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Visita Apostólica do Papa Francisco à Colômbia
"O amor é mais forte"
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Paz, perdão e reconciliação foram os temas presentes nas 13 intervenções que o Papa Francisco fez ao longo dos cinco dias de visita à Colômbia, que terminaram no Domingo, 10 de setembro. A visita incluiu deslocações a áreas anteriormente controladas pela guerrilha e a outras onde floresceu, em tempos, o narcotráfico e a escravatura.

Francisco regressou à zona do "fim do mundo", de onde partiu em 2013 para ser eleito Papa, com o objectivo de dar força a um caminho de paz na Colômbia agora iniciado, mas que enfrenta a dificuldade do perdão e da aceitação do outro. Visita que Francisco tinha prometido fazer logo que fosse alcançado o acordo de paz e que, mesmo sem se ter sido iniciado, tinha conseguido um primeiro avanço, com o Exército de Libertação Nacional (ELN), um dos grupos de guerrilha, a anunciar um cessar-fogo a partir do próximo dia 1 de outubro até 2018 e a saudar a visita do Sumo Pontífice, manifestando esperança no resultado político da viagem.

Por isso, o lema da viagem foi ‘Vamos dar o primeiro passo’, sublinhando o Papa que dar o primeiro passo leva "a sair ao encontro do outro e a estender-lhe a mão em sinal de paz". Isto é, explicou, há que resistir à “tentação da vingança” e à “satisfação de interesses a curto prazo”. “Quis vir aqui para vos dizer que não estais sozinhos, que somos muitos a querer-vos acompanhar nesta etapa; esta viagem quer ser um incentivo para vós, um contributo que aplane, de algum modo, o caminho para a reconciliação e a paz”, acentuou, no encontro com os dirigentes políticos colombianos, logo após a chegada, na quarta-feira, 6 de setembro. Na intervenção, citou o título mais conhecido da obra do colombiano Gabriel Garcia Márquez ("Cem anos de solidão"), Prémio Nobel da Literatura em 1982, para sublinhar que “o tempo gasto no ódio e na vingança é muito”. “A solidão de estar sempre uns contra os outros já se conta em décadas e aproxima-se dos cem anos; não queremos que qualquer tipo de violência restrinja ou suprima nem mais uma vida”, disse Francisco, recordando aos políticos que é preciso trabalhar para acabar com as desigualdades, “raiz das doenças sociais”. Aos jovens, com quem se encontrou depois, desafiou-os a perdoar, pedindo-lhes também que não deixem que ninguém lhes roube a alegria.

 

Perdoar

Na Missa de quinta-feira, ao ar livre, em Bogotá, perante mais de um milhão de pessoas, o Papa alertou para a necessidade de palavras de vida, num mundo em que "densas trevas" ameaçam e destroem a vida. E especificou: trevas da injustiça e da desigualdade social, trevas corruptoras dos interesses pessoais e de grupo, trevas de falta de respeito pela vida humana, trevas da sede de vingança e do ódio, trevas de quem se torna insensível ao sofrimento. "Mas Jesus, como a Simão, convida-nos a fazer-nos ao largo, impele-nos a compartilhar o risco, a deixar os nossos egoísmos e a segui-Lo; convida-nos a perder medos que não vêm de Deus, que nos paralisam e atrasam a urgência de ser construtores da paz, promotores da vida”, disse, numa referência ao Evangelho do dia.

Fundamental neste processo é perdoar e seguir em frente, apelou o Papa durante o encontro de oração para a reconciliação nacional na Colômbia, realizado na sexta-feira em Vilavicencio, zona anteriormente controlada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) a pouco mais de 120 quilómetros de Bogotá, durante o qual foram ouvidos quatro testemunhos de ex-guerrilheiros e de civis, vítimas da violência nos 50 anos da guerra civil. Francisco disse ter ficado emocionado com o que ouviu, mas sobretudo animado com a vontade transmitida nos testemunhos de perdoar e de "não deixar que o ódio, a vingança ou a dor" prevaleçam sobre a vontade de perdoar. "A violência gera mais violência, o ódio mais ódio, e a morte mais morte. Temos que romper esta cadeia que é apresentada como inescapável e isso só é possível com o perdão e a reconciliação. E tu, querida Pastora, e tantos outros como tu, demonstraram que é possível", disse o Papa. Francisco dirigia-se à autora de um dos testemunhos, Pastora Garcia, uma mulher que perdeu o pai, o marido e dois filhos durante a guerra civil e que afirmara ser necessário "perdoar o imperdoável".

Antes da vigília, Francisco presidiu a uma missa, durante a qual foram beatificados D. Jesús Jaramillo, bispo assassinado por guerrilheiros do ELN em 1989, e o padre Pedro Ramirez Ramos, morto em Armero em 1948.

Na Missa, ao ar livre, a que assistiram militares e ex-guerrilheiros, entre as centenas de milhares de fiéis, o Papa insistiu na reconciliação, como porta que se abre a todos os que viveram o conflito. “Quando as vítimas vencem a tentação compreensível da vingança, tornam-se nos protagonistas mais credíveis dos processos de construção da paz”, acentuou.

No local da vigília, no Parque Las Malocas, um dos momentos mais altos da visita à Colômbia, encontrava-se também a imagem do Cristo Negro de Bojavá, que ficara mutilada, sem pernas nem braços, durante um massacre de dezenas de pessoas que se tinham refugiado numa igreja, em 2002. O Papa aproveitou o simbolismo do Cristo Negro de Bojavá, pedindo aos colombianos para que sejam os pés, braços e mãos em falta na imagem mutilada: "Podemos ser seus pés para encontrar o irmão necessitado; seus braços para abraçar aquele que perdeu sua dignidade; suas mãos para abençoar e confortar aquele que chora na solidão". "Não tenham medo de pedir e de oferecer o perdão", pois, acrescentou, esta é a hora de "sarar as feridas, construir pontes, limar diferenças, renunciar à vingança".

 

“Todos têm um lugar”

No dia de sábado, em Medellin, região que ficou conhecida pelo narcotráfico, o Papa teve intervenções dirigidas mais para o interior da Igreja, tanto na Missa celebrada perante um milhão de pessoas, no aeroporto, como num encontro com sacerdotes, religiosos e seminaristas. Na homilia, pediu mais uma vez a renovação da Igreja, para o que é sempre necessário fazer sacrifícios e ter coragem, mas que não deve meter medo a ninguém. Recordando que a Igreja está sempre em renovação, Francisco pediu aos colombianos que tenham actos de “não-violência, de reconciliação e de paz” e que sigam o estilo de vida de Jesus, sem afastar nem rejeitar ninguém. “A Igreja não é nossa, é de Deus; Ele é o dono do templo e da seara; todos têm um lugar, todos são convidados a encontrar, aqui e entre nós, o seu alimento”, acentuou.

Tema que retomou ao visitar, mais tarde, o Lar de São José, de acolhimento de crianças desfavorecidas, expressando a sua dor pelo sofrimento das crianças, “vítimas inocentes da maldade”. “Ver sofrer as crianças faz mal à alma, porque elas são as predilectas de Jesus. Não podemos aceitar que sejam maltratadas, que as impeçam de viver a sua infância com serenidade e alegria e se lhes negue um futuro de esperança”, disse. No final da visita, durante a qual abraçou e beijou muitas das crianças, deixou uma mensagem de esperança: “Deus não vos abandona, Deus protege-vos e assiste-vos. E o Papa leva-vos no seu coração”.

 

“O diabo entra pelo bolso”

Foi no encontro com religiosos que o Papa se referiu ao flagelo da droga, que tristemente celebrizou Medellin, recordando as vítimas do uso de estupefacientes e apelando aos traficantes para que se convertam. “Convido-vos a lembrar, a acompanhar este cortejo de luto, a pedir perdão para quem destruiu as ilusões de tantos jovens, pedir ao Senhor que converta o seu coração, pedir que acabe esta derrota da humanidade jovem”, afirmou.

Ao falar aos sacerdotes, religiosos, seminaristas e suas famílias, o Papa alertou para os perigos que a corrupção e a cobiça pelo poder acarretam para o interior da Igreja, distorcendo as vocações, asfixiando-as ao substituírem o serviço de Deus pelo carreirismo. “O diabo entra pelo bolso”, alertou, chamando a atenção de todos para que estejam alerta para a corrupção, que começa a “pouco e pouco”, se enraíza no coração e acaba por desalojar Deus”. “Não se pode servir a Deus e ao dinheiro”, lembrou. “O veneno da mentira, da dissimulação, da manipulação e do abuso do povo de Deus, dos mais frágeis e especialmente dos idosos e das crianças não pode ter lugar na nossa comunidade; são ramos que decidiram secar e que Deus nos manda cortar”, sublinhou. As vocações, disse ainda, morrem quando se querem alimentar de “honrarias, quando são impelidas pela busca de tranquilidade pessoal e promoção social, quando a motivação é ‘subir de categoria’, apegar-se a interesses materiais chegando mesmo ao erro da avidez de lucro”.


“O teu irmão precisa de ti”

O último dia da visita do Papa, no Domingo, foi cumprido em Cartagena das Índias, antigo mercado de escravos, oportunidade que Francisco aproveitou para falar das escravaturas contemporâneas, não só na Colômbia como em todo o mundo. Ainda hoje “milhões de pessoas são vendidas como escravos, ou então mendigam um pouco de humanidade, uma migalha de ternura, fazem-se ao mar ou metem-se a caminho porque perderam tudo, a começar pela sua dignidade e os seus direitos”, lamentou.

A intervenção do Papa ocorreu frente à Igreja de São Pedro Claver, jesuíta espanhol que no século XVII trabalhou na defesa dos escravos na Colômbia, vindo a falecer em Cartagena. Francisco apresentou o missionário espanhol como exemplo da “responsabilidade e solicitude que cada um de nós deve ter pelos irmãos”, pedindo aos católicos que não esmoreçam na luta para recuperar a dignidade de quem se encontra “prostrado pelo sofrimento das feridas da vida”.

Pouco depois, Francisco benzeu a primeira pedra para a construção de casas para os sem-abrigo e da organização Talitha Qum, que se dedica à ajuda de jovens vítimas do turismo sexual, em Cartagena. Na homilia da Missa de Domingo com que concluiu a viagem à Colômbia, o Papa voltou a sublinhar a imperiosa necessidade de reconciliação, desatando “os nós da violência” para que seja possível desenredar “a complexa teia dos conflitos”. “É-nos pedido para darmos o passo do encontro com os irmãos, tendo a coragem duma correcção que não quer expulsar mas integrar; é-nos pedido para sermos caridosamente firmes naquilo que não é negociável”, afirmou. Elogiou os testemunhos de vítimas da violência, dos dois lados, que ouviu ao longo dos cinco dias da visita, referindo que apesar da dor, das “feridas terríveis” e das “perdas irreparáveis” foi-lhes possível dar “o primeiro passo”. Mas, acentuou, não basta conseguir acordos de paz: falta o perdão, falta a reconciliação, que só se conseguem “no encontro pessoal entre as partes”. Apelo que repetiu, ainda mais uma vez, na saudação de despedida: “Colômbia, o teu irmão precisa de ti! Vai ao seu encontro, levando o abraço da paz, livre de toda a violência”.

 

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Paz. O que está em causa?

Os apelos do Papa Francisco à paz e ao perdão sempre presentes na sua visita à Colômbia são cada vez mais fundamentais num país em que a reconciliação se apresenta mais difícil, depois do acordo de paz com as FARC e que foi inicialmente rejeitado em referendo. Obra do actual presidente, Juan Manuel Santos, que contou com a oposição feroz do seu antecessor Álvaro Uribe, o acordo acabou por ser reformulado e aprovado pelo Parlamento colombiano, em finais do ano passado. O acordo prevê a entrega das armas por parte das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o que foi cumprido pelos antigos guerrilheiros, a sua transformação em movimento/partido político e a integração dos seus elementos na sociedade civil, sem sanções ou processos. É precisamente este ponto que está no centro da oposição ao acordo, que valeu o Prémio Nobel da Paz ao presidente colombiano: o perdão total e incondicional dos cerca de 7.000 guerrilheiros é recusado por parte dos colombianos, sobretudo pelos familiares das mais de 220 mil vítimas mortais.

Segundo dados do missal oficial desta visita, os 52 anos de guerra civil na Colômbia (que envolveram as FARC e o ELN) traduzem-se em “984.507 homicídios, 166.407 desaparecidos, 16.340 assassínios selectivos, 1.982 massacres, 35.092 sequestros, 19.684 vítimas da violência sexual, 6.421 casos de recrutamento forçado e 12.000 amputados”.

 

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As multidões que sempre acompanharam o Papa ao longo dos cinco dias da visita, apesar dos verdadeiros dilúvios que se registaram em alguns dos eventos (chegando a provocar atrasos no programa), estão na origem do ligeiro incidente em que Francisco ficou ferido, durante um percurso no Papamóvel, em Cartagena. O veículo teve de efectuar uma travagem brusca, devido aos colombianos que quase taparam o caminho à viatura; o Papa, que estava em pé, bateu com a face junto a uma das barras verticais, ficando com um hematoma na face esquerda e uma ferida no sobrolho.

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