Mundo |
Zanzibar: a guerra silenciosa contra os cristãos
“Sou padre, morrerei aqui!”
<<
1/
>>
Imagem

É raro o dia em que não se verifica algum incidente com a minoritária comunidade cristã em Zanzibar. Nos últimos anos, a tensão tem vindo a crescer, com ataques a Igrejas, assassinato de sacerdotes, ameaças a irmãs, intimidação de catequistas… Grupos radicais islâmicos desejam expulsar os cristãos deste arquipélago da Tanzânia e ninguém está a salvo. No entanto, apesar do medo, estes cristãos têm-nos apresentado admiráveis histórias de coragem.

 

O Padre Cosmas Shayo foi das últimas pessoas a despedir-se do Padre Evaristo Mushi. Foi um sábado à noite. “Estávamos sentados na sala de jantar, com o Bispo, D. Thomas.” Foi no dia 16 de Fevereiro de 2013. Há datas que nunca mais se esquecem. “Estávamos sentados, eu, o Bispo e o Padre Mushi, a jantar e a falar, e quando terminámos a refeição ficámos a conversar. Despedimo-nos por volta das 22 horas.” Foi a última vez que estiveram juntos. No dia seguinte, de manhã, o Padre Evaristo dirigiu-se para a catedral de Zanzibar a fim de celebrar a Missa. Foi seguido por dois homens numa motocicleta. Quando chegou perto da catedral, uma terceira pessoa aproximou-se e saudou-o. Era uma armadilha. Rodeado pelos três homens, sem possibilidade de fugir, o Padre Evaristo nem teve tempo de responder. Um dos assaltantes puxou de uma pistola e disparou à queima-roupa. Os fiéis que estavam no templo ouviram o estampido seco. Muitos compreenderam logo que teria sido um tiro, mas estavam longe de imaginar a tragédia que estava a acontecer mesmo ali ao lado. O Padre Thomas Assenga foi uma dessas pessoas. Mal soube do ataque ao Padre Evaristo Mushi, que conhecia bem, correu para o hospital para lhe dar a unção dos doentes. Chegou tarde demais. “Ele já tinha morrido… Era um homem bom, um homem generoso e as pessoas gostavam dele. Posso dizer que era um sacerdote santo e dedicado ao seu trabalho.”

 

Violência, violência…

Um homem bom e generoso. Apesar disso, foi assassinado. Porquê? A verdade é que, a cada dia que passa, cresce o receio entre a minoritária comunidade cristã em Zanzibar, na Tanzânia. Desde há um par de anos que esta região, famosa como destino turístico, tem sido abalada por ataques com motivação religiosa. Os extremistas islâmicos parecem ter apenas um objectivo: erradicar a presença cristã da região. O assassinato do Padre Evaristo Mushi foi só um dos episódios dessa onda de violência que tem sequestrado pelo medo a comunidade cristã local. Desde então, apenas desde 2013, além do assassinato do Padre Evaristo, um outro sacerdote foi decapitado e outro ficou seriamente ferido após lhe terem atirado com ácido para o rosto, e uma bomba explodiu no exterior de uma igreja em Arusha, matando duas pessoas e ferindo trinta. Calcula-se que só na região de Kagera tenham sido incendiadas mais de treze igrejas. Ninguém foi considerado responsável por nenhum destes ataques.

 

Vírus do radicalismo

O Padre Cosmas Shayo não esconde que há uma enorme apreensão entre a comunidade cristã. Ninguém está a salvo. O arquipélago de Zanzibar, na Tanzânia, tem cerca de 1,4 milhões de habitantes. Quase 97% são muçulmanos. O vírus do radicalismo islâmico está à solta e, na verdade, todos se sentem ameaçados. “Obviamente há muito medo e tensão. Todos estão preocupados. Ninguém sabe o que se seguirá”, diz o Padre Cosmas. “Mas sabemos que tudo está nas mãos de Deus.” O medo é terrível. E os ataques sucessivos contra os Cristãos, contra as igrejas, vão deixando marcas. É como que uma mancha que vai alastrando.
Boniface Nyandwi é o presidente do Conselho Diocesano dos Leigos de Zanzibar. Ele não tem dúvidas de que se está a assistir a uma acção concertada. Já não se trata, apenas, de ataques pontuais contra cristãos. É mais vasto. “A perseguição tornou-se segregação directa.” Na verdade, há quem não goste de ver os Cristãos a agir, a erguer infra-estruturas. Por isso, há dificuldades em obter autorizações para a construção de igrejas ou escolas, ou simplesmente para a gestão de hospitais ou centros de saúde. Isto, apesar de a Igreja Católica continuar empenhada no apoio às populações mais pobres. E muitos dos mais pobres de Zanzibar são muçulmanos…

 

Exemplos de coragem

Os Cristãos são perseguidos em Zanzibar e sentem-se, a cada dia que passa, mais ameaçados. Diz o Padre Cosmas: “Não é fácil, por isso procuramos encorajar-nos mutuamente. Mas, claro, as pessoas têm muito medo. Eu próprio tinha muito medo mas disse: ‘Sou padre e este é o meu local de trabalho. Se eles quiserem matar-me, morrerei aqui!’ Mas não posso fugir e deixar o povo para trás.” O assassinato do Padre Evaristo Mushi e os atentados que, desde 2013, têm desassossegado a comunidade cristã de Zanzibar, espalharam o medo como um rastilho, mas provocaram, simultaneamente, um incrível aumento de fiéis nas igrejas. “Após todos estes incidentes – diz o Padre Cosmas – a fé das pessoas aumentou. As igrejas costumavam estar cheias mas agora vêm ainda mais fiéis, o que demonstra que as pessoas realmente colocaram tudo nas mãos de Deus. Por isso, aconteça o que acontecer, Deus está connosco. E nós vamos ficar aqui.” Em Zanzibar, na Tanzânia, chegam-nos histórias de violência, medo e coragem. A Igreja, neste arquipélago, é muito pobre. Precisa muito da nossa ajuda. Foi também a pensar nos Cristãos de Zanzibar que a Fundação AIS lançou uma Campanha de Solidariedade. Ajudá-los a permanecer apesar das ameaças, ajudá-los na missão que desempenham junto dos mais pobres dos pobres da sociedade, é um desafio que se coloca a cada um de nós nesta Quaresma. Vamos ajudá-los?

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
A OPINIÃO DE
Pe. Alexandre Palma
A observação terá parecido estranha. Talvez mesmo descabida. Mas não era. Helen Milroy, pedopsiquiatra,...
ver [+]

Pedro Vaz Patto
Numa entrevista recente, o Bispo de Pemba, D. Luiz Lisboa, manifestou a sua indignação pela pouca atenção...
ver [+]

Visite a página online
do Patriarcado de Lisboa
Galeria de Vídeos
Voz da Verdade
EDIÇÕES ANTERIORES