo de Março de 2015, as suas palavras escondem um profundo orgulho. “O meu filho sabia o sacrifício que estava a fazer. Ele deu a vida para salvar centenas de pessoas que estavam na Missa naquela manhã.” Para Nazbano, porém, é impossível falar no filho sem que as lágrimas lhe manchem o rosto carregado, desde então, de uma tristeza indizível. “Akash era muito especial. Tenho três filhos e uma filha, mas ninguém o pode substituir. Na manhã em que morreu, ainda lhe disse que não fizesse a vigilância, mas ele respondeu-me que era o seu dever. Como é que eu o podia impedir?”

 

Não perder a memória

Ali, em Youhanabad, na verdade ninguém sabe quantas vidas Akash poupou, quando se atirou sobre o terrorista que accionava, naquele instante, um colete de bombas que trazia dissimulado sob as roupas. No entanto, todos sentem que, de alguma forma, estão em dívida para com ele. Tal como nesta comunidade cristã, um pouco por todo o Paquistão há um terrível sentimento de medo e de orfandade. O caso de Asia Bibi, condenada à morte por blasfémia por ter bebido apenas um copo de água de um poço, é o exemplo maior de como todos os cristãos se sentem ameaçados neste país. Até por coisas inverosímeis. O pároco de Youhanabad diz que é muito difícil alguma vez se descobrir quem esteve, de facto, por trás do atentado, pois o que aconteceu, diz, não foi o gesto tresloucado de um homem mas sim a obra meticulosamente pensada de muitas pessoas. Foi mais do que um crime: foi um atentado terrorista contra os Cristãos. E as autoridades, acrescenta, na maior parte das vezes nem querem investigar os crimes cometidos contra a comunidade cristã. “O que nos sustenta na nossa procura por justiça é a memória do heroísmo de Akash.”

 

A história de Sadiq

Waqas Sadiq nunca conheceu pessoalmente Akash, mas seguramente ouviu a sua história, a forma como ele se atirou sobre o terrorista, a maneira como ofereceu a sua vida para salvar as dezenas de cristãos que enchiam, naquele Domingo de Março, a igreja de Youhanabad. Waqas nasceu em Lahore, numa aldeia, Chadala Khurd, onde apenas havia duas famílias cristãs. Apesar do ambiente hostil, apesar de na aldeia não existir sequer nenhuma igreja, Waqas Sadiq foi alimentando sempre o sonho de ser sacerdote e de oferecer toda a sua vida ao serviço da comunidade. Sadiq nunca conheceu pessoalmente Akash, mas sabe que, tal como ele, a fé em Jesus só faz sentido quando é assumida numa entrega sem limites. Mesmo que isso possa significar o sacrifício da própria vida. “Não vai ser fácil ser padre aqui, no Paquistão”, diz ele à Fundação AIS. “Não vai ser fácil por causa da pressão do Islão e por causa dos ataques dos terroristas… mas isso não me assusta. Apelo aos Cristãos do Ocidente que me ajudem, que estejam espiritualmente unidos a todos nós, que sejam verdadeiramente nossos irmãos. E que Deus vos abençoe!”

 

O atentado em Lahore

Asia Bibi, Waqas Sadiq ou Akash, são exemplo para todos nós. No Paquistão, os Cristãos estão, de alguma forma, ameaçados. Todos podem ser um alvo. Um ano depois do atentado contra a igreja de São João, em Youhanabad, outro terrorista fez-se explodir, desta vez num parque urbano, em Lahore, a 27 de Março, precisamente quando centenas de famílias passeavam por ali com as suas crianças durante as celebrações da Páscoa. Em Lahore, não houve ninguém para travar o atentado. Cerca de 80 pessoas, entre as quais três dezenas de crianças, perderam a vida quando a bomba deflagrou naquele Domingo sangrento. De Lahore, Youhanabad ou da pequena aldeia de Chadala Khurd, chegam-nos histórias, testemunhos de vida, exemplos de cristãos sem medo, de homens, mulheres e até crianças que assumem a sua fé em Jesus apesar de todas as ameaças, de todos os atentados, de toda a perseguição. Eles dão-nos um enorme exemplo de fidelidade e pedem-nos apenas que não os esqueçamos nas nossas orações.

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