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A fuga de John Kuetu até ao campo de refugiados de Kakuma, Quénia
Uma lição de vida
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Fugiu do país, o Burundi, com a mulher e os três filhos. Só levou consigo um saco com alguma roupa. John Kuetu fugiu por causa da guerra tribal que opôs tutsis e hutus, e que provocou mais de 300 mil mortos. Um deles foi o seu pai, assassinado por ser tutsi. Apenas por isso. Desde 2009 vive num campo de refugiados, no Quénia. Em vez de alimentar o ódio, a raiva e o desejo de vingança, Kuetu descobriu por ali o poder do perdão.

 

É fácil descobrir John Kuetu todos os dias, quando ainda o sol não se espreguiçou e a noite continua a esconder, nas suas sombras, as centenas e centenas de tendas e barracas que foram sendo transformadas em casas e que hoje albergam quase 200 mil refugiados. Às seis da manhã começa a Missa em Kakuma, no campo de refugiados de Kakuma, e invariavelmente lá está John Kuetu. Aliás, ele chega sempre antes, nem que seja só por uns minutos, uns instantes, pois gosta de ajudar, varrendo o pó, limpando a terra seca que teimosamente se espalha por todo o lado, como se quisesse sepultar debaixo de si os vestígios do presente. Todos os dias John Kuetu vai à Missa, todos os dias reza o Terço e todos os dias procura ganhar forças e coragem para não desistir dos seus sonhos, para não sucumbir ao desalento naquela quase prisão que dá pelo nome de campo de refugiados de Kakuma.

 

A guerra

A história da vida de John Kuetu cabe toda aqui, numa página de jornal. Por causa do ódio entre tutsis e hutus, o Burundi viveu uma temível guerra civil durante mais de uma década. O conflito começou em 1993 e calcula-se que terão morrido então mais de 300 mil pessoas. O pai de John Kuetu foi um deles. Pertencia à etnia tutsi e foi assassinado. Apenas por causa disso. Kuetu tinha 15 anos. A sombra dessa guerra continuou a cobrir o seu país. Em 2009, o Burundi foi palco de novos incidentes e Kuetu foi acusado de estar implicado nessa agitação. Ficar no país seria arriscadíssimo. Fugiu. Fugiu com a mulher e os três filhos. “Fugimos sem olhar para trás.” Levou consigo apenas um saco com alguma roupa. Mais nada. Os cinco atravessaram o Burundi para a Tanzânia até conseguirem chegar a Kakuma, ao campo de refugiados, situado na fronteira entre o sul do Sudão e a Etiópia. Foi uma viagem de quase 2.000 km.

 

O perdão

No entanto, a maior viagem aconteceu já no próprio campo de refugiados. Ir à Missa, rezar o Terço a Nossa Senhora, sempre às 3 horas da tarde, tornaram-se rotinas quotidianas. Tal como quando decide ir ter com o padre salesiano para se confessar. “Depois de ter limpo a igreja, é tempo de a minha alma ser também purificada”, diz-nos, acrescentando que, depois de ter estado com o padre indiano – o campo de refugiados é uma verdadeira babilónia de línguas e raças – sente-se “limpo”. E isso dá-lhe forças para encarar a vida com outros olhos. “Permite-me começar de novo. Dá-me esperança…” Uma esperança que nasceu no dia em que Kuetu descobriu que o amor é mais forte do que o ódio, que o perdão é mais poderoso do que a vingança. A própria história da sua família é um bom exemplo disso, do poder do amor. “A minha mulher pertence à etnia hutu, mas eu sou tutsi. O meu pai foi morto por ser tutsi em 1993, quando eu tinha 15 anos. No entanto, eu rezo pelos meus inimigos. Já lhes perdoei. Aprendi isso com o Evangelho e tento ser misericordioso, mas é difícil perdoar aos inimigos... só rezando e esquecendo.”

 

O sonho

John Kuetu tem um sonho: plantar um campo de milho e tentar ganhar a vida, por ali – enquanto tiver de viver no campo de refugiados – como agricultor. “Deus tem um plano para nós e eu gostaria de ter uma vida melhor...” O problema é a falta de água. A extrema aridez da região faz com que a água seja um líquido precioso. Junto à barraca de madeira que foi transformada na sua casa, Kuetu, juntamente com os filhos, tem estado empenhado em abrir um poço num pedaço de terra. “É uma tarefa difícil. Sob o sol escaldante ainda mais… Acho que, daqui a um mês, estará concluído e então teremos água suficiente para abastecer a plantação. Alguns dos vegetais que irei produzir serão para a minha casa, outros são para vender.” Kuetu vive já em pleno o seu sonho, mesmo quando ainda está a escavar o buraco para o poço. Ali, no Quénia, no campo de refugiados de Kakuma, vivem pessoas oriundas do Burundi, mas também, e essencialmente, do Sudão do Sul e da Somália. São quase 200 mil. Todos eles, tal como John Kuetu, a sua mulher e filhos, foram forçados a fugir de suas casas, dos seus países. Todos eles precisam da nossa ajuda para sobreviver. Todos eles precisam também das nossas orações para descobrir, tal como John Kuetu, que o amor é mais forte do que o ódio e que o perdão é mais poderoso do que a vingança. É para todos eles, para os ajudar, que a Fundação AIS lançou, a nível internacional, uma enorme campanha de solidariedade nesta Quaresma. John Kuetu pode contar com a sua ajuda?

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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