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D. Manuel Martins (1927 – 2007)
“Uma companhia certa, segura, com uma palavra sempre muito oportuna”
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Fez de Setúbal a sua nova casa e prometeu anunciar o “Evangelho da Justiça e da Paz”. Nos 23 anos que esteve à frente da Diocese de Setúbal, denunciou o trabalho infantil, os salários em atraso, o desemprego e a vida nas barracas. D. Manuel Martins morreu aos 90 anos, no passado Domingo, 24 de setembro, na Maia.

Ao longo da sua vida, D. Manuel Martins, Bispo emérito de Setúbal, teve uma presença muito ativa na área social e preocupou-se com os mais carentes e marginalizados. Durante a crise dos anos 80, teve uma intervenção direta contra as situações de desemprego, salários em atraso, trabalho infantil e as más condições de habitação, nomeadamente o flagelo das barracas em Setúbal. Devido às denúncias que fez sobre as situações de pobreza e de fome na região de Setúbal, chegou a ser conhecido como o ‘bispo vermelho’.

O Bispo emérito de Setúbal nasceu a 20 de janeiro de 1927, em Leça do Balio, concelho de Matosinhos. Foi ordenado sacerdote em 1951, após a formação nos seminários do Porto, seguindo-se a frequência do curso de Direito Canónico na Universidade Gregoriana, em Roma. Em 1975 foi nomeado bispo da nova Diocese de Setúbal, de onde só saiu 23 anos depois, em 1998. "Quando cheguei a Setúbal, levava uma recomendação muito importante do bispo de Porto, António Ferreira Gomes, que me disse para tentar não aparecer como colonizador, para procurar mergulhar em Setúbal, ser de Setúbal, ser Setúbal. E, felizmente, isso aconteceu-me", recordou D. Manuel Martins, enquanto partilhou, com a Lusa, em 2016, algumas histórias desses tempos conturbados. Nessa conversa, recordou um episódio de troca de palavras com o então primeiro-ministro, Mário Soares. "O Governo de Mário Soares dizia publicamente que em Setúbal não havia fome, que o Bispo de Setúbal é que fazia fome. A comunicação social não me largava e um dia eu respondi dizendo que 'se a fome era Nafarros e Belém, podíamos dar graças a Deus porque em Portugal não havia fome'", lembrou. Existia mesmo "fome em Setúbal", assegurou o Bispo que é considerado um dos principais responsáveis pela ação que a Igreja Católica continua a ter na região de Setúbal, designadamente no apoio social aos mais pobres e excluídos. Em entrevista à Renascença, em 2011, garantiu que "temos um défice de católicos a agir como políticos".

Serviço aos outros

D. Manuel Martins foi presidente da Comissão Episcopal da Acção Social e Caritativa e da Comissão Episcopal das Migrações e Turismo, presidente da Secção Portuguesa da Pax Christi e da Fundação SPES. Ao longo da vida foi várias vezes distinguido pela sua ação, sendo caracterizado como uma personalidade aberta e frontal. Em Setúbal, várias autarquias designaram-no cidadão honorário, tendo sido condecorado por diversas vezes com a medalha de mérito. O seu nome foi atribuído polo de Setúbal da Universidade Moderna e à antiga Escola Secundária n.º 1, localizada na Estrada do Alentejo. O Bispo emérito foi ainda agraciado com a grã-cruz da Ordem de Cristo, durante as comemorações do 10 de Junho de 2007, em Setúbal, e com o galardão dos Direitos Humanos da Assembleia da República, a 10 de Dezembro de 2008. Em março deste ano, o Presidente da República Portuguesa saudou o percurso de vida de D. Manuel Martins, que completou 90 anos a 20 de Janeiro. “Nascido em Matosinhos, no norte de Portugal, D. Manuel Martins sempre manteve a fidelidade aos princípios e valores distintivos daquela região do país: o sentido de serviço aos outros, a dedicação ao trabalho e a preocupação permanente com a justiça social”, escreveu Marcelo Rebelo de Sousa, num texto divulgado pela Presidência da República. O Chefe de Estado sustentou que o antigo Bispo de Setúbal coube projetar “os valores universais do humanismo cristão muito para lá dos limites da sua diocese”. “Seria na Diocese de Setúbal que, entre 1975 e 1998, a lealdade a esses valores mais se fez sentir, tornando D. Manuel Martins uma personalidade por todos admirada quer pelo vigor e desassombro da sua palavra, quer pela energia da sua ação, quer pela sua rigorosa independência face aos poderes instituídos”, assinala o Presidente português. 

A Missa de sétimo dia vai realizar-se no Domingo, 1 de outubro, pelas 16h00, na Sé de Setúbal.

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“Um estímulo e um alerta para aquilo que devemos ser como sociedade e como igreja”

Na reação à morte de D. Manuel Martins, o Cardeal-Patriarca de Lisboa deixou uma “palavra de muito reconhecimento e veneração pela figura, pelo pastor que foi D. Manuel Martins como padre, como bispo de Setúbal, depois como bispo emérito”. D. Manuel Clemente lembra que D. Manuel Martins foi “uma companhia certa, segura, com uma palavra sempre muito oportuna e um grande estímulo para nós todos, na sociedade portuguesa e na Igreja, de alerta para as necessidades e para estarmos constantemente onde precisamos de estar”. “Para todos nós foi um estímulo e um alerta para aquilo que devemos ser como sociedade e como igreja. Estamos todos muito agradecidos à figura, à pessoa ao protagonismo evangélico e pastoral de D. Manuel Martins”, acrescentou.

D. José Ornelas, atual Bispo de Setúbal, considera que D. Manuel Martins foi um “homem providencial não só no quadro da diocese de Setúbal, mas para o nosso país e para a nossa igreja. Um homem que soube acompanhar os tempos. Foi certamente homem de Deus para os tempos que nós vivemos, nesta grande viragem que vem desde o início da nossa democracia e da consolidação a nível nacional, mas particularmente a nível de um perfil de igreja que ele soube semear nesta península de Setúbal, nesta igreja jovem mas cheia de vida que a ele muito deve”, disse o prelado.

Para D. Joaquim Mendes, Bispo Auxiliar do Patriarcado de Lisboa, D. Manuel Martins foi “um bispo próximo, próximo à realidade do povo da sua diocese que na altura se debatia com uma situação de precariedade e de pobreza”. “Foi um defensor dos direitos dos trabalhadores e dos mais pobres e por isso entrou no seu coração. Era um Bispo das causas sociais, um bispo da caridade cristã, um bispo respeitado e escutado por todos, crentes e não crentes”.


texto por Renascença e fotos: D. R.
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