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Iraque: Campanha Regresso dos Cristãos à Planície de Nínive
Uma prenda de Natal
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Foi com lágrimas, mas também com alegria, que a Irmã Ilham regressou ao convento de Teleskuf. Não é possível esquecer o passado, os dias de fuga, o medo. Mas, para a irmã, o importante, agora, é o futuro. Como ela, muitos começam a regressar a casa. É por isso que as obras no convento são tão importantes. O convento é o coração da aldeia. É o porto de abrigo dos Cristãos.

 

Quando partiu, quando foi obrigada a fugir de Teleskuf, a irmã Ilham não ousou sequer olhar para trás. De qualquer forma, se o tentasse fazer, muito provavelmente as lágrimas toldar-lhe-iam o olhar. Foi em Agosto de 2014 que a irmã dominicana teve de partir, deixando o convento, largando tudo, como quem é obrigado a partir num alvoroço, perante uma tempestade que se anuncia. Ali, naquela aldeia e em todas as aldeias em redor de Mossul, na Planície de Nínive, a tempestade veio sob a forma de colunas de homens vestidos de negro, com bandeiras ondulantes e ódio na ponta das metralhadoras. A irmã não teve alternativa. Ninguém teve alternativa. “Tivemos de salvar as nossas vidas e fugir.” Tinha 57 anos.

 

Sorriso gratuito

Durante este tempo, durante estes três anos, a tempestade passou. Os jihadistas foram derrotados, foram obrigados a abandonar as aldeias e vilas e cidades conquistadas nesse ano de 2014. Eles partiram, mas a memória desses meses de desassossego ficou bem presente nas ruínas das casas, nas igrejas profanadas, nos escombros de um tempo que nunca mais voltará a ser o mesmo. Quando regressou, esta irmã dominicana trazia já os olhos enevoados de lágrimas. O convento lá estava, mas era impossível não reparar na destruição, não escutar ainda os ruídos das botas dos jihadistas, as gargalhadas de desprezo, a violência com que as imagens foram destruídas, o escárnio das ofensas escritas nas paredes. Era impossível não reparar nas portas arrombadas e em tudo o que fora roubado. Era preciso limpar a casa. Era preciso, mais do que tudo, voltar a abrir as portas do convento para que a comunidade sentisse o abraço fraterno, o sorriso gratuito das irmãs. O aconchego do amor. Principalmente isso: o aconchego do amor.

 

Salvar as crianças

Por ali, em Teleskuf, as pessoas começam já a regressar, aos poucos, e todos trazem o rosto carregado de medo e de incerteza. Ninguém sabe como vai ser o dia de amanhã. Todos têm receio que a tempestade regresse ainda mais violenta, ainda mais impiedosa. Por isso, o sorriso e a ternura das irmãs são um conforto único que não se traduz sequer por palavras. Que não tem preço. As crianças são uma das principais preocupações das freiras dominicanas. É preciso preservar esta geração do vírus do mal, do vírus da vingança. É preciso preservar esta geração para que o país inteiro não sucumba na lógica da retaliação, da guerra que nunca termina nos corações. Quem visse a Irmã Ilham a trabalhar não lhe daria os 60 anos bem medidos que o seu Bilhete de Identidade assinala já. “Eu trabalhei das sete da manhã às sete da noite para deixar o convento pronto para receber as crianças.”

 

Cicatrizes que perduram

Receber, para as dominicanas de Teleskuf, é acolher, é lidar com emoções. “Nós temos uma creche para crianças de 3 a 5 anos”, explica a irmã. “As crianças são a  nossa prioridade.” É impossível saber que cicatrizes ficarão nestes meninos e meninas até ao resto dos seus dias. É impossível saber. Muitas destas crianças, que foram obrigadas também a fugir no turbilhão desses dias terríveis no Verão de 2014, assistiram a lutas, a bombardeamentos, a assassinatos. Tudo isso ficou gravado nas suas memórias. Muitas destas crianças “ficaram mais nervosas e agressivas”. E os pais também. Não há ninguém, por ali, que não esteja diferente, que não tenha mudado, tal como não há uma casa sequer, uma igreja ou convento que não tenha marcas da passagem dos jihadistas por Teleskuf.

 

Um lugar seguro

Por isso, o trabalho destas irmãs não se esgota nas crianças. É preciso dar atenção a todos. A todos os que vão regressando. “Nós também visitamos as pessoas em suas casas e damos catequese.” Parece estranho falar em catequese quando a maior parte das pessoas está mais preocupada em arranjar telhados, reerguer paredes, consertar portas e janelas. Mas se apenas houver a preocupação com os edifícios, se ninguém se inquietar com as pessoas, que vai ser da comunidade cristã? Antes da tempestade jihadista, o convento de Teleskuf tinha cinco irmãs. Agora, por agora, pelo menos, são apenas duas. Mas isso não preocupa a Irmã Ilham. Ela sabe que o futuro será sempre menos sombrio. Ela sabe, e sorri quando o diz, que “no convento, que estamos a recuperar, vamos dar a estas crianças um lugar seguro”.

 

Recuperar o convento

Para que este convento, em Teleskuf, possa voltar a ser um lugar seguro, ainda falta muito. A começar pelas obras de recuperação do edifício. A Fundação AIS está empenhada nesta missão. A restauração do convento de Nossa Senhora do Rosário, das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Siena, em Teleskuf, é uma prioridade. A Irmã Ilham não tem medo do futuro. Tem apenas receio de não conseguir acolher todas as crianças, de não conseguir apagar das suas memórias os dias, os meses, em que viveram tolhidas de medo, sem compreenderem como poderia haver tanto ódio, tanta maldade nos homens. Agora, elas precisam de voltar a ser crianças outra vez. Apenas isso. A Irmã Ilham só pede a nossa ajuda para que o convento seja reparado. Não é por ela. É pelas suas crianças. Vamos dar-lhe esta prenda de Natal?

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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