Missão |
Gabriela Poças
“Estou aqui para dar testemunho do Evangelho!”
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Gabriela Poças nasceu a 18 de março de 1977, em Vila Nova de Famalicão. É licenciada em Medicina, pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar, da Universidade do Porto, desde 2003. É médica de família, desde 2009, na USF Leça, unidade da qual foi coordenadora, desde junho de 2015, até à ida para missão. Este ano, esteve em missão em Gabú (na Guiné-Bissau), durante dois meses.

 

Frequentou o Instituto Nun'Alvres - Colégio das Caldinhas, dos Jesuítas, no Jardim de Infância e do 5º ao 12º ano, o que a marcou tanto a nível pessoal como cristão. Fez o 3º ano do curso de Bioquímica da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto “até perceber que não iria ser feliz a fazer investigação e sem contactar com pessoas.” Em 1998 entrou no curso de Medicina do Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar, da Universidade do Porto e terminou em 2003. Fez o Internato Geral no Hospital de S. Marcos - Braga e o Internato Complementar na Unidade de Saúde de Lavra - Unidade Local de Saúde de Matosinhos. É especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF) desde 2009, Médica de Família na USF Leça desde então e tem uma Pós-graduação em Princípios da Terapêutica e suas Bases Farmacológicas. Desde junho de 2015 até à ida para a Guiné-Bissau, foi coordenadora da USF Leça, bem como representante dos Cuidados de Saúde Primários no Núcleo Executivo da Comissão de Controlo de Infeção e Resistência aos Antimicrobianos e Orientadora de Formação de Internos da especialidade de MGF desde 2012. Tudo isto fez com que se sentisse “muito cansada, por vezes sem o ânimo e o entusiasmo que a minha missão como médica de família de cerca de 1750 utentes exige... Achei que tinha de ‘fazer um intervalo’, para focar-me novamente no essencial, no cuidado aos doentes mas também no cuidado de mim própria...”

 

Uma família missionária!

O seu percurso cristão começou em casa com os seus pais e as suas irmãs. Os seus pais sempre foram muito comprometidos com as atividades da paróquia e pertencem às Equipas de Nossa Senhora há 35 anos. “Lá em casa, todos somos missionários!... As minhas irmãs também são catequistas na paróquia”, partilha. Aos 16 anos fez o Crisma. Frequentou o Centro de Reflexão e Encontro Universitário - Inácio de Loiola, durante o tempo de faculdade e conheceu os Ministros da Vida e a Pastoral Universitária Porto – Saúde. “Foi definitivamente neste grupo (inicialmente de estudantes de profissões de saúde e posteriormente de profissionais) que aprendi a viver a minha profissão como missão!”, diz-nos. Entre 2010 e 2014 fez parte do núcleo de Braga da Associação dos Médicos Católicos Portugueses, “tendo cimentado a amizade com o Pe. Jorge Vilaça - o responsável pelo ‘bichinho’ da Missão ad gentes. Desde há dois anos que nos reunimos no CMAB em Braga, um grupo de médicos católicos com o objetivo de vivermos mais e melhor ao jeito de Cristo-Médico, rezámos um texto proposto pelo Pe. Valério, sj, e encontrámo-nos mensalmente para partilharmos a experiência interior vivida.”

 

A missão na Guiné-Bissau

Este ano, esteve em missão em Gabú. Nos primeiros dias de missão, partilhava: “Com 10 dias de Missão em Gabú, Guiné-Bissau, ainda é cedo para balanço mas já será o suficiente para algumas considerações. Na verdade, esta Missão já começou no meu coração desde julho de 2016 com um desafio do Pe. Jorge Vilaça. Nunca antes tinha sequer pensado em fazer Missão ad gentes; sempre acreditei que a minha missão era com cada doente no Centro de Saúde e também com os meus colegas e os outros profissionais de saúde com quem trabalho. Mas o Espírito foi trabalhando no meu coração e em dezembro, depois de 4 dias de Exercícios Espirituais de discernimento, meti ‘mãos à obra’: pedi uma licença sem vencimento durante 2 meses e iniciei a formação. A formação do CMAB e da FEC foi absolutamente essencial para ‘purificar’ os objetivos, as expectativas e para antecipar algumas dificuldades comuns a todas as missões. Foi também muito importante ouvir testemunhos, partilhar dúvidas e criar um grupo. Foi vontade de Deus que não fosse possível integrar a Missão em Moçambique e me levasse até Gabú. Não teriam passado sequer 2h desde que tinha aterrado na Guiné-Bissau quando se deu um acontecimento trágico: a caminho de Bafatá, estão 2 homens deitados no asfalto. Como não há iluminação pública, e as estradas têm retas muito compridas só à medida que nos íamos aproximando é que os faróis foram iluminando e nos demos conta que teriam sido vítimas de atropelamento. Eu ia com o motorista que era guineense, uma leiga e uma enfermeira brasileiras. Saímos do pick-up e depressa nos apercebemos que um dos homens já estava morto; o outro contorcia-se com dores. Enquanto fomos à minha mala buscar luvas e uma lanterna para o examinar, tinha desaparecido da estrada e caído para a berma. Depois de o encontrarmos, detetámos um pulso fraco mas ainda com vida, pelo que decidimos transportá-lo ao hospital mais próximo. Infelizmente, já chegou ao hospital também sem vida… Acordámos médicos e enfermeiros ‘para nada’!... Não consegui tecer qualquer comentário ou desabafo até ao dia seguinte; custou-me a adormecer e dormi muito mal… No dia seguinte participei na Missa dominical na Catedral de Bafatá onde fui apresentada pelo Bispo D. Pedro Zili à comunidade como médica. Mas o que é que eu estava ali a fazer? Se eu tinha vindo como médica e não conseguira ter salvado nenhuma daquelas vidas, para que é que o Senhor me tinha enviado? Antes do almoço fui enviar umas mensagens para a minha família e foi então que as lágrimas vieram, que as perguntas saíram, que a revolta conseguiu ser verbalizada. O dia seguinte foi de oração: muitas perguntas, mas também de pacificação e de definição do objetivo da Missão. A minha Missão aqui não é salvar vidas, nem curar doenças; estou aqui para dar testemunho do Evangelho e foi o que fiz naquele acidente: os que nos viram parados, a polícia, os profissionais do hospital viram que não passámos ao lado, não voltámos a cara, cuidámos das pessoas, que através de nós Deus pôde dizer: ‘Amo-te sem condições’! Apesar de ter sido alertada em várias formações e ‘saber’ na minha cabeça que esta Missão seria mais importante para mim, do que para as pessoas de cá, só depois de estar cá senti isso e ‘soube’ no meu coração. Nesta Missão, como na minha vida, terei de passar por situações de morte interior e exterior, mas como cristã sei que o meu destino é Pascal!”.

Durante os 2 meses de missão, ficou hospedada na Comunidade Católica Nova Aliança “uma família” onde se sentiu “em casa”. “Foi também um desafio viver em comunidade, uma vez que vivo sozinha em Vila do Conde desde há cerca de 7 anos. Desenvolvi a minha atividade profissional no Centro de Recuperação Nutricional (CRN) com crianças gravemente desnutridas e na Casa das Mães para grávidas de alto-risco. Neste período, prestei cuidados a cerca de 30 crianças internadas com desnutrição aguda grave, sem deixar de fazer outras consultas pontuais. Realizei cerca de uma centena de consultas e tratamentos em Contuboel e 2 tabancas adjacentes. Os dois meses vividos na GB, mais do que uma ‘missão técnica’, foram um modo de testemunhar, em comunhão com a Igreja, os valores do Evangelho maioritariamente junto de população muçulmana, concretizados no amor aos mais fragilizados, aos que são a periferia (crianças e mulheres)”, diz-nos.

texto por Catarina António, FEC | Fundação Fé e Cooperação
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