Domingo |
À procura da Palavra
O “tudo” e o “nada”
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DOMINGO I QUARESMA Ano A

“Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares.”

Mt 4, 10

 

Nasceu o título destas palavras duma história do P. Américo, fundador da Casa do Gaiato e da Obra da Rua, que o saudoso e querido P. Alberto Teixeira Dias gostava de contar. Uma vez, sendo ainda seminarista, foi visitar o P. Américo a Paço de Sousa. Quando este o recebeu, foi saudado assim, no seu jeito irónico e com a gaguez que lhe era própria: “Para te receber, troquei o tudo pelo nada!” E perante o espanto do visitante, explicou: “Troquei o tudo que é Deus (estaria em oração), pelo nada que és tu!” Claro que romperam os dois às gargalhadas. Era também assim o P. Américo, que descobriu no “nada” dos rapazes da rua, abandonados e esquecidos, o “tudo” de Deus a que se dedicou totalmente!

 

A vida nem sempre é tudo ou nada, mas a quaresma, que iniciámos com o “nada” das cinzas recebidas na cabeça, é convite a escolher o “tudo” que é Deus. No fundo, estamos em processo de escolha desde o princípio. No relato do Génesis que também se escuta neste domingo, a serpente seduz com a ambição do tudo, reduzindo a nada aquilo que Deus ofereceu. É sempre essa a base da tentação: ser “deus” pela posse de tudo; seja o fruto, o outro, o dinheiro, ou o poder! Trata-se de minar a relação de confiança em Deus pela suspeição de que Ele hipoteca a nossa felicidade, quando não realiza os nossos caprichos egoístas. O desejo de omnipotência, que toma forma em algumas iniquidades de que somos capazes, manifesta-se nos nossos conflitos. Com Deus (o medo), connosco próprios (a nudez), com os outros (a acusação), com a natureza (a justificação). Conhecer a profundeza dos corações é próprio de Deus, o único que pode julgar verdadeiramente!

 

É após o Baptismo, na sua condição de Filho de Deus, que Jesus é tentado no deserto. Como nós. As tentações procuram atingir o essencial: a relação filial com Deus e fraterna com os irmãos. Por isso, partem de uma suspeição: “Se és filho de Deus...”! Assim foi com Jesus e é connosco. Não apenas num momento, mas até ao fim, até à cruz. O tempo provisório do deserto, 40 dias a lembrar outros tempos iguais, é uma metáfora da nossa vida. Recusar o poder, o parecer e o ter, e “todo o bem” que eles podem espalhar, parece loucura e presunção. Se eles existem porque não aproveitá-los? “É verdade que o dinheiro passou por mãos sujas, mas já viu a linda igreja que se fez? E os bairros sociais, ainda que se tenham construído com materiais de qualidade inferior e os orçamentos tenham derrapado em milhares...? E os empregos que se arranjaram para familiares e conhecidos..., mas se não o fizéssemos nós, não o fariam outros?” Canta, com verdade, o Sérgio Godinho: “A vida é feita de pequenos nadas...”!

 

Jesus recusa o “tudo” prometido pelo diabo pois, como até a sabedoria popular descobriu, “o tudo, sem Deus, é nada”! Eis-nos em caminho quaresmal para descobrir o “tanto” que cada pessoa é e o que pode ainda ser; para treinar a alegria de partilhar os dons em vez de chorar as faltas; para viver a graça pascal de Jesus, que liberta de toda a escravidão!

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