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‘A Bíblia em Portugal’, do século V aos dias de hoje
“A nossa cultura sem Bíblia não se entende”
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Reunir informação sobre a presença da Bíblia em Portugal, desde o século V até aos dias de hoje, é o mote do trabalho do frei Herculano Alves. Após a publicação do 2º volume da coleção ‘A Bíblia em Portugal’, este religioso garante, em entrevista ao jornal VOZ DA VERDADE, que a Bíblia “é um elemento essencial à nossa cultura”.

São sete volumes sobre a Bíblia em Portugal. O trabalho, da autoria do capuchinho frei Herculano Alves, procura compilar informação sobre a presença da Bíblia no País e é o resultado de uma longa investigação em bibliotecas e arquivos de todo o mundo, incluindo Estados Unidos, Brasil, Holanda, Dinamarca e Reino Unido.

O projecto deve estar concluído em 2020 – já foram publicados dois tomos (Volume I. As Línguas da Bíblia. 23 séculos de traduções e Volume II A Bíblia na Idade Média). “Vamos abranger todas as traduções, de qualquer língua, muitas estrangeiras traduzidas da língua moderna para português”, explica frei Herculano Alves.

A colectânea ‘A Bíblia em Portugal’ surgiu na sequência da tese de doutoramento do autor em Teologia Bíblica, em Salamanca, sobre a primeira tradução da Bíblia em língua portuguesa, no século XVII, a Bíblia de João Ferreira Annes d'Almeida. “As investigações nas bibliotecas importantes da Europa, Estados Unidos da América e Brasil à procura de bíblias do João Ferreira de Almeida deram-me ocasião de verificar muitas outras obras, de outros autores portugueses, que também falavam de Bíblia”, diz. Os restantes livros da colectânea, ainda por editar, são ‘Bíblia nos séculos XVI-XVII’; ‘A Bíblia de João Ferreira Annes d'Almeida (1629-1690)’; ‘Catálogo das Obras Bíblicas de João Ferreira Annes d'Almeida’; ‘A Bíblia nos séculos XVIII-XIX’. Leia a entrevista do autor ao Jornal VOZ DA VERDADE.

 

O que o motivou a fazer este estudo?

Faço este trabalho não apenas por motivos de carácter cultural, mas porque a Bíblia é um elemento essencial à nossa cultura. A nossa cultura sem Bíblia não se entende. Não podemos ir a um museu, se não conhecermos a Bíblia. A primeira intenção é fazer com que a Bíblia esteja presente não só no espaço religioso, mas também cultural. Cultura e evangelização são os dois grandes objetivos.

 

A partir de que período histórico começa a pesquisa?

A ‘Bíblia em Portugal’ é composta por sete volumes. O quarto volume [A Bíblia de João Ferreira Annes d'Almeida (1629-1690)] esteve um bocadinho na origem de toda esta colectânea. Eu trato este problema da Bíblia antes do período de Portugal ter existido como nação independente. A partir do século V, na Alta Idade Média, começo a falar dos homens importantes da Igreja, os autores ligados à patrística da laico-portuguesa, que no fundo foram os que estiveram na origem do Cristianismo neste território, embora já houvesse cristãos antes. Santo Agostinho tinha ligações com os Bispos de Braga, por exemplo. Começo aí, nesse período, para fazer um contexto da Bíblia neste território que viria a ser Portugal.

 

Que contexto inicial era esse?

Trato as obras que se dirigiam aos cristãos que existiam aqui e que naturalmente estavam fundamentadas na Bíblia. O atual quarto volume foi feito na sequência da minha tese de doutoramento sobre a Bíblia de João Ferreira Annes d’ Almeida, que é a Bíblia que os protestantes sempre usaram em Portugal, a partir do século XVII. A Bíblia foi feita no século XVII, no Oriente. João Ferreira d’Almeida tinha passado de católico para protestante calvinista holandês e foi nesse ambiente que fez a primeira tradução em língua portuguesa, para os portugueses. E quem eram os portugueses? Eram os povos que viviam em toda a costa asiática, desde o sul da India, passando pelo Ceilão, até ao Japão, por onde passavam os portugueses. Falavam português. Almeida não traduziu a Bíblia para os portugueses de Portugal, até porque os portugueses de Portugal eram católicos e ele, num primeiro momento, não creio que tenha feito a Bíblia a pensar nos de cá, mas nessas pessoas que falavam português.

 

O que explica essa opção?

Era gente que falava português que ele queria evangelizar com a Bíblia, já que ele era calvinista.

 

O que é que se sabe sobre esse processo de tradução?

Trata-se de um estudo que fui fazendo por bibliotecas americanas e europeias. Fiz um catálogo muito grande e descobri que a Bíblia do Almeida foi a obra mais publicada em língua portuguesa.

 

Qual é a sua estimativa?

Para cima de 200 milhões de exemplares, até 2010. Foi neste processo, neste estudo, que recolhi muito material.

 

Quanto tempo demorou a investigação?

Dois anos. Estive em Copenhaga, na Dinamarca, na Holanda. Fui umas quatro ou cinco vezes à British Library, em Londres. Estive uma semana em Nova Iorque – os americanos publicaram várias edições do Almeida para as colónias portuguesas. Fui várias vezes ao Brasil, onde há uma das maiores bibliotecas de Almeida. Mas a maior é em Cambridge, em Inglaterra.

 

O que está a fazer, no fundo, é compilar a história da Bíblia em Portugal?

Não é bem uma história – assim diriam os académicos. É mais uma compilação de tudo o que há sobre a Bíblia.

 

Tendo em conta que o seu trabalho abrange um espectro temporal alargado, que mudanças houve na Bíblia ao longo dos séculos?

Para já estou a trabalhar o terceiro volume sobre o século XVI e XVII. Houve sempre a proibição das traduções da Bíblia e Portugal foi sempre muito fiel a essas orientações. Outros países, que não foram tao fiéis, têm traduções nas línguas nativas. Nos livros, falo sempre do contexto europeu, porque não se entende a Bíblia em Portugal sem falar na Europa.

 

Tem alguma previsão de quando terminará este trabalho?

São seis volumes – no fundo sete, porque o quarto vai ter um catálogo aumentado – e em 2020 penso terminar, com a Bíblia no século XX/XXI.

 

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Frei Herculano Alves é professor de Sagrada Escritura na Universidade Católica Portuguesa do Porto, desde 1986. Foi coordenador geral da Bíblia da Difusora Bíblica. Durante 20 anos foi coordenador do Movimento de Dinamização Bíblica dos Franciscanos Capuchinhos e director da revista Bíblica. Estudou Teologia no Instituto Católico de Toulouse (França), Filologia Românica na Universidade de Coimbra e Ciências Bíblicas no Instituto Bíblico de Roma. É doutorado em Teologia Bíblica pela Universidade Pontifícia de Salamanca e autor de várias obras sobre a temática da Bíblia.

 

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Uma obra essencial e marcante “para o que somos como povo”

“Da sua recolha retiramos a prova dum culto e duma cultura essenciais e marcantes para o que somos como povo, mais lembrado ou mais esquecido disso mesmo”, escreveu o Cardeal-Patriarca D. Manuel Clemente sobre o trabalho de frei Herculano.

Já o professor universitário José Eduardo Franco disse: “É um contributo relevantíssimo para o conhecimento do papel modelador dos livros bíblicos na definição e compreensão do que somos e de como nos vemos. Podemos mesmo afirmar que esta era uma obra que faltava no universo da nossa investigação cultural, para ajudar a colmatar lacunas graves no domínio do conhecimento sistemático das relações entre religião e cultura, onde a Bíblia tem um lugar central”.

texto por Ana Catarina André e fotos por Ecclesia e D. R.
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