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Iraque: Campanha Regresso dos Cristãos à Planície de Nínive
Uma dor sem fim
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A vila de Batnaya esteve nas mãos dos jihadistas durante três anos. Uma ocupação que começou em 2014. Os terroristas destruíram quase tudo. Nem a igreja escapou. A população teve de fugir. O Padre Salar foi o primeiro a entrar nas ruínas da Igreja de São Qiryaqosh depois da libertação da vila, já este ano. Ao fim de 10 minutos teve de sair. Não aguentou ver tanta destruição…


Batnaya é uma vila pequena, pouco mais do que uma aldeia, situada relativamente perto de Mossul, no Iraque. Em Agosto de 2014, viviam por lá cerca de 800 famílias. Hoje é um povoado deserto. As ruas, as casas, os destroços e as ruínas são o testemunho silencioso do violento furacão que passou por ali. Um furacão chamado “Estado Islâmico”. O Padre Salar Kajo, de 35 anos, foi das primeiras pessoas a regressar a Batnaya desde que os jihadistas foram expulsos da região, já este ano. A sua preocupação principal era saber como estaria a Igreja de São Qirqyaqosh, a igreja paroquial Caldeia de Batnaya. No caminho, começou a preparar-se para o pior. E quando entrou no templo, ficou chocado.

 

Tiro ao alvo

“Quando cheguei, fui o primeiro a entrar, não havia cruz.” Por todo o lado havia, sim, sinais da presença dos terroristas, sinais da profanação da igreja. “A bandeira do Daesh (o auto-proclamado Estado Islâmico) ainda estava hasteada – recordou, numa entrevista, à Fundação AIS. Retirei a bandeira e levantei a cruz.” O Padre Salar Kajo ficou estupefacto com a dimensão da destruição, com a falta de respeito dos terroristas por aquele lugar sagrado. “Escreveram frases do Corão nas paredes e praticaram tiro ao alvo no Santuário.” Nada escapou à fúria da maldade, ao ódio sem limites. “É muito doloroso. Fiquei na igreja 10 minutos, não mais. Depois saí, porque não reconhecia a minha igreja…”

 

Realidade complexa

O regresso a casa para as populações de Batnaya é ainda uma incógnita. Todos querem voltar, mas todos têm medo do que vão enfrentar. O Padre Salar tem consciência de que os próximos tempos vão ser duros, muito duros, e só com a ajuda constante da comunidade internacional, só com a ajuda concreta de instituições como a Fundação AIS será possível a estas pessoas reconstruírem as suas casas, refazerem as suas vidas. Ainda há muito a fazer. Até ao nível da segurança, que é uma questão imediata. “Ainda há bombas nas ruas e nas casas”, assegura o padre Salar. No entanto, por muito dolorosa que seja a realidade, é preciso enfrentá-la como um desafio que tem de ser vencido, que tem de ser ultrapassado. “Temos de usar esta realidade como ponto de partida para recomeçar”, diz o sacerdote, sabendo que se os Cristãos não regressarem a suas casas, será o fim do Cristianismo na região.

 

Sem escolha

O Padre Salar Kajo guarda na sua memória tudo o que tem vivido desde esse fatídico mês de Agosto de 2014 quando a fúria jihadista atravessou a região como se fosse um ‘tsunami’ gigantesco. Tal como todos os habitantes de Batnaya, também ele teve de partir apressadamente, levando consigo apenas a roupa que trazia vestida. “Fugimos a poucas horas da chegada do Daesh”, recorda, acrescentando que os tempos seguintes iriam revelar-se, apesar de tudo, animadores. Exilado como todos os outros no norte do país, no chamado Curdistão Iraquiano, o Padre Salar passou a ser muito solicitado. E não apenas por cristãos. “Há muitos muçulmanos que me seguem e eu ensino-lhes o catecismo e a Bíblia. Rezamos juntos. E muitos destes muçulmanos acabam por pedir o Baptismo. Já baptizei muitos.”

 

Luz e sal

O Padre Salar conhece como poucos a realidade iraquiana. Sabe que os tempos são delicados e que o futuro é uma incógnita. “Os Cristãos não têm escolha”, diz. “Se quisermos libertar o Iraque, o Ocidente e o Oriente do Daesh, dos terroristas, temos de trabalhar as mentalidades. Os verdadeiros Cristãos têm de acreditar em si próprios para se tornarem luz e sal. Agora – acrescenta – a nossa missão é mais clara. Temos de ser luz e sal.” Os 10 minutos em que esteve na Igreja de São Qiryaqosh foram suficientes para o Padre Salar compreender bem a dimensão da destruição do templo, a dimensão da violência que se precipitou sobre aquela região aprisionada durante três anos pelos jihadistas. Agora, é tempo de refazer, de reconstruir casas e vidas. Para isto, o Padre Salar pede, encarecidamente a ajuda da Fundação AIS. Os Cristãos iraquianos não podem ser abandonados outra vez.

 

Rezar cada vez mais

O regresso a casa é uma prioridade para as famílias cristãs. É preciso dar-lhes a mão. O Padre Salar Kajo reconhece que os próximos tempos, os próximos anos, vão ser muito exigentes. “Há muito a fazer, como, por exemplo, dar assistência às famílias destruídas psicológica e espiritualmente.” Um trabalho que exige o melhor de todos. O Padre Salar mostra-se optimista, apesar de tudo. “Esta situação faz-nos rezar mais, aproxima-nos de Deus, para Lhe pedirmos a força e a graça de ficar com as pessoas.” Os próximos tempos, os próximos anos vão ser duros, vão colocar a comunidade cristã iraquiana à prova. Mas vão colocar também à prova a solidariedade dos cristãos em todo o mundo. Incluindo os portugueses. Incluindo cada um de nós.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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