Entrevistas |
Isabel Jonet: “É um escândalo que ainda haja pessoas com fome neste século”
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A presidente do Banco Alimentar Contra a Fome considera “lamentável que a questão da fome não esteja resolvida”. Em entrevista ao Jornal W, Isabel Jonet analisa o estado da Nação e deixa pistas de actuação no campo da solidariedade social.

 

Na carta apostólica “Novo Millennio Ineunte” (2001), João Paulo II questionava: “Como é possível que ainda haja, no nosso tempo, quem morra de fome, quem esteja condenado ao analfabetismo, quem viva privado dos cuidados médicos mais elementares, quem não tenha uma casa onde abrigar-se?” Faço-lhe esta mesma pergunta…

É um escândalo que no século XXI, onde as pessoas supostamente vivem muito melhor, ainda haja pessoas que têm fome e que estejam privados dos cuidados médicos mais elementares e que não tenham casa. Mais do que tudo, acho a privação da alimentação o maior escândalo de todos. O alimento é um bem de consumo que não tem equivalência com mais nenhum outro bem de consumo, uma vez que o alimento é o próprio elemento de vida, é seiva de vida. Sem comida morre-se. Sem casa não se morre; vive-se pior, com frio, sem condições humanas, mas não se morre. Portanto, acho escandaloso que neste século ainda não se tenha resolvido este problema que é muitas vezes um problema essencial de não conseguir fazer chegar bens alimentares a todas as pessoas que deles precisam, muitas vezes apenas porque há um problema de distribuição que não funciona.

 

O Banco Alimentar Contra a Fome procura precisamente contrariar esse problema de distribuição…

Os Bancos Alimentares existem e têm na sua génese uma ideia: ir buscar onde sobra para entregar onde falta. Aquilo que nós fazemos é ir buscar excedentes de produção, que não podiam ser comercializados e que teriam como destino a destruição, para os colocar na mesa de quem precisa. E assim resolve-se, de alguma maneira, este problema de deficiente distribuição.

Agora, se pensarmos a nível global, e sobretudo nos países subdesenvolvidos, muitas vezes esta privação da alimentação tem a ver com razões políticas e pretendem até utilizar esta não alimentação como uma arma, o que é uma coisa absolutamente indigna. Condena-se pessoas à fome, para depois ter mais poder sobre essas pessoas.

Repito, é um escândalo e é lamentável que a questão da fome não esteja resolvida. Acho que as pessoas, e os cristãos antes de mais, não podem baixar os braços, não se podem conformar com aquilo que é uma situação absolutamente indigna. Esta situação pode, de alguma forma, começar a ser invertida se as pessoas tiverem em atenção os seus consumos pessoais.

 

O problema da fome é então também um problema de educação?

Hoje em dia deixou de se passar para os mais novos essa necessidade imperiosa de se ter respeito pela alimentação. Há religiões em que os alimentos se revestem de um carácter sagrado. Hoje, muitas crianças não respeitam os alimentos enquanto valor em si, enquanto elemento de vida. E tem que se educar outra vez os jovens para respeitar os alimentos. Eu sou ainda de um tempo em que por exemplo não se deitava pão fora: fazia-se pão ralado ou torradas. E deixar restos de comida no prato, nunca! Hoje em dia, com imensa à vontade, deita-se alimentos fora.

 

Nos últimos anos têm sido investidos milhões de euros nos pobres. Alguma coisa mudou?

Acho que os milhões se têm gasto tanto nos pobres como no estudo dos pobres. Muito dinheiro tem sido gasto a ajudar as pessoas pobres, mas penso que não se tem ido ao encontro de cada pessoa pobre. A maior parte das medidas são generalistas e, se elas em si mesmo são boas – como as soluções do rendimento solidário ao idoso –, depois muitas vezes elas falham na sua aplicação porque não são adequadas a cada caso concreto. E é por isso que eu acredito no mérito das instituições de solidariedade social, como a única possibilidade, pela sua proximidade e valor humano, de combater a pobreza. Tem que se estudar a situação de cada pessoa pobre, para ir ao encontro dela e lhe propor um projecto de vida. E depois tem de se acompanhar essa pessoa, essa família, durante algum tempo.

 

Que retrato social faz do nosso país?

Não é nada bom… não posso traçar um retrato social nada positivo, embora muitas coisas boas tenham sido feitas nos últimos anos. Para mim, o pior flagelo que pode acontecer a um país é o desemprego. Porque as pessoas não terem emprego significa que não têm um salário ao fim do mês para fazer face às suas necessidades; mas também significa que não têm ocupação – e não existe nada menos dignificante para o Homem do que não ter ocupação. Sente-se um inútil. É admitir perante si próprio e a sua família que falhou. Mesmo quando não foi a própria pessoa que falhou e foi a sociedade que lhe extinguiu o seu emprego.

Há também um outro grave problema: o envelhecimento da população. Temos uma população cada vez mais envelhecida – só para se ter uma ideia, no ano 2008 nasceram em Portugal 105 mil crianças, o que não assegura sequer a reposição da espécie, quando ainda por cima sabemos que muitas destas crianças são filhas de imigrantes que vão voltar ao seu país. Alguma coisa tem que se fazer e tem de ser rapidamente, porque nós não temos o direito de condenar as gerações futuras.

 

Os políticos portugueses começam agora a aflorar o fim da crise. Qual é a percepção de alguém que está no terreno?

Fala-se é do fim da crise financeira, mas não do fim da crise económica. Quando entrámos na crise, Portugal já estava em crise. Portanto, a crise aprofundou-se ainda mais. Em meu entender, nós não vamos tão cedo sair desta crise. Mesmo que se verifiquem alguns sinais de retoma, só poderemos inverter a situação que se vive actualmente com muita dificuldade. É fundamental gerar emprego, mesmo que não seja remunerado ao nível a que as pessoas estavam habituadas. E é este click que vai ter de mudar na mente das pessoas. Não vai ser possível viver como se viva até 2008. As pessoa têm que regressar ao essencial, e isso significa que vão ter empregos menos bem renumerados, que não poderão aceder a todos os consumos a que estavam habituadas.

 

Durante o debate do estado da Nação, o primeiro-ministro revelou que o Estado vai reforçar em 115 milhões de euros a dotação para a construção de novos equipamentos sociais. São medidas que irão tocar os portugueses?

Estas medidas são todas boas. Tudo o que se fizer para melhorar o funcionamento das instituições de solidariedade social é bom, porque pode-se vir a reflectir na vida das pessoas. No entanto, essas verbas que foram anunciadas eram verbas que já estavam consignadas desde Fevereiro. Portanto, são programas que já estão em curso. Não há nada de novo! Nada destas medidas são novas!

 

Ainda no debate, o primeiro-ministro anunciou a constituição de uma nova linha de crédito no valor de 50 milhões de euros expressamente dirigida a apoiar investimento a cargo das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS). Que efeitos poderá trazer esta medida?

Esta linha de crédito, na sua essência, é algo de muito positivo. Porque muitas vezes as IPSS não podem aceder aos programas porque não conseguem a garantia necessária. Esta linha de crédito será boa, agora depende da taxa de juro a que for remunerado. Todo este tipo de medidas são boas, mas dependem sempre da forma como forem aplicadas e daquilo que é exigido às instituições. Penso que a todas as instituições de solidariedade social deve ser exigido rigor nas contas. É fundamental que as instituições dêem conta daquilo que fazem e da aplicação dos dinheiros públicos. Mas todas estas verbas são muito importantes se elas puderem gerar valor social.

 

Faltará um pouco mais de caridade onde por vezes existe somente a solidariedade?

A grande diferença é que a caridade é a solidariedade com amor. Amor pelo próximo, na acepção de São Paulo. Ou seja, ver que o próximo faz parte de nós próprios e não é outro. Quando se faz o bem, deve-se fazer de uma forma desinteressada. Penso que a solidariedade cabe ao Estado, que é um órgão distante, frio, que não tem de ter afecto; no caso das pessoas, se puder haver afecto e amor temos a ganhar, nesta lógica de que os outros fazem parte de nós.

 

 

Informação complementar

 

“Banco Alimentar ajuda na alimentação diária de 2,5% da população portuguesa”

 

A cada campanha do Banco Alimentar Contra a Fome (www.bancoalimentar.pt) há um aumento significativo das recolhas. A que se deve este acréscimo nas dádivas dos portugueses?

O Banco Alimentar existe em Portugal há 17 anos. Neste momento temos 15 bancos alimentares – irão abrir mais dois este ano, em Viana do Castelo e Viseu – e as pessoas têm muita confiança no Banco Alimentar. Qualquer pessoa que nos peça, pode vir ver para onde vão os produtos. Ou seja, há uma grande transparência na actuação. Por outro lado, o Banco Alimentar é um projecto muito mobilizador: todas as pessoas, independentemente do seu credo, da sua opção política, encontram no Banco Alimentar uma instituição em que se revêem. Nós temos uma missão na qual muitas vezes as pessoas se identificam. De facto, muitas são as pessoas que acham um escândalo haver destruição de produtos alimentares quando estão em bom estado. O Banco Alimentar existe – e só tem sentido – para servir as outras instituições, que neste momento são mais de 1600. Neste momento, estamos a ajudar a alimentar 2,5% da população portuguesa. São 250 mil pessoas que diariamente recebem no seu prato um produto que vem do Banco Alimentar.

 

Que novos projectos tem para a instituição?

Há quatro anos abrimos uma instituição que se chama ‘Entreajuda’ (www.entrajuda.pt) e que pretende precisamente ajudar as instituições de solidariedade social a organizarem-se numa lógica de gestão e de organização. Porque sabemos que muitas são as instituições que são geridas com o coração, mas que poderiam ser mais eficientes e mais eficazes se fossem geridas como são as empresas: com critérios, objectivos de gestão, usando ferramentas e fórmulas que já deram provas nas empresas. Aquilo que fazemos é mobilizar pessoas voluntárias para diariamente fazerem da sua profissão uma boa acção e darem tempo por uma causa. Temos cadeias de contabilistas, de informáticos, de técnicos de higiene e segurança alimentar, de juristas, que querem ajudar uma instituição próxima da sua área de residência a adoptar essas ferramentas. Tem sido um projecto extraordinário, que tem melhorado significativamente o dia-a-dia de muitas instituições.

Desde o início de 2009, em conjunto com a Direcção Geral de Serviços Prisionais, temos desenvolvido uma iniciativa inovadora em Portugal e na Europa de plantação de ‘Hortas Solidárias’ nos terrenos livres dos estabelecimentos prisionais. Nestes poucos meses conseguimos já vinte toneladas de alimentos!

 

 

“A Igreja tem uma rede de combate à pobreza ímpar no nosso país”


O Patriarcado de Lisboa apresentou recentemente o projecto “Igreja Solidária”. Como vê este projecto da Igreja?

É um projecto que tem muito mérito, porque é necessário ajudar as pessoas neste momento especial. A Igreja pode assumir aquela que é a sua principal vocação, a caridade. Mais do que o Estado, a Igreja, através do centros sociais, das conferências vicentinas e outros, pode ajudar cada família e cada pessoa neste momento particularmente difícil. A Igreja tem uma rede de combate à pobreza ímpar no nosso país e pode aproveitar todo o potencial dessa rede, colocando-a ao serviço das pessoas pobres.

 

Como se pode desenvolver a consciência sócio-caritativa das comunidades cristãs?

Tem que se combater o egoísmo e as pessoas têm que sair delas próprias para se darem aos outros. A consciência sócio-caritativa faz parte da missão baptismal. Quando somos baptizados, recebemos o Espírito Santo e dizemos querer ser instrumento de amor.

Diogo Paiva Brandão
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