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Padre Dâmaso Lambers: ?Ser presença de Jesus nas cadeias?
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Ao pensar em pastoral prisional, um nome surge desde logo na mente: padre Dâmaso Lambers. Foi condecorado no Dia de Portugal com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito e fala ao Jornal W da sua longa vida. O que o trouxe a Lisboa, como nasceu a paixão pela pastoral prisional e a colaboração na Renascença são algumas das histórias contadas na primeira pessoa.

O padre Dâmaso é um sacerdote de origem holandesa, pertencente aos Padres dos Sagrados Corações. Como e quando chegou a Lisboa?

Eu senti-me desde muito cedo atraído por Deus. Sinto-me um felizardo porque nunca duvidei da minha vocação. Entreguei-me e quando fui ordenado, em 1955, queria ir para as missões e até para uma missão bastante difícil, nas Ilhas Cook, na Polinésia, numa zona da Nova Zelândia onde a minha congregação está presente. Só que nesse ano, o Cardeal Cerejeira pediu mais três padres para as missões populares das paróquias de Lisboa. O meu provincial disse-me: ‘Oh padre Dâmaso, estou muito preocupado porque preciso de arranjar três padres… Tu não te importas de ir para Portugal?’ Eu aceitei e até disse que a minha mãe ia ficar contente por já não ir para tão longe! Ainda fiquei uns meses na Holanda, porque havia um capelão dum hospital que estava doente, e aproveitei para aprender o português. Depois vim para Lisboa, em princípios de 1957, e estive três meses no Seminário dos Franciscanos, porque precisava não só de falar o português, como também perceber a língua, porque os portugueses engolem muito as palavras. E eu ia assistir às aulas para ouvir falar o português. Recordo-me de um seminarista, António Montes, que me ajudou muito com o português e que hoje é Bispo de Bragança!

 

Como foram os seus primeiros tempos em Lisboa?

Estive um tempo na Penha de França, como coadjutor, para começar a pastoral, e ajudei também em Arroios, onde fiquei muito amigo de monsenhor José de Freitas, que era o pároco da altura. Ele ajudou-me muito, sobretudo quando começámos os Cursilhos de Cristandade. Em Junho de 1958, comecei a pregar missões, um pouco por todas as paróquias de Lisboa. Tem piada, porque em Alcântara conheci o padre João Gonçalves que me falou dos Cursilhos de Cristandade, por causa das minhas pregações. Mas estas missões não foram solução para recristianizar a diocese. Sabe porquê? Porque as pessoas andavam todas muito atrás de Nossa Senhora. Sempre que havia uma procissão, as pessoas aderiam. Por isso é que em muitas paróquias, sobretudo da zona da Malveira, eu fazia muitas procissões, mas procissões muito curtas para depois fazer o sermão!

 

O padre Dâmaso tem uma forte ligação aos Cursilhos de Cristandade.

Em Maio de 1960, fomos falar com o Cardeal Cerejeira, para lançar os cursilhos na diocese. Ele enviou então dois padres a Espanha para conhecerem este movimento: um padre dos Açores, que era assistente da LIC feminina, e o padre António Ribeiro. O padre dos Açores disse ao Cardeal Cerejeira que os cursilhos eram uma coisa espanhola que não tinha interesse para nós; mas o padre Ribeiro entendeu que a diocese deveria dar autorização. Foi graças ao futuro Cardeal Ribeiro que nós conseguimos avançar. No final desse ano de 1960 fizemos o primeiro Cursilho de Cristandade – para o ano fazemos 50 anos de presença em Portugal! – de que fui o primeiro director nacional.

 

Neste ano de 2009 completa também meio século ao serviço das capelanias prisionais. Recorda-se de como tudo começou?

Em 1959, fui convidado pela Direcção Geral de Prisões para fazer umas conferências na cadeia de Tires. Essas conferências, não sei bem porquê, tiveram um certo impacto e convidaram-me para dar mais conferências noutras cadeias. Eu deveria ter uma linguagem diferente do que era costume falar… não sei.

 

Foi nesse momento que a Igreja aproveitou esse entusiasmo…

Não no princípio. Sabe, naquele tempo eram nomeados para as prisões aqueles padres que já não serviam para nada… O próprio Cardeal Cerejeira dizia-me que tinha qualidades para outras coisas. Achava bem que eu fosse visitador voluntário e que tivesse uma certa influência nos serviços prisionais, mas não mais do que isso. Na altura fui muito animado pelo então cónego Manuel Falcão, que foi depois bispo de Beja. Nós éramos muito amigos e ele é que me animava para continuar. Só em 1966 o Cardeal me nomeou para o Estabelecimento Prisional do Linhó.

 

Foi também o primeiro coordenador nacional da assistência religiosa nas cadeias portuguesas.

Tivemos o 25 de Abril. Inicialmente, nenhum governo provisório se interessou pelas cadeias. Tivemos muitos problemas e não éramos bem vistos. O primeiro que se interessou foi Meneres Pimentel, que foi secretário de Estado da Justiça, em 1978. Apesar de na prática já ser, só em 1982 fui nomeado coordenador nacional da assistência religiosa nas cadeias portuguesas. Por causa do cursilhos, eu viajava muito pelo país e por onde passava ia sempre visitar a cadeia. Antes ainda da revolução, conheci o ministro da Justiça Antunes Varela que me deu um cartão que me permitia entrar em todas as cadeias de Portugal. Por isso, em 1965/66 já conhecia praticamente todas as cadeias.

 

Então nos anos 60 e 70 a pastoral prisional quase não existia?

Havia alguns padres que faziam visitas às prisões, mas era uma pastoral muito deficiente e incompleta. As paróquias perto das cadeias lembravam-se dos presos na Páscoa e no Natal, mas havia cadeias onde praticamente nunca ia um padre.

 

Em 1987, funda “O Companheiro”. O que o levou a criar esta instituição e qual a sua finalidade?

Eu também sou capelão da cadeia da Zona Prisional da Polícia Judiciária, que não tinha assistente religioso. E encontrava lá rapazes que já conhecia doutras cadeias e que me diziam: ‘Oh senhor padre, ninguém me ajudou’. Então, pensei em criar um ambiente, ou qualquer coisa, para eles não poderem dizer isto. O Companheiro (www.companheiro.org) é uma instituição que nasceu para auxiliar ex-reclusos que precisam de ajuda, que não têm apoio familiar, nem de ninguém. Actualmente, damos apoio a cerca de 70 pessoas.

 

Que tipo de pastoral prisional tem sido possível desenvolver no Estabelecimento Prisional do Linhó?

Eu tive aqui coisas fantásticas. Hoje em dia, é difícil. Esta é uma cadeia para jovens e quantos jovens lá fora vão à Igreja? Eu procuro ser uma presença. Tenho pouca gente na Missa de domingo, mas também não me importo. Por vezes tenho dez, quinze, vinte reclusos numa cadeia com mais de quinhentos. Mas faço isso porque naquele momento Jesus é o centro da cadeia. Ele está presente na cadeia. Naquele momento, o coração da cadeia é lá, onde estou a celebrar. Estou reformado desde o ano 2000, mas quero continuar nas cadeias até ao fim da minha vida! Um padre não se reforma. Temos de viver a nossa missão até ao fim!

Aos domingos à tarde vou até aos pátios da prisão, para estar com os reclusos. No outro dia disse-me um preso que nunca vai à Missa: ‘Senhor capelão, quando o senhor está aqui connosco sentimo-nos mais valorizados’. A minha vida é presença, é ser homem com eles e quando possível falar de Jesus, falar de Deus. Aos sábados de manhã tenho uma reunião informal, com presos e onde também vêm visitadores, que gira em volta da Bíblia. Muitos dizem que quando estão nesse encontro não têm noção de estar numa cadeia. Acima de tudo, temos de procurar fazer comunidade!

 

É desejo antigo que a pastoral das prisões integre juristas nas suas equipas. Que benefícios poderiam advir desta integração?

Estamos a trabalhar por uma “justiça restaurativa”, em que há um pacto entre o recluso e o ofendido, para se chegar a um entendimento. A justiça que nós temos é vingativa e nós queremos acabar com isso. Este desejo nasceu sobretudo na Bélgica e no Canadá. Este é um tema que a Igreja que avançar. Nós pertencemos ao movimento Prison Fellowship International, que lança esta justiça restaurativa. Isto ainda está muito no princípio e é claro que não se pode aplicar a todos os casos. Para isto, nós precisamos de juristas. Nesta altura, já temos connosco um jurista na FIAR (Fraternidade das Instituições de Apoio a Reclusos), que eu fundei nos anos noventa.

 

Recentemente, a directora-geral dos Serviços Prisionais referiu que a lei que vai regular a assistência nas cadeias deverá distinguir entre voluntariado e assistência religiosa. Como vê esta distinção?

Não podemos separar o capelão dos visitadores. Se eu não tivesse os visitadores era muito mais pobre. Num ambiente de uma cadeia, estou a trabalhar com leigos que são para mim indispensáveis. Principalmente, porque há muitas senhoras, com mais de 45 anos, que os reclusos vêem nelas uma espécie de mães. Essa distinção não faz nenhum sentido. Sabe, isso faz parte de uma certa tendência que temos em Portugal de uma laicização de toda a vida pública. Temos de ver isto dentro desse espírito.

 

Como se pode humanizar a prisão?

Com amor. Com amizade. Aceitá-los. Escutá-los. Considerá-los iguais a nós. A pena prisional é não circular livremente na sociedade. Porque de resto, um preso devia ter mais ou menos as condições de vida como tinha fora da cadeia. São os nossos irmãos. Eu tive um visitador que dizia ‘nós, visitadores, e vós, presos’. Não! É apenas ‘nós’ que estamos nesta reunião. Somos todos iguais. Mas sobretudo é preciso muito amor.

 

Fotos: www.presidencia.pt e O Companheiro

 

 

Informação complementar:


“Senti-me honrando com a condecoração”

 

Como reagiu à informação de que seria condecorado no Dia de Portugal com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito?

Quando me telefonaram da Casa Presidencial pensei que estavam a brincar. Disse: ‘Eu? Uma condecoração? Minha senhora, quem meteu isso na cabeça?’. Ela respondeu: ‘Isso não sei, só sei que o seu nome está aqui no papel…’ Há dois anos, o Presidente da República visitou “O Companheiro” e falou muito comigo. Quando se despediu, quis-me dar uma abraço… De facto, a visita de Cavaco Silva foi fantástica e marcou a instituição. Ele não se limitou a visitar, interessou-se, quis saber. Por outro lado, houve uma pessoa que achava que eu devia receber a condecoração e eu fui parvo porque em Janeiro passado, em conversa com essa pessoa, disse que para mim este ano é especial porque faz 50 anos que entrei pela primeira vez numa cadeia. E ele pegou nisso…

 

O que sentiu no dia 10 de Junho ao receber a condecoração das mãos do Presidente da República?

Eu no meio daquela gente importante senti-me o homem mais humilde. Eu não sou nada de especial, sou apenas um servo de Jesus. Eu não devia ser homenageado. Quem devia ser homenageado era Jesus Cristo, porque eu trabalho só ao serviço de Jesus. Eu sou o criado de Jesus. Nós, padres, não nascemos para ser homenageados, porque somos servos do povo de Deus. Mas sem dúvida nenhuma que me senti honrando, mas sempre a pensar em Jesus.

 

O que é que esta condecoração pode trazer para a pastoral prisional?

Pelo menos chamou a atenção para a pastoral prisional. Sabe, a minha presença desde 1959 para cá mudou a fisionomia da assistência religiosa nas cadeias. Fui 23 anos capelão chefe e fartei-me de trabalhar e criar um outro ambiente. Fundei grupos de visitadores em quase todas as cadeias. Consegui animar padres, porque há poucos padres que têm vocação para se dedicar às cadeias.

 

 

“O principal na Renascença é falar de Jesus”

 

O padre Dâmaso mantém uma colaboração na Renascença há muitos anos. O que procura transmitir através da rádio?

Em 1977, fui convidado para falar aos doentes. Depois, propus também um apontamento aos reclusos e sobre os reclusos. Era um programa que tive pena que tivesse acabado, mas esses programas não têm vida eterna. Fiz muitas coisas na RR, mas o principal foi falar de Jesus, de diversas maneiras. Hoje, ainda mantenho o “Meditando”, ao final do dia, na Rádio Sim, e o apontamento diário “Caminhos da Vida”, às 2h30 da madrugada, na Renascença.

 

A rádio é também uma paixão sua?

Sim, mas sabe, eu agradeço a Jesus porque não há nenhum padre – ou talvez muito poucos no mundo – que já tenha, há 33 anos, uma rádio como púlpito. Que grande graça que recebi de Jesus! Eu fico calado quando penso nisto…

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