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A história da cristã que sobreviveu ao cativeiro do Boko Haram
O perdão de Rebecca
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Foi raptada e agredida vezes sem conta. Viu um dos filhos ser morto pelos terroristas e engravidou de um deles, ao fim de inúmeras violações. Durante dois anos, viveu um calvário tão desumano que até é difícil de imaginar. Sobreviveu. Agora corre o mundo a contar a sua história. Esteve por estes dias em Espanha. Todos os jornais falaram dela, falaram da cristã que perdoou aos terroristas.


Foi no dia 21 de agosto de 2014 que começou o calvário de Rebecca Bitrus. A sua história já foi publicada aqui, poucos dias depois da sua fuga. Recapitulemos: O grupo islamita Boko Haram atacou a aldeia onde vivia Rebecca com o marido e dois filhos. Procuravam os homens para os matar. Naquelas horas, enquanto passavam a pente fino todas as casas, os terroristas provocaram um imenso mar de sangue em Dogon Chuku. Todos procuraram escapar, mas era quase impossível. Foram momentos de pânico. Os sons das balas misturaram-se com os gritos de dor, com o cheiro das casas queimadas, com o desespero. Rebecca foi capturada, tal como os seus dois filhos. Nesse dia, sem saber se o marido tinha sido morto ou não, Rebecca foi obrigada a caminhar, com outras mulheres e crianças, rumo a um dos acampamentos do Boko Haram. Foram dias esgotantes. Os terroristas obrigavam-nos a caminhar em silêncio, pois o exército nigeriano andava por ali. Foi então que aconteceu a primeira tragédia. O mais pequeno dos filhos de Rebecca, então com apenas 1 ano de idade, desatou a chorar e ela não conseguiu calar o menino. Um dos terroristas agarrou nele, arrancou-o dos seus braços e atirou-o para o rio, junto ao qual caminhavam. A criança afogou-se logo ali, mesmo à sua frente.

 

“Rezava em silêncio”

Durante dois anos, Rebecca, por ser mulher e cristã, foi sujeita às mais incríveis sevícias que se podem imaginar. Nas mãos dos terroristas, porém, nunca renunciou à sua fé, apesar de isso lhe ter custado inúmeras violações, trabalho forçado, agressões físicas sem fim. Rebecca Bitrus esteve agora em Espanha, a convite do secretariado local da Fundação AIS para contar a sua história. E ninguém conseguiu ficar indiferente às palavras e às lágrimas desta mulher de apenas 29 anos. Todos os jornais falaram dela, falaram da cristã que perdoou aos terroristas. “Quando eles gritavam ‘Allahu akbar’, eu rezava em silêncio e pedia para Jesus me salvar.” Quase todos os dias, durante dois anos, Rebecca foi violentada mas nunca cedeu. Nunca mudou de religião, mesmo quando algumas das cerca de duas centenas de raparigas de Chibok – raptadas em abril desse ano de 2014 de um colégio cristão e que também estavam cativas, tal como ela, no acampamento do Boko Haram – lhe pediam para o fazer, pois caso contrário seria provavelmente morta. Na verdade, não a mataram, embora às vezes provavelmente o tivesse desejado. Foram dois anos de tormentos, em que foi forçada a andar de acampamento em acampamento, sempre vigiada para não fugir. Escravizada. Violada vezes sem conta. Até que engravidou. Mas os abusos continuaram, apesar disso.

 

Todos os dias

Dois anos depois, quase milagrosamente, Rebecca conseguiu fugir no dia em que o acampamento em que se encontrava foi atacado pelo exército nigeriano, numa operação militar de larga envergadura que envolveu também soldados dos Camarões. No meio da confusão, dos tiros, ela escapou-se para o mato levando consigo o filho mais velho, Zacarias, e o mais novo, Cristóvão. “Todos os dias recordo que tenho um filho de um deles…”, explicou Rebecca quando lhe perguntaram qual a memória mais forte que guarda do tempo de cativeiro. Mas acrescenta: “já perdoei aos terroristas”. Rebecca esteve por estes dias em Madrid acompanhada pelo Padre Innocent Zambua, da Diocese de Maiduguri, uma das mais afectadas pela violência jihadista. “Na nossa diocese – disse este sacerdote – temos cerca de 100 mil pessoas que fugiram por causa da violência do Boko Haram, cerca de 300 igrejas que foram queimadas, tal como 25 escolas, 3 centros de saúde e 3 conventos”. Só na Diocese de Maiduguri – que é apoiada diretamente pela Fundação AIS – a Igreja Católica acolhe cerca de 5 mil viúvas e 15 mil órfãos, em resultado do terrorismo deste grupo que pretende a criação de um “califado” no nordeste da Nigéria. Agora, todos os dias, quando Rebecca olha para o filho mais novo, quando olha para Cristóvão, lembra-se do homem que a violou, lembra-se de todos os homens que a violaram no mato, nos acampamentos do Boko Haram. Isso seria dramático, seria até uma tragédia, se Rebecca não tivesse já perdoado todo o mal que lhe fizeram. Cristóvão, o seu filho, que nasceu na floresta, no acampamento do Boko Haram, é a prova de que o bem é mais forte do que o mal. Rebecca é hoje, por onde quer que vá, por onde quer que conte a sua história, uma luz de esperança num país minado pela violência. O perdão de Rebecca foi mais forte do que todo o ódio dos terroristas.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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