Entrevistas |
Isabel Bordaleiro: Paramentos contribuem para a beleza da acção litúrgica
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A cada Eucaristia, muitos são os que admiram o seu trabalho. Ela é a única artesã do país que faz paramentos em tecelagem manual e colabora com o Patriarcado de Lisboa há quase dez anos. Falamos de Isabel Bordaleiro.

A Isabel Bordaleiro trabalha com o Patriarcado de Lisboa na confecção de paramentos há quase uma década. Qual a importância da dignidade dos paramentos numa celebração eucarística?

Quando fui desafiada pelo Patriarcado de Lisboa para confeccionar os paramentos para os padres da diocese não tinha qualquer conhecimento, nem tinha pensado nas coisas deste ponto de vista. Mas hoje, é muito interessante verificar como a dignidade de uma celebração está também intimamente ligada ao paramento do sacerdote. A Dra. Teresa Novo, responsável pela Nova Terra, a Livraria e Paramentaria do Patriarcado de Lisboa, sempre me disse que a celebração é Festa. E se é festa, temos de estar com dignidade. E os nossos sacerdotes têm de ser os primeiros a transmitir essa dignidade, que está ligada à imagem. E se está ligada à imagem está ligado ao paramento! Os paramentos sagrados contribuem, sem dúvida alguma, para a beleza da acção litúrgica.

 

Recentemente, esteve na Feira do Artesanato de Lisboa. Como vê a presença da Igreja nestes eventos, dando a conhecer a beleza das suas vestes litúrgicas?

Depois da minha primeira experiência na Feira Internacional do Artesanato de Lisboa, há cerca de dez anos e que me permitiu iniciar a colaboração com o Patriarcado de Lisboa (ver Perfil), nunca mais tinha participado nesta feira. Este ano voltei a participar, com uma peça que são quatro paramentos – com as cores litúrgicas principais: o branco, o roxo, o vermelho e o verde – que são bastante diferentes dos paramentos habituais. Neste ano a feira estava muito vocacionada para os têxteis e eu resolvi participar não só por ser a minha área, mas também porque entendi que era uma oportunidade de mostrar os paramentos a pessoas que não são os clientes habituais, ainda para mais num espaço que não é o contexto directo. Julgo que foi a primeira vez que um paramento em tecelagem manual esteve na Feira Internacional do Artesanato, mas, para ser sincera, tenho de dizer que as pessoas não perceberam lá muito bem o que era aquela peça… Achei importante acompanhar as casulas com um pequeno texto que explicativo, dizendo que aquilo é uma peça de roupa usada pelos sacerdotes nas Eucaristias. Mas infelizmente as pessoas estão muito desligadas e não associam. Por isso, é importante a Igreja mostrar as suas peças neste género de feiras.

 

Essa peça de quatro paramentos foi feita também com um outro objectivo…

Sim, com esta minha peça de quatro casulas procurei também alertar para uma questão, que é a questão da diferença e de aprendermos com a diferença. Isto porque eu trabalho em colaboração com a fundação afid Diferença, que desenvolve um trabalho na área da deficiência mental e que é neste momento a minha grande referência. Nós temos um ateliê de tecelagem manual onde trabalhamos com deficientes dessa instituição. Esta é uma das vertentes do meu trabalho, onde tenho aprendido imenso. E ao trabalhar estas vestes litúrgicas que foram a concurso na Feira Internacional do Artesanato de Lisboa procurei também transmitir uma ideia da solidariedade, de aproximação.

 

O que sente ao ver, por exemplo, o Cardeal-Patriarca com um paramento feito por si, como aconteceu na Missa de Ano Novo?

É uma sensação muito estranha. Ao mesmo tempo, é um orgulho muito grande. Saber que o Senhor Patriarca aprecia os meus paramentos é importantíssimo e é o reconhecimento do meu trabalho. É sinal que estou a fazer bem e que o trabalho tem qualidade. Num outro nível, é importante por dar a conhecer a tecelagem manual como actividade. Com o meu trabalho, posso contribuir para uma actividade que é tão importante na nossa cultura e que esteve quase, quase, quase a acabar. Só agora é que começa a haver novas pessoas que estão a recuperar a tecelagem manual. Mas não é fácil viver, ou sobreviver, desta actividade.

 

Os sacerdotes de Lisboa são muito exigentes com as vestes litúrgicas?

Não só são muito exigentes, como trazem ideias, o que é muito bom! É um desafio para mim quando me trazem ideias. Fazemos reuniões, discutimos, tiramos medidas. Vai-se fazendo a selecção das cores, dos padrões. É um trabalho muito, muito interessante, porque os padres sabem muito bem o que querem! Quando um padre me diz: ‘Gostava de ter um paramento assim…’ é muito engraçado e muito desafiante. Coloco sempre a componente pessoal que é o meu trabalho – é impossível desligar-me daquilo que são as minhas ideias, os meus critérios e a minha concepção –, e também o desejo do sacerdote. Claro que por vezes não é possível conseguir o que o padre pede, mas é muito engraçado este trabalho de partilha de ideias. Por outro lado, da parte do Patriarcado, a Dra. Teresa Novo nunca me colocou limites à minha criatividade. Hoje, passados quase dez anos desde que faço paramentos, ainda digo que estou num processo de aprendizagem. E muito no começo! Digo isto muito sinceramente, não é falsa humildade…

 

Qual o significado de ser a única artesã no país que faz paramentos à moda antiga ou seja num tear?

Sinto uma responsabilidade muito grande. Por vezes, assusta-me um pouco esta ideia, porque tenho medo que as pessoas criem expectativas demasiado altas. É precisamente o que eu dizia há pouco: eu estou ainda muito no começo de uma aprendizagem e o facto de ser a única pessoa em Portugal a fazer paramentos à mão dá-me uma responsabilidade muito grande. Por outro lado, dá-me uma vontade enorme de continuar, sempre a pesquisar e a estudar, sobretudo ao nível dos símbolos. Esta profissão assenta num trabalho de pesquisa muito grande. Ao nível de texturas, procuro conseguir sempre texturas menos pesadas, confortáveis, que não deformem.

 

Que paramento prefere confeccionar?

Os paramentos brancos [ndr – símbolo da pureza e da alegria, usados no Tempo Pascal e nas festas de Jesus Cristo, de Maria e dos Santos não mártires] são muito difíceis, porque o branco é branco. E nós temos de conseguir decorá-lo para que ele ganhe alguma vida. Portanto, o branco é o mais difícil, mas também o mais desafiante. Os que têm maior impacto, do meu ponto de vista, são os paramentos vermelhos [símbolo do amor e do martírio, usado nas festas da Paixão de Jesus Cristo, do Espírito Santo e dos mártires], porque o vermelho já é aquela cor tão forte, que é preciso muito pouco para lhe dar vida. Dependendo da cor, o desafio é diferente. Eu gosto de todos, mas talvez o verde [símbolo da esperança, usado nos domingos e férias do Tempo Comum] seja o paramento que me entusiasma menos. O roxo [símbolo da dor e da penitência, usado no Advento e Quaresma] é muito difícil, porque é aquela cor triste, apesar de todo o significado que tem para a Igreja pela importância dos tempos litúrgicos.

Com o tempo, e com a ajuda da Dra. Teresa Novo, fui percebendo que ao fazer um novo paramento tenho de pensar sempre que esse paramento vai ser visto a uma distância mínima muito grande. O pormenor é uma coisa que se perde completamente.

 

Qual a importância do fio para uma boa casula?

Eu prefiro sempre fibras naturais. Sempre gostei e acredito que faz muito mais sentido, até para vestir. A lã, por exemplo, não uso porque vai fazer com que a casula fique muito quente. Procuramos também usar linho, se bem que o linho por vezes levante um problema e por isso nunca usamos cem por cento linho porque é uma fibra que amachuca muito: usamos misturas de linho com algodão.

 

As suas vestes litúrgicas são (re)conhecidas pela qualidade. Qual é o ‘segredo’?

Em primeiro lugar, talvez seja porque eu gosto muito do que faço. Eu nunca imaginei que fosse trabalhar nesta área, mas fiquei fascinada com os fios e identifico-me muito com o meu trabalho. Costumo dizer que por vezes esqueço-me que estou a trabalhar! Trabalho com tanto gosto e identifico-me tanto com aquilo que faço que realmente me esqueço que é trabalho! Por outro lado, o facto de os paramentos serem feitos à mão também contribui para esse reconhecimento. Há muito tempo atrás, todos os paramentos eram feitos em tecelagem manual, mas isso acabou. Agora, havendo uma pessoa que volta a fazer paramentos dessa maneira, que procura fazer o seu melhor, trabalhando com qualidade, jogando com os padrões de uma forma harmoniosa, esforçando-se pela dignidade, ajuda também a esse reconhecimento. No fundo, recuperar uma coisa que já não existia dá um reconhecimento ao trabalho.

 

 

Informação complementar:


Perfil

Isabel Bordaleiro (www.isabelbordaleiro.com) completa no próximo ano duas décadas ligada à tecelagem manual. A paixão por esta técnica começou uns anos antes, nos finais dos anos 80, depois de Isabel não ter entrado na faculdade, para o curso de Antropologia. Fez diversos cursos de formação profissional, até que participou num curso de artesanato e teve o primeiro contacto com a tecelagem. “Foi um fascínio muito grande. Os fios, os teares, as texturas e as cores… foi um mundo que me fascinou!”, conta. Há cerca de dez anos, Isabel Bordaleiro participou com uma estola num concurso da Feira Internacional de Artesanato, em Lisboa. A estola é então admirada por Teresa Novo, da empresa Nova Terra, a Livraria e Paramentaria do Patriarcado de Lisboa, que procura sempre coisas novas para os padres da diocese. O objectivo de Teresa Novo era arranjar alguém que fizesse paramentos em tecelagem manual. “A Dra. Teresa Novo é a grande responsável, porque foi de facto a impulsionadora deste projecto. Tem-me dado um apoio enorme”, sublinha Isabel Bordaleiro. Estava iniciada uma relação que dura já quase há dez anos. “Não ganhei o concurso, mas ganhei muito mais com essa estola, que foi a oportunidade de colaborar com a diocese de Lisboa”, acrescenta esta artesã.

Hoje em dia, o trabalho de Isabel Bordaleiro é apreciado e procurado pelos sacerdotes do Patriarcado de Lisboa. Nestes quase dez anos, a artesã já fez mais de cem paramentos…

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