Entrevistas |
Irmã Isabel Martins, da equipa do Setor da Catequese do Patriarcado de Lisboa
“É preciso uma escuta mútua entre famílias e catequistas”
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A irmã Isabel Martins acredita que a catequese deve procurar envolver pais e catequistas. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, esta religiosa lembra que os catequistas devem “firmar a sua ação na oração”, porque “só assim é possível renovar a consciência da importância da sua missão na Igreja”.

 

O Patriarcado de Lisboa, através do Setor da Catequese, organiza neste Domingo, 26 de março, a Assembleia Diocesana de Catequistas. Por que motivo a diocese organiza novamente este encontro?

O ano passado foi realizada a Assembleia Diocesana de Catequistas, em Torres Vedras, que há muitos anos não se realizava. Foi um momento de encontro dos catequistas com o seu Bispo e, de facto, o senhor Patriarca, por vontade expressa dele, tem gosto em encontrar-se novamente com os catequistas, pelo que vamos passar a realizar a assembleia anualmente.

 

A assembleia deste ano tem como tema ‘Família e Educação da Fé’. Porquê esta temática para reflexão com os catequistas?

Este tema vem na linha da reflexão sinodal, porque os desafios que se colocam às famílias, hoje, para a transmissão da fé são algo que apareceu sublinhado na reflexão anterior ao Sínodo e que ficou consignada na Constituição Sinodal de Lisboa. Esta questão da transmissão da fé toca de perto a catequese e, se nós refletimos nos cursos que não se pode fazer catequese sem família, pareceu-nos que era importante centrar a assembleia deste ano em torno deste tema. E, de facto, os desafios são muito grandes.

Quisemos que a assembleia fosse preparada em dinâmica sinodal, pelo que propusemos às paróquias a reflexão sobre quatro números da Exortação Apostólica Pós-Sinodal ‘Amoris Laetitia’, concretamente os números 287 a 290, com questões para catequistas e para pais. Porque é importante que haja uma escuta mútua sobre esta realidade. Se os catequistas são aqueles que estão em nome da comunidade cristã para anunciarem a Boa Nova aos mais novos, a família é o ambiente natural onde esta Boa Nova se transmite. O trabalho tem de ser feito em colaboração entre famílias e catequistas, e aqui há um desafio enorme, porque os catequistas sentem-se, muitas vezes, sozinhos, e as famílias por vezes também nem sempre se sentem acolhidas e é preciso uma escuta mútua e perceber como isso se faz.

 

Durante a manhã deste encontro diocesano de catequistas vão ser apresentadas diversas iniciativas pastorais de interação entre catequese, família e comunidade. É importante haver a partilha do que se vai fazendo pela diocese, concorda?

É muito importante pensar sobre este assunto da ‘Família e Educação da Fé’, por isso convidámos o Dr. Borges de Pinho que vai fazer uma conferência baseada precisamente na reflexão feita nas paróquias. Depois, é também muito importante as práticas, porque, por vezes, os catequistas, e as paróquias, correm o risco de se verem desanimados com as dificuldades e, no entanto, por toda a diocese vão existindo experiências muito positivas de trabalho com a família, tanto da parte dos catequistas como da parte das famílias. Por isso, estamos a pedir aos animadores dos 13 ateliers [‘Catequese familiar’, ‘Escola paroquial de pais’, ‘O despertar da fé em família’, ‘Reuniões com pais’, ‘A família no percurso catecumenal’, ‘Dinâmicas familiares e adolescência’, ‘Pensar a vocação matrimonial na adolescência’, ‘Descobrir a beleza da fé na família’, ‘Rezar em família’, ‘A família, escola de serviço ao próximo’, ‘O papel dos avós na transmissão da fé’, ‘Casais Bíblicos’ e ‘Catequese intergeracional’] que se centrem em testemunhos práticos e positivos de como fazer esta interação nos vários âmbitos. É um leque muito diversificado, que os catequistas podem escolher para se inspirarem, para se animarem, porque de facto quando é possível fazer este caminho em conjunto é muito mais rico para toda a gente.

 

Durante a Visita Pastoral à Vigararia de Mafra, que terminou recentemente, o Cardeal-Patriarca, por diversas vezes, sublinhou que “a catequese é uma frente essencial da evangelização”. Acredita que, entre os cerca de sete mil catequistas da diocese, há consciência da importância da sua missão na Igreja?

Hoje em dia, cada vez mais, a catequese é primeiro anúncio, é querigmática. As crianças chegam à catequese sem qualquer iniciação. As famílias nem se dão conta que, com gestos muito simples, podem iniciar e despertar os seus filhos para a fé, pelo que têm de ser os catequistas a fazer esse trabalho. Do que vou conhecendo – que ainda é pouco –, de um modo geral acredito que os catequistas têm esta consciência e este entusiasmo. É muito bonita a forma como os catequistas se dão, porque são catequistas voluntários que dão do seu tempo, da sua vida, muitas vezes até dos seus recursos monetários, já para não falar das suas vidas profissionais e familiares, que também têm a sua complexidade nos dias de hoje. Mas as pessoas só dão quando, de facto, se sentem encantadas por Cristo e percebem que têm uma missão na Igreja.

Num grupo tão grande de catequistas, esta consciência tem que ser alimentada constantemente, sobretudo por uma vida de oração. É muito importante, cada vez mais, que os catequistas firmem a sua ação na oração, no encontro com o Senhor, porque só assim é possível renovar esta consciência. Porque anunciar a Boa Nova às novas gerações é um desafio grande, é ir contra a corrente.

 

Qual o panorama geral atual da catequese no Patriarcado de Lisboa?

As estatísticas de 2015 dizem que temos 57.600 catequizandos – do 1º ao 10º ano – e 1.300 catecúmenos na diocese. No entanto, começa a haver algum número de paróquias que não têm o mesmo tipo de organização da catequese da adolescência e começam a juntar ou a tentar ter uma dinâmica diferente – alguns já lhe chamam pastoral juvenil, porque os miúdos começam a dizer que não querem catequese. No fundo, fazem catequese mas com uma dinâmica diferente.

Penso que a catequese continua a ser a força motriz das paróquias, mas varia muito consoante as realidades sociais. Temos paróquias na periferia de Lisboa que têm imensa gente na catequese, cerca de 700 crianças e adolescentes, mas há também paróquias desertificadas onde não há famílias com crianças, concretamente paróquias no centro de Lisboa que se tornaram territórios de serviços onde reside muito pouca gente. Temos paróquias rurais que têm muitos centros de catequese – lembro-me uma em particular que me disse ter dez centros de catequese, com dez grupos de cada ano – e há outras em que o total não chega sequer a vinte… são realidades muito diversificadas, consoante também a realidade social.

Mas acredito que a catequese é uma realidade que mantém as comunidades vivas. O ritmo das festas, das primeiras comunhões, da profissão de fé, do crisma, o facto de se ter de pedir que haja catequistas, tudo isto faz mexer as comunidades.

 

Algumas paróquias da diocese adotaram, nos últimos anos, a catequese familiar, que compreende um maior envolvimento dos pais na catequese. Como decorre este modelo catequético?

Há paróquias que têm a proposta de catequese familiar como proposta opcional para os pais, a par da outra catequese dita mais habitual, e há outras paróquias que tornaram este modelo de catequese familiar obrigatório. É um modelo que se inicia também no 1º ano da catequese e que segue a mesma estrutura em termos de catequese, mas que depois tem uns guias próprios para o animador. A proposta do SNEC (Secretariado Nacional da Educação Cristã) é uma catequese que funciona em quatro tempos: há um encontro quinzenal, na paróquia, em que os pais têm um encontro de formação com o animador e as crianças têm um encontro com o catequista. Nesse encontro de formação, que é também catequese de adultos, os pais recebem uma catequese sobre o tema que vão trabalhar com os filhos em casa na semana seguinte e, entre eles, acabam por formar uma comunidade de partilha. Na semana seguinte, então, cada casal, cada família, faz a catequese em casa de acordo com os materiais que recebeu, e na semana depois volta à paróquia para ter nova formação. Uma vez por mês, há um momento celebrativo na paróquia com as famílias.

 

Que benefícios vê neste modelo?

Do que conheço, vejo dois grandes benefícios: primeiro, temos uma catequese de adultos, que é o que a Igreja tem tido mais dificuldade em implementar. Não temos uma catequese de adultos generalizada, temos somente algumas experiências como foi a de preparação do Sínodo Diocesano, que lançou alguns grupos de reflexão de adultos e em que alguns continuam a refletir o documento do Papa. O outro grande pilar da catequese familiar é a experiência na família de se falar da fé, de se trabalhar as coisas da fé e de se levar a fé para o ambiente familiar. Julgo também que estas novas experiências podem trazer mais vitalidade às comunidades cristãs. Uma coisa é os pais levarem as crianças à Missa porque ela tem uma atividade da catequese, outra é os pais animarem a celebração a partir de um trabalho que fizeram em casa, em família. No entanto, penso que o futuro não passa por uma só via de catequese, a habitual ou tradicional, por um lado, e a familiar, por outro. O futuro passa por se encontrar qual a proposta mais adequada para cada realidade.

 

O projeto Despertar da Fé tem crescido na diocese?

O Despertar da Fé é um projeto de formação dos educadores e auxiliares que nasceu no Patriarcado de Lisboa há mais de uma década. Compreende uma linha de pensamento que tem sido muito desenvolvida nos países francófonos e parte do princípio que todo o ser humano é capaz de Deus. Se todo o ser humano é capaz de Deus, nós somos capazes de Deus desde que nascemos, porque desde que nascemos somos capazes de relação. No Despertar da Fé despertamos o espiritual na criança já com uma tonalidade cristã. Trata-se de, em contexto de instituição, nas salas de jardim-de-infância ou mesmo de creche, haver momentos em que se trabalha esta dimensão da espiritualidade, de modo particular. Esses momentos podem ser feitos em atividades também com as famílias.

Têm sido muito numerosas as instituições, os centros sociais paroquiais principalmente, um pouco por toda a diocese, que têm vindo a começar a desenvolver esta atividade com as suas crianças. Há instituições que trabalham sobretudo os momentos Advento-Natal, Quaresma-Páscoa – na formação recente que tivemos juntámos 31 instituições! – e maio, mês de Maria, e têm o Despertar da Fé como uma atividade incluída como outra qualquer. Quando as instituições têm uma boa relação com a paróquia, esta começa a ter mais crianças na catequese porque elas começam a entusiasmar-se com Jesus e querem continuar. Por outro lado, as nossas instituições sociais recebem crianças de qualquer família e há muitas delas que não ouvem falar de Jesus em casa. Pelas crianças chegamos a famílias que as paróquias nunca chegariam. Sinto que o Despertar da Fé tem um potencial enorme.

 

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Perfil

Serva de Nossa Senhora de Fátima “há 26 anos e meio”, a irmã Isabel Martins passou a integrar, em janeiro deste ano, a equipa do Setor da Catequese do Patriarcado de Lisboa. “A minha vocação surgiu do encontro que Jesus fez comigo na Eucaristia onde desde cedo comecei a encontrar uma alegria e energia que mais nada nem ninguém me davam. Ainda jovem ficou bem claro que a minha vida seria decidida com Jesus”, refere, sublinhando que a sua congregação tem “um acordo com a diocese para manter uma religiosa, a tempo inteiro, neste serviço da catequese”. “A irmã Maria José Bruno esteve cá 12 anos e agora foi-me pedido que assumisse esta missão”, resume.

 

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Setor da Catequese em reflexão

Liderada pelo padre Tiago Neto, a equipa do Setor da Catequese do Patriarcado de Lisboa conta com a colaboração da irmã Isabel Martins e também de Maria Luísa Paiva Boléo e Fátima Terra, além do apoio administrativo de Natércia Valada. “Estamos em período de reflexão e a reorganizar as áreas de intervenção de cada um, mas atualmente estou a dar continuidade ao trabalho da irmã Maria José no campo do Despertar da Fé e a acompanhar a pastoral da adolescência”, refere a irmã Isabel Martins, sublinhando que, no Patriarcado de Lisboa, faz “diariamente o acompanhamento de todos os assuntos que vão chegando”. “Estou também na organização das atividades diocesanas, como a Assembleia Diocesana de Catequistas. Em novembro passado tivemos o YoucatDay, onde já participei na organização, que reuniu dois mil adolescentes na Baixa de Lisboa, e dou ainda o Cursos Geral de Catequese. No fundo, estou para tudo que é preciso”, garante esta religiosa.

 

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Missa da Assembleia Diocesana de Catequistas com transmissão vídeo

O Patriarcado de Lisboa vai transmitir, em direto, a Missa de encerramento Assembleia Diocesana de Catequistas que decorre este Domingo, a partir das 15h30. Presidida pelo Cardeal-Patriarca, D. Manuel Clemente, a celebração vai ter transmissão vídeo pelo site do Patriarcado (www.patriarcado-lisboa.pt) e na rede social Facebook (www.facebook.com/patriarcadolisboa).

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