Entrevistas |
Congregação da Missão: quatro séculos de evangelização e três de presença em Portugal
“É preciso criar um grande movimento de renovação das instituições caritativas”
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Na comemoração dos 300 anos de presença, em Portugal, da Congregação da Missão, o superior provincial defende uma “renovação das instituições sociais”. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, o padre vicentino José Alves sublinha a importância das “missões populares” como “tempo especial de evangelização”, porque mesmo “com uma igreja cheia, há muita gente que fica de fora”.

 

Como está presente hoje, em Portugal, o carisma de São Vicente de Paulo, em particular no cuidado pelos mais pobres?

Os tempos mudaram muito... e em muitas circunstâncias para melhor – Que Deus seja louvado! O carisma tem de ser permanentemente atualizado, renovado. Não porque o carisma envelheça, mas as pessoas envelhecem na sua aplicação. Hoje, as comunidades cristãs continuam a precisar de uma animação, de ter quem as inquiete, quem promova a evangelização, a formação cristã. As paróquias são importantíssimas mas obedecem a uma pastoral de manutenção, muito mais estruturada. É preciso que haja também movimentos e momentos especiais de evangelização. As missões populares, por exemplo, são este tempo especial para evangelizar.

 

Como nasceram as missões populares?

Nós queixamo-nos muito que os cristãos têm pouca formação religiosa – isto não é novo. No tempo de São Vicente de Paulo, no início do século XVII, em França, havia também essa perceção e a congregação nasceu precisamente por causa dessa intuição. O padre Vicente de Paulo teve, então, a inspiração de que a sua vida seria bem aplicada dedicando-se a isso, em vez de ser tutor de meninos ricos numa casa nobre.

Como é que ele começou? Indo pelas paróquias, começando depois a dar uma estrutura. A missão não tinha tempo de duração e terminava quando acontecessem três coisas importantes: 1) Quando todos soubessem o essencial do Evangelho, da fé cristã ‘para a sua salvação’; 2) Quando todos se reconciliassem, uns com os outros e todos com Deus; 3) Quando se organizassem de tal maneira que os pobres e doentes fossem cuidados pelos próprios habitantes da aldeia, fundando uma instituição que depois deu origem às ‘Cáritas’ paroquiais e às Conferências de São Vicente de Paulo. Para o padre Vicente, isso era importantíssimo para completar a missão, dando um novo rosto à aldeia, para que as pessoas ficassem com a convicção profunda de que assistir os pobres e deserdados era uma maneira de expressar o Evangelho, que tinham recebido na missão.

 

Hoje é fácil colocar a missão popular em prática?

É um grande desafio. Temos que refletir, pensar, criar e inventar modos destes três grandes princípios se tornarem realidade. Temos feito algum esforço nesse sentido. Hoje, a mensagem cristã – tal como sempre – deve ser personalizada, isto é, deve chegar às pessoas de maneira direta e pessoal e a melhor maneira de fazer grupos numa paróquia é através de uma missão popular. O problema é, depois, acompanhá-los. Acabam por ser tantos que o pároco não pode fazer outra coisa... O acompanhamento do padre aos diversos grupos é uma forma de manter a paróquia em permanente evangelização. Ficamos contentes por ver uma igreja cheia, mas há muita gente que fica de fora. E, nestes pequenos grupos, espalhados pela paróquia, atinge-se muito mais gente do que numa celebração.

 

Na nota da Conferência Episcopal [ver caixa] são referidas palavras de João Paulo II sobre São Vicente de Paulo, identificando-o como um “homem de ação e de oração,  de organização e de imaginação”. Como é que estão organizadas as Conferências Vicentinas, atualmente?

Não tenho números exatos. Tenho um número em relação à Diocese do Porto, que é a mais emblemática, com 347 conferências. Quase todas as paróquias têm uma. É uma organização paroquial, tal como o padre Vicente quis, porque o seu carisma parte de dois acontecimentos: o encontrar o doente que não sabia nada da fé cristã; e o dia em que se preparava para a Eucaristia quando uma senhora lhe veio dizer que estava ali uma família toda acamada e que não haveria ninguém para tratar dela. Naturalmente, o padre faz um sermão e depois foi visitar os doentes, levando a ajuda da comunidade. Mas e no dia de amanhã? Como vai ser? Foi neste ponto que São Vicente de Paulo foi exímio: na organização da caridade.

 

Esta necessidade continua atual...

Sim. Por exemplo, o chamado “apoio domiciliário” – nasceu precisamente naquele tempo. Podemos dizer que São Vicente de Paulo foi o fundador do Apoio Domiciliário.

 

São Vicente de Paulo não esperou pelos pobres...

Sim, e foi em busca deles. Esse pormenor é interessantíssimo.

 

Como está a participação da congregação na formação do clero?

Como disse, as coisas mudaram muito e, hoje em dia, cada diocese tem os seus sacerdotes, bem formados, e são as dioceses a assumir a formação. Presentemente, há dois ou três países em que a Congregação da Missão tem uma presença muito grande na formação do clero. Na Colômbia, por exemplo, temos sete seminários.

Em Portugal tínhamos dois, no Norte, sendo que o nosso Seminário Maior estava inserido numa aldeia.

 

Tem uma ideia de números que reflitam a presença da Congregação da Missão em Lisboa?

Paróquias, em Lisboa, só temos a Paróquia de São Tomás de Aquino. Em tempos, tínhamos a casa central, na Rua do Século, que depois foi transferida para junto da Igreja de São Tomás de Aquino, e desde julho de 2015 que, na Estrada da Luz, temos a casa provincial. Em Portugal somos atualmente 39 padres. Houve um decréscimo razoável, sobretudo porque tivemos muita gente em Moçambique. Depois, também nós entrámos em crise vocacional e temos, neste momento, três seminaristas.

 

Voltando à nota da Conferência Episcopal, o documento encoraja a congregação para “reajustar estruturas de outros tempos”, particularmente ao nível do “apelo dos pobres”. Como projeta a congregação daqui a uns anos e como se pode “reajustar” a oferta da caridade?

Em primeiro lugar, penso que é preciso criar um grande movimento de renovação destas instituições. Muitas delas, inclusive as Conferências de São Vicente de Paulo, sofrem de um envelhecimento muito grande porque são compostas por muitas pessoas de idade...

 

Essa renovação das instituições de solidariedade da Igreja passará por uma redescoberta da caridade por parte dos mais novos?

Penso que sim. Esta renovação da Igreja também passa por uma renovação de mentalidades, linguagem, estilo de vida, aproximando mais tudo isso do Evangelho e do homem contemporâneo. Por exemplo, o Papa Francisco é profundamente evangélico mas utiliza uma linguagem que há quase 20 anos não se utilizava. Uma linguagem que o torna mais próximo das pessoas. É isso que o torna mais do que simpático, isto é, atraente. Isso é que é importante, que o Evangelho comunicado por mim ou por outra pessoa seja mais atraente.

  

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Perfil

O padre José Augusto Alves é, desde outubro de 2016, o superior provincial (visitador) da Província Portuguesa da Congregação da Missão, cargo que já tinha exercido entre 2004 e 2010. Nasceu em 1946 (70 anos), na freguesia da Esperança, no concelho de Póvoa de Lanhoso. Foi ordenado em 1970 e esteve em missão, durante 12 anos, em Moçambique. Em Lisboa, foi o responsável pela animação vocacional e fez missões populares. Esteve também ligado à construção da nova igreja de São Tomás de Aquino, dedicada em 1996.

 

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Constante Missão

Na Missa por ocasião da comemoração dos 300 anos da presença em Portugal da Congregação da Missão, o Cardeal-Patriarca de Lisboa lembrou a vida de São Vicente de Paulo, convidando os cristãos a seguirem o exemplo do Santo francês, vivendo “em constante missão, longe ou perto, onde seja preciso”. “Quem se põe diante de Deus está como Deus quer, onde Deus quer e a fazer o que Deus quer... e as coisas acontecem”, afirmou D. Manuel Clemente, na homilia da celebração, que decorreu no passado Domingo, 29 de janeiro, na Igreja de São Tomás de Aquino.

  

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“O amor é inventivo até ao infinito”

São Vicente de Paulo

  

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Desafio da Congregação da Missão passa pelo “compromisso pelos mais pobres”

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) congratulou-se com os “quatro séculos de evangelização e três de presença em Portugal da Congregação da Missão”. Através de uma nota pastoral, disponível em www.conferenciaepiscopal.pt, e publicada no passado mês de novembro, os Bispos portugueses começam por lembrar o carisma da congregação, dedicado à “evangelização dos pobres e à criteriosa formação espiritual, doutrinal e pastoral do clero” e realçam a “vasta obra caritativa” do fundador da Congregação da Missão e das Filhas da Caridade. A nota destaca ainda a “capacidade” de Vicente de Paulo em “mobilizar recursos materiais e humanos de forma bem organizada”, desencadeados pelas “missões populares”.

O documento lembrou também a presença dos missionários vicentinos em Portugal, a partir do século XVIII, com a primeira casa da congregação a ser fundada em Lisboa, no ano 1720, com “intensa e frutuosa atividade votada à formação do clero e às missões populares.”

Como “desafios do carisma vicentino para o nosso tempo”, a nota pastoral realça a necessidade de “atualização” do carisma da congregação que “passa hoje pelo compromisso com os mais pobres, que de todos os cristãos exige ações concretas que, em espírito de missão e de serviço à Igreja, se hão de traduzir em obras mais do que em palavras”. Para este fim, os Bispos portugueses apelam à “coragem de reajustar estruturas de outros tempos, como se reajustam as roupas que vestem um corpo que cresce e se transforma”.

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