Domingo |
À procura da Palavra
Os carris e a liberdade
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DOMINGO VI COMUM Ano A
“Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus,
não entrareis no reino dos Céus.”
Mt 5, 20

 

Gosto muito de andar de comboio. Talvez o gosto venha de vê-los, desde pequenino, no início da longa linha do Caminho de Ferro de Benguela. É verdade que não preciso, como tantas pessoas, de andar neles todos os dias e sofrer com os apertos, os atrasos e os mil e um sofrimentos que tantos experimentam diariamente. A disponibilidade para ver a paisagem e para mergulhar numa conversa ou numa leitura fazem dele um óptimo meio de transporte, mas tem um defeito: está preso a duas linhas, e entre a partida e a meta tudo está rigidamente determinado. Tão diferente da possibilidade de um caminho a pé, de bicicleta ou até de carro, onde as escolhas e os desvios podem ser frequentes. Nestas imagens arrisco uma comparação entre a rigidez da Lei e a liberdade do Reino que Jesus propõe!

 

No sermão da Montanha Jesus apresenta-se como educador. Não vindo revogar nada da Lei de Moisés, abre-lhe um horizonte mais alto, compromete numa liberdade de escolher melhor em vez de manter a prisão de um coração atrofiado. “Eu, porém, digo-vos” é a palavra que convida a pensar mais fundo e a sonhar mais alto, a concretizar a novidade de relações novas e fecundas em temas tão importantes como o homicídio, o adultério, o divórcio, o perjúrio, a lei de talião e o amor ao próximo (escutaremos os dois últimos no próximo domingo). Trata-se de optar pela cultura do amor, ir às raízes do mal e da indiferença, e abandonar a rigidez de, simplesmente, não fazer o mal! É a dignidade das pessoas que está em causa, o valor da reconciliação, a autenticidade do amor que une o homem e a mulher, a coragem da palavra dada. Jesus não pactua com uma vida cinzenta e falsa, de violências escondidas e aparências envernizadas, e muito menos naquilo a que se chama amor e não o é. Convida, isso sim, a encher tudo de verdadeiro amor. Como fazer isso sem arrancar as raízes da violência que germinam no íntimo de cada um?

 

Não é difícil constatarmos, na nossa convivência social, o crescimento da agressividade, de uma linguagem ofensiva, do “saltar da tampa” à mais pequena contrariedade. Entre muitos dados, “um estudo sobre indisciplina em Portugal indica que, no ano lectivo de 2015-2016, houve 11.127 participações disciplinares em apenas 5,4% da totalidade dos agrupamentos e escolas portugueses”(rr.sapo.pt). O que revelam estes dados das nossas realidades familiares e escolares? Da educação que se aprende em casa, ao convívio e confronto em sociedade, as escolhas que fazemos constroem a nossa vida.

 

A lógica do Reino de Jesus mostra uma liberdade maior do que a simples possibilidade de escolha. É a liberdade de realizarmo-nos na harmonia, na generosidade e na transparência. É a liberdade que espalha e constrói felicidade com os outros, respeitando-os na sua dignidade e na sua paz, capaz de perceber que não tem sentido apresentar-se diante de Deus sem os irmãos de quem se afastou. É a liberdade de Cristo que não oferece carris mas convida a caminhar com Ele!

 

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