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Iraque: reconquista não significa regresso imediato dos Cristãos
A sombra do medo
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Igrejas esventradas, imagens decepadas, paredes queimadas, livros sagrados espalhados pelo chão. Aos poucos, com a libertação de vilas e aldeias no Iraque, em especial na chamada Planície de Nínive, percebe-se que os jihadistas se alimentam de ódio puro contra os Cristãos. Nada foi poupado. Agora, mesmo sem terroristas por ali, a sombra do medo prevalece. O regresso a casa é uma incógnita.

 

Nos últimos meses, nas últimas semanas, o exército iraquiano, apoiado pelos Estados Unidos e as forças curdas, tem vindo a libertar grandes áreas de território conquistado pelos jihadistas no Iraque, especialmente em Julho e Agosto de 2014. Muitas dessas aldeias e vilas agora libertadas eram o lar de comunidades cristãs desde há séculos. Agora estão vazias. Os jihadistas foram expulsos, mas a sua memória ameaçadora continua presente em todos os lugares por onde andaram, em todas as ruas, em todas as casas. Especialmente em todas as igrejas. Parece que um vendaval de terror passou por ali e deixou marcas profundas que precisarão de muito tempo para cicatrizar. Em Tal Keppe, por exemplo, a Igreja do Santíssimo Sacramento foi usada como centro de treino militar para crianças e adolescentes.

 

Diácono Basim

O Diácono Basim al Wakil foi um dos milhares de Cristãos que teve de fugir de casa, nesse fatídico mês de Agosto. Vivia em Bartella e não teve alternativa senão juntar numa mochila umas calças, duas camisas, dois pares de meias e um pouco de comida. Deixou tudo o resto para trás. Nem a Bíblia levou. “Apenas o terço.” Fugiu para Erbil, que se transformou, de um dia para o outro, num gigantesco campo de lágrimas. Regressou há semanas, depois de a cidade ter sido libertada, para saber se já seria possível voltar definitivamente a casa. Quando viu o grau de destruição em Bartella, quando voltou a franquear a porta principal da igreja, as lágrimas continuaram a correr-lhe pelo rosto.

 

Padre Sharbil

Qaraqosh. Igreja de São Jorge. Tal como o Diácono Basim al Wakil, também o Padre Sharbil Eeso deitou as mãos à cabeça quando voltou a entrar na igreja, ocupada durante meses pelos jihadistas, que a transformaram numa fábrica de bombas. A reconquista da cidade obrigou à fuga dos terroristas que deixaram para trás, perfeitamente alinhadas, num canto da igreja, centenas de bombas e granadas prontas a usar, prontas a derramar sangue. Até nas paredes estão escritas fórmulas químicas para a produção de explosivos. As marcas da passagem dos terroristas, dos jihadistas, estão em todo o lado. O seminário está num caos, as imagens foram todas destruídas, até o forro do tecto foi arrancado como se escondesse algum tesouro…

 

Louis Petrus

Se o Padre Sharbil não escondeu o desalento perante o grau de destruição na sua igreja causado pelos jihadistas, Louis Petrus ficou quase sem palavras quando voltou a casa. Para onde quer que olhasse, só via portas e janelas partidas, móveis danificados, coisas que tinham sido roubadas. Mesmo assim, acha-se uma pessoa de sorte. “Tinha ouvido histórias e visto fotografias da destruição causada pelos jihadistas. Agora que estou aqui, a ver a cidade com os meus próprios olhos, não sei o que sentir. Os jihadistas destruíram as minhas coisas, mas eu ainda estou, apesar de tudo, numa situação melhor do que muitos dos meus vizinhos cujas casas foram queimadas ou completamente destruídas.” Olhando em redor, abanando a cabeça em sinal de desalento, ainda consegue dizer: “Apesar de tudo, fui abençoado”.

 

Manal Matti

Igreja da Imaculada Conceição, ainda em Qaraqosh. Manal Matti trabalhava num salão de beleza quando, em Agosto de 2014, também foi obrigada a deixar tudo para salvar a própria vida. O salão, que era a sua fonte de rendimentos, fica mesmo ao lado da igreja. Mal a cidade foi libertada, Matti decidiu que tinha de regressar, de ver como estavam as suas coisas. Era necessário refazer a vida. Recomeçar. O que mais a impressionou nem foi tanto a destruição no seu salão de beleza, com coisas partidas ou o lixo espalhado pelo chão, mas sim o estado em que se encontrava a igreja. “Os jihadistas usaram a igreja como um campo de tiro e puseram lá dentro bonecos como alvos”, descreve ela, horrorizada. “Está tudo esburacado.”

 

Antídoto ao ódio

O Padre Sharbil Eeso, o Diácono Basim al Wakil, Manal Matti e Louis Petrus sentem-se órfãos no próprio país, na própria terra onde sempre viveram. Tal como eles já compreenderam, para milhares de famílias cristãs que se encontram refugiadas em Erbil e que tiveram de fugir do furação jihadista, o regresso poderá ainda demorar muito tempo. Sem segurança efectiva, nada será possível. Por isso, é necessário não esquecer e continuar a ajudar os milhares de refugiados que vão passar mais um Inverno rigoroso longe de casa. Alojamento, distribuição de medicamentos, roupa, aquecimento e comida fazem parte da ajuda – essencial – que tem sido providenciada pela Fundação AIS graças à generosidade dos seus benfeitores e amigos. Aos poucos, com a libertação da Planície de Nínive, percebe-se que os jihadistas se alimentaram de ódio puro contra os Cristãos. Por isso, para tantas famílias, a sombra do medo prevalece. Por isso, também, além da nossa solidariedade, é tão importante, para estes Cristãos, a certeza das nossas orações. Haverá melhor antídoto ao ódio?

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