Lisboa |
Jerónimos recebem Ordenações, este Domingo
Vidas “para os outros”
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Encontros inesperados, negações ao chamamento de Deus, medo de dar passos definitivos e muitas incertezas sobre o futuro fizeram parte da história de vida dos quatro futuros padres da Diocese de Lisboa que vão ser ordenados, juntamente com um religioso, pelo Cardeal-Patriarca, neste Domingo, 2 de julho, no Mosteiro dos Jerónimos. Ao Jornal VOZ DA VERDADE, os futuros sacerdotes falam do caminho que os confirmou neste “passo definitivo” de entrega das suas vidas a Deus.

 

 

 

“A chamada do Senhor era irrevogável”

Lúcio dos Santos

35 anos

Batizado na paróquia de Nossa Senhora de Fátima, Diocese de Parnaíba (Brasil)

 

Oriundo do nordeste brasileiro, Lúcio dos Santos é o segundo de cinco filhos de uma “família pobre”. O pai era agricultor e a mãe professora. Aos 12 anos, a família muda-se para Brasília e o “afastamento” da vida cristã aumentou. Foi aos 15 anos, e a viver na periferia da capital brasileira, que Lúcio fez uma “experiência” no Renovamento Carismático fazendo com que entrasse “mais na Igreja”. Num curso de liturgia foi desafiado a fazer uma experiência de seminário, que durou dois anos. “Foi importante mas não encontrei o que buscava”, admite, garantindo: “Aquilo não era para mim. Queria seguir a minha vida, queria estudar!”.

Nos anos seguintes, Lúcio prosseguiu os estudos de Química, que terminou. Nesse percurso, alguns amigos convidaram-no a ir a umas “catequeses” do Caminho Neocatecumenal. “Levei a minha mãe e fomos. Fui tocado por uma Palavra. Sentia-me sozinho no mundo, e pensava que se não estudasse, se não fizesse uma carreira, se não procurasse um bom trabalho e se não casasse com uma rapariga bonita, não iria ser feliz”. Durante o curso, Lúcio namorou e “já projetava o casamento”, fazendo com que se “esquecesse” da vocação sacerdotal. “O que experimentava era o medo de dar um passo definitivo. Queria casar mas não conseguia dar esse passo. Experimentei a força do pecado e do egoísmo. Não conseguia amar aquela pessoa livremente”, aponta este seminarista do Seminário Redemptoris Mater, em Caneças. Num encontro com milhares de jovens, um episódio marcou-o. “Houve uma chamada vocacional para os rapazes que se sentiam chamados a serem padres e recebi uma palavra que me tocou como uma faca no coração… mas permaneci quieto. Senti-me um cobarde”, expressa. Terminado o namoro, seguiu-se o pré-seminário, no Caminho Neocatecumenal, durante dois anos, com um percurso intermitente. Lúcio começa então a viver aquele momento “como único”, depois das “orientações sérias” dos formadores. Quando ia conhecer, por sorteio, o seminário e a diocese para onde ia estudar, Lúcio dos Santos conta à família a sua intenção de ser padre. O pai ficou apreensivo numa fase inicial, mas a vocação do filho fez com que se aproximasse da Igreja. “Hoje, ele diz a todos, com orgulho, que tem um filho seminarista em Portugal”.

Da vida em seminário, destaca os 9 anos de formação como uma descoberta de que “a chamada do Senhor era irrevogável”, mesmo perante momentos em que “tinha medo de dar a vida”. Entre 2012 e 2015, Lúcio dos Santos cumpre duas experiências missionárias, em Córdoba, Espanha, e no México. “Foi um tempo bom que me ajudou a ver a vocação. O amor que ali nascia pelas pessoas fez-me ver que esse amor não é meu”, aponta Lúcio, que trabalhou, nos últimos meses, como diácono, nas paróquias de Alcoentre e Manique do Intendente. Sobre o futuro, sublinha que a Diocese de Lisboa pode esperar dele a vontade de “ser como Jesus Cristo, o rosto da misericórdia, dando de graça o que de graça” recebeu.

 

 

“Anunciar o Evangelho é ajudar a reconstruir a vida das pessoas”

Marco Leotta

30 anos

Batizado na Paróquia de Santa Chiara - Madonna dell’Aiuto, Arquidiocese de Catania, (Itália)

 

Estava em Porto San Giorgio, Itália, em 2008, num retiro onde ia saber o seminário Redemptoris Mater que lhe estava destinado quando, durante a celebração penitencial, se levantou para se ir “confessar a um padre que conhecia”. No percurso, passou por um Bispo que estava disponível e pensou: ‘Parece mal não parar para me confessar a ele’. “Essa confissão ajudou-me muitíssimo! Ficou na memória”, assegura o italiano Marco Leotta, apontando que nem sabia qual o nome do prelado. Meses mais tarde, já em Fátima, durante as celebrações do 13 de outubro, ficou surpreendido por encontrar ali o mesmo Bispo. Perguntou quem era e responderam-lhe que era o Bispo do Porto, D. Manuel Clemente. “Hoje é o meu Patriarca e vai-me ordenar sacerdote”, refere, sorridente, Marco um dos dois futuros padres do Seminário Redemptoris Mater. Este foi um dos “encontros” que confirmaram o jovem diácono italiano na caminhada vocacional que o levou ao seminário. Marco atribui o seu nascimento “à Igreja” por ter ocorrido depois da entrada dos seus pais no Caminho Neocatecumenal, quando já tinham passado 13 anos do nascimento da sua irmã mais nova. Aos 18 anos, queria “ser alguém, um engenheiro de construção civil e fazer uma empresa”, algo que contrastasse com o estatuto “modesto” da sua família. “Cheguei a uma altura em que alcancei isso tudo. Mas não era feliz. E fui-me afastando de Deus”, até que, “numa catequese”, percebeu que, “para ser feliz, tinha que descobrir Cristo, estar pronto a aceitá-l’O”. “Foi como se tivessem tirado um fardo dos ombros”, aponta.

A chegada ao seminário deu-se depois de uma inesperada peregrinação a Sydney, em 2008, para participar na JMJ. Nessa peregrinação, num encontro vocacional, disponibilizou-se para entrar no seminário. “Foi como se passasse um comboio à frente. Ou salto agora ou nunca mais salto”, lembra Marco Leotta, que sentiu o afastamento da “família, hábitos, confortos” nos dias seguintes a ter chegado a Lisboa. “Chorava todos os dias, diante do Santíssimo a pedir para o Senhor me tirar daqui. Mas não fui, só para não ficar mal com o pessoal da Sicília”, graceja Marco, que se foi sentindo “amado por Deus, através dos formadores, dos irmãos seminaristas e de toda a comunidade”.

Na experiência de missão, em Espanha e no México, apesar das dúvidas que foi tendo sobre a sua vocação, houve uma certeza que sempre o atraiu. “A partir dali, o Senhor mostrava-me que sempre tinha sido bom comigo. Na escuridão da crise vocacional, o Senhor foi-me mostrando que anunciar o Evangelho é ajudar a reconstruir a vida das pessoas. Isso fez-me perceber que fazia sentido dar a vida pelo Senhor, que Ele tinha escolhido o melhor para mim”, aponta este futuro padre, que realizou o seu trabalho pastoral, durante os últimos meses, na Paróquia da Benedita. Depois da ordenação, Marco Leotta promete ser “testemunha” de que “Deus é misericordioso”, porque “foi Ele quem serviu primeiro”.

 

 

“Deus mete-se com as pessoas e isso é uma coisa boa”

Miguel Vasconcelos

29 anos

Batizado na Paróquia de Santo António do Estoril

 

“Por altura do 12º ano, cheguei a candidatar-me a Medicina, gostava de Arquitetura, Publicidade parecia-me bem e acabei em Engenharia. Era difícil escolher uma área em que eu achasse que era ali que iria estar”, revela Miguel Vasconcelos. Desde criança, através da catequese, a sua “ligação à Igreja era normal”, mas, pelos 8 anos, foi reavivada quando a sua mãe se reaproxima da fé, através do movimento de Schoenstatt. “Nessa altura, fiz a Primeira Comunhão e a minha vida na Igreja teve maior regularidade”, refere. Apesar de ter assistido, com 3 anos, à separação dos pais, Miguel destaca a importância da transmissão da fé em família. “Vivi com a minha mãe e foi através da família, fruto do seu segundo casamento, que a fé me chegou”, aponta.

Aos 16 anos, muda-se do centro de Lisboa para o Estoril e a integração na paróquia faz-se “naturalmente”. Com 18 anos, surgiu um convite que o iria pôr a pensar “seriamente” na sua vocação. “Convidaram-me para ser monitor de um campo de férias, o Milonga, e eu aceitei. Foi através dessas experiências, em termos do encontro com Jesus, que senti que a questão da vocação tinha de ser enfrentada”, sublinha. A interrogação sobre ser padre tinha surgido aos 15 anos, através do testemunho de um sacerdote. “Lembro-me de responder apressadamente que não. Mas a verdade é que, desde aí, nunca fiquei seguro desse ‘não’. Durante os anos seguintes, essa questão ia voltando, comigo a tentar abafá-la”, lembra Miguel.

O seu grupo de amigos, com “vontade de levar a fé a sério”, a entrada no seminário do amigo Bernardo Trocado, ordenado no ano passado, e o acompanhamento espiritual do padre Ricardo Neves, então pároco do Estoril, foram determinantes para que este jovem entrasse no seminário. “Deus mete-se com as pessoas e isso é uma coisa boa. Tornou-se claro que não havia razões para ter medo”, aponta.

A um ano de terminar a licenciatura em Engenharia e Gestão Industrial, e após um período de acompanhamento que o ajudou a certificar-se que a entrada no seminário não seria uma “fuga” ao curso ou um “entusiasmo volátil” por ver um amigo disponível para ser padre, Miguel entra no Seminário de Caparide. “Eu não sabia como iria ser”, lembra. Da experiência de 7 anos, entre o Seminário de Caparide e o dos Olivais, Miguel destaca a experiência “muito boa” de uma “iniciação mais séria à oração, com métodos em que pudesse dar corpo à relação com Jesus e um ritmo de vida onde isso podia acontecer tranquilamente”. O trabalho pastoral, nas paróquias de Gradil, Milharado, Vila Franca do Rosário, Carregado e Cadafais, “foi importante para conhecer melhor a diocese”. A “proximidade com as pessoas” ajudou-o a “perceber a seriedade do que Deus pede”. “Desde os primeiros contactos, foi muito claro que as pessoas se aproximavam não do Miguel mas do que eu, enquanto seminarista ou diácono, significava para elas”, aponta o futuro padre da Diocese de Lisboa, que deseja estar “na disposição” de não fazer nada em nome próprio. “Isto é tudo maior do que nós e é nessa disposição que eu quero estar”, assegura.

 

 

“Sou administrador de uma graça muito grande que não é minha”

Pedro Tavares

25 anos

Batizado na Paróquia de São Sebastião, Peniche

 

No 7º ano de escolaridade, em 2005, por sua “autorrecriação”, quis fazer uma experiência no pré-seminário. Pedro Tavares era acólito e “não descurava a questão do sacerdócio”. “Pedi autorização aos meus pais, inscrevi-me e fui. E detestei. Era muita oração, muitas Missas e jurei para nunca mais”, conta. A porta da vocação só se voltaria a abrir em 2009, durante um retiro de acólitos da sua paróquia. O então padre que o recebera no pré-seminário, em 2005, padre Filipe Santos, atual diretor adjunto do Pré-Seminário de Lisboa, era o pregador. “Se soubesse que era ele, acho que não tinha ido”, graceja Pedro Tavares. No retiro não foi abordado o assunto da sua vocação; contudo, Pedro deixa-se tocar pela reflexão sobre a parte final do Evangelho de São João, com a pergunta de Jesus a Pedro: ‘Tu amas-me?’. “Estava projetada na parede. Achei que aquela pergunta era para mim. Ali fiz uma experiência de Deus como nunca tinha feito. Senti-me muito feliz com o que estava a viver porque era completamente novo mas, ao mesmo tempo, com medo, porque achei que Deus me pedia alguma coisa que não sabia o que era”, conta.

Teve as notas que sempre almejou, para poder entrar no concorrido curso de ‘Multimédia e Design Gráfico”, na Faculdade de Belas Artes. Mas as dúvidas, quanto à vocação, fizeram-no questionar sobre o futuro. Mais tarde, numa celebração penitencial, escolheu “um padre novo, com pouco tempo de sacerdócio”. “E a coisa deu mau resultado...”, refere, sorridente. O padre Moisés, atual pároco da Nazaré, disse-lhe uma frase que “não se esquece”: ‘Tu apaixonaste-te por Deus’. “Quando ele me disse isto, foi como se tivesse levado um soco na barriga, porque era isso mesmo”, lembra.

O momento de tomar a decisão de entrar no seminário surge após dois momentos: escutar uma palavra da homilia do Papa Bento XVI, em 2010, na Missa no Terreiro do Paço, em Lisboa – ‘Só seguindo Jesus é que se encontra o verdadeiro sentido da vida e, consequentemente, a alegria verdadeira e duradoura’ – e o falecimento do seu pároco, padre Bastos, passado um mês da visita papal. Os pais “receberam bem” a decisão do filho mais velho. “A minha mãe já percebia o que estava a acontecer, mas o meu pai agarrou-se a mim, a chorar, e disse-me: ‘Se é isso que tu queres, com muito orgulho te vou levar. Mas se um dia perceberes que não é isso, com muito orgulho te vou buscar’”, lembra Pedro. Já no Seminário de Caparide, o “choque” que sentiu nos primeiros tempos, sem poder ir a casa “quando queria” e por estar “sob as ‘ordens’ de uma equipa formadora”, foi-se transformando numa certeza: “A vida já não me pertencia”.

Com o trabalho pastoral nas paróquias de Benfica, Algés e Loures, foi procurando “descobrir onde Jesus estava e onde é que Ele queria chegar aos outros”. Considerando-se “indigno”, diz que fica “extasiado” por ver que, apesar de “tantas vezes não ter correspondido”, Deus escolhe-o e fá-lo “servo para batizar e falar em seu nome”. “Sou administrador de uma graça muito grande que não é minha”, garante este futuro padre diocesano, que atesta ter sido “escolhido” porque Deus o ama e precisa da sua vida “para os outros”.  

 

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Ordenações com transmissão vídeo em direto

A celebração das Ordenações no Patriarcado de Lisboa, que decorre este Domingo, 2 de julho, às 16h00, no Mosteiro dos Jerónimos, vai ser transmitida em direto, a partir do site (www.patriarcado-lisboa.pt), páginas no Facebook (www.facebook.com/patriarcadolisboa) e YouTube (www.youtube.com/patriarcadolx) do Patriarcado de Lisboa e no Meo Kanal (canal 210021).

Na celebração, presidida pelo Cardeal-Patriarca, D. Manuel Clemente, vão ser ordenados presbíteros Marco Leotta e Lúcio dos Santos (à esquerda), do Seminário Redemptoris Mater, Miguel Vasconcelos e Pedro Tavares (à direita), do Seminário dos Olivais, e Rui Jorge dos Santos Vieira Ferreira, da Sociedade Missionária Portuguesa - Missionários da Boa Nova. Vão ainda ser ordenados quatro diáconos permanentes (ver pág.08 desta edição).

texto e fotos por Filipe Teixeira
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