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P. Manuel Barbosa, scj
Transformar para partilhar

Num destes dias, em raro zapping televiso parei uns instantes num programa em que um senhor decorava e transformava frutos e legumes de modo a cativar a atenção e o apetite dos mais pequeninos, quantas vezes avessos a estes alimentos tão importantes para uma boa saúde alimentar. Apresentava tudo de forma simples e bela e com muita alegria. A concluir, o entrevistador afirmou que «a vida é bela quando a sabemos transformar», ao que o entrevistado emendou dizendo que «a vida é bela quando a sabemos partilhar».

A consulta de um simples dicionário indicou-me que transformar pode ter três sentidos: modificar, mudar; transfigurar, converter; disfarçar-se, esconder-se. E partilhar tem dois sentidos: dividir, repartir, distribuir; compartilhar, participar, compartir.

Transformar, partilhar: fiquei a pensar nestas duas atitudes em relação às vidas humanamente cristãs que levamos. O Papa Francisco, na exortação apostólica «A Alegria do Evangelho» que deveria ser continuamente revisitada, fala amiúdes vezes de transformação para dizer conversão de vida, sempre levados pela Pessoa de Jesus Cristo que nos transforma em alegres discípulos missionários. Mas transformar só faz sentido se implica partilha de vida, autêntica solidariedade, gratuito voluntariado.

Em tempo de veraneio e merecido descanso para quem dele usufruir, podemos desleixar estas duas atitudes humanamente cristãs. Recordemos que na Eucaristia Cristo se transforma para se partilhar todo connosco. E que fazemos nós? Transformamo-nos para partilhar a nossa vida em Cristo com todos os que encontramos nos nossos caminhos? Ou ficamos por uma mera celebração passiva e estagnada? «Transformar para partilhar» é um lema profundamente eucarístico na ação celebrativa em si mesma, mas em concomitância com todas as ações quotidianamente vividas.

Transformar para partilhar o que somos e fazemos, como pessoas em família, em comunidade. Sempre em Cristo que se entrega em partilha plena ao Pai por todos nós. Sempre em contínua atitude eucarística, que é isso mesmo. Volto a um exemplo de há pouco, numa das celebrações a que presidi. Na altura da comunhão, quando apresentei a hóstia consagrada a uma comungante como «Corpo de Cristo», respondeu-me: «Bom dia! Como está?» Não contando com esta imprevista resposta fora de ritual, acho que sorri e balbuciei «Bem», seguindo-se o «Ámen» dessa senhora que recebeu a Sagrada Comunhão num belo e expressivo sorriso. Se calhar faz-nos falta este diálogo tão humano com o Senhor para melhor nos deixarmos transformar por Ele em santa partilha, quotidianamente assumida.

Na liturgia deste Domingo em que escrevo estas notas, a Palavra de Deus oferece-nos a parábola do semeador com a correspondente catequese feita pelo próprio Jesus. Comentando hoje este texto, o Santo Padre convidou-nos a fazer a «radiografia do nosso coração», para vermos se está a ser transformado pela Palavra, se está a ser transformado de coração duro, insensível e espinhoso em coração bom e terno, solidariamente aberto à partilha.

Hoje completa-se um mês em que todos sofremos com o que se passou de incendiário em Pedrógão, com tantas vidas humanas ceifadas e imensa destruição da natureza e bens materiais. Ninguém ficou insensível à dor e ao sofrimento de tanta gente naquela região. Rezámos e partilhámos bens. O nosso ser transformou-se uma vez mais em partilha. E agora? Mantemos essa força da partilha? Ou voltámos às ondas de algum esquecimento e indiferença?

A transformação de vida não nos deixa alternativa. Implica contínua partilha da vida, que é «bela quando a sabemos partilhar». Sintonia com o tal senhor da televisão, que me fez pensar na beleza da vida que só acontece no encontro com Cristo e com os próximos em partilha oblativa.