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Guilherme d'Oliveira Martins
Padre Henrique Noronha Galvão

“Quando fui autorizado a continuar os meus estudos na Alemanha, encontrei em Joseph Ratzinger, que então ensinava na Universidade de Regensburg, o orientador que desejava para a minha dissertação de doutoramento. Na Última Lição que pronunciei na Universidade Católica por ocasião da minha jubilação, pude recordar todo o itinerário que conduziu da minha experiência sobretudo nos anos 60, em Lisboa, quando se anunciava já a crise pós-conciliar no que respeitava à fé, até à investigação do conhecimento existencial de Deus nas Confissões de St. Agostinho, tema da minha dissertação. O que o Bispo de Hipona realizara no declínio da Idade antiga, lançando as bases da Europa cristã que surgia, revelou-se como esclarecedor para entender qual a resposta a dar na situação vivida atualmente e que se apresenta similar à sua em muitos aspetos” («Bento XVI – Um Pensamento para o nosso tempo», Pedra Angular, 2009). Esta citação é da autoria do Padre Henrique Noronha Galvão (1937-2017), que há pouco nos deixou e cujo exemplo e preciosas lições exigem que não as esqueçamos. Conheci-o quando regressava da sua formação alemã e fui colhendo na sua reflexão pistas extraordinárias de pensamento e de fé. Lembro-me bem, do dia em que o Cardeal Joseph Ratzinger foi eleito Papa, de ter dito na Rádio Renascença que poderia surpreender-nos (como surpreendeu) pelo seu rico percurso de vida, pelo pensamento e pelo magistério pedagógico – que vinham da sua ativa participação, desde cedo, no Concílio Vaticano II do lado do “aggiornamento” proposto por João XXIII. De facto, o tempo veio a confirmar a boa expectativa. E com que saudade recordo o entusiasmo de João Bénard da Costa perante as encíclicas de Bento XVI – pela frescura e abertura ao mundo no tratamento dos temas do Amor e da Esperança, lembrando a melhor poesia de Charles Péguy. Do mesmo modo, não esqueço a profunda concordância e a intensa partilha com Maria José Nogueira Pinto relativamente às lições necessárias da encíclica “Caritas in Veritate” – verdadeira chave para compreender a maneira de procurar sair da terrível crise financeira e da idolatria do dinheiro… E o testemunho vivo do Papa Francisco tem vindo a aprofundar e a confirmar o que foi dito nesse documento fundamental sobre a economia que mata.

O certo é que todas estas lembranças saudosas levam-me à memória próxima do Padre Henrique Noronha Galvão e a tudo o que com ele fui aprendendo. No magistério académico e na direção da Communio – Revista Internacional Católica encontramos, de facto, ao longo da vida um percurso que podemos definir pela profundidade e clareza e pela capacidade de abertura de espírito em relação à cultura contemporânea e às humanidades. Em contacto com António Alçada Baptista, com João Bénard da Costa e com a aventura da Moraes e “O Tempo e o Modo” tomou consciência direta da importância dos sinais dos tempos – e quando “na década de 60, o Papa João XXIII anunciou a convocação de um concílio ecuménico para fazer o aggiornamento, “como uma flor espontânea de uma primavera inesperada” – foi a sua expressão – parecia evidente que tinha chegado o tempo de colher os frutos de todo esse esforço para abrir a igreja à modernidade. Mas, juntamente com a profunda renovação que de facto se deu, assistiu-se igualmente à crise que acompanhou a mudança”. E como a crise atingiu a própria fé em Deus, o Padre Noronha Galvão avançou para a investigação no coração desse tema moderno – escrevendo sobre “O conhecimento existencial de Deus em Santo Agostinho”. Afinal, lembrava o que António Alçada dissera no emblemático número sobre Deus de “O Tempo e o Modo”: “o conhecimento de Deus é um conhecimento vivido como é todo o conhecimento de amor e de sofrimento”. E foi a revisitação e o aprofundamento das ideias de Santo Agostinho que puderam encontrar caminhos de resposta para a situação contemporânea. «Como viveu então Agostinho essa “aventura da razão e da graça, como já foi chamada a sua vida, e de que maneira podia ser ela iluminadora dos nossos tempos, tão semelhantes aos dele?». No fundo, “para Agostinho o conhecimento de Deus não pode permanecer apenas no plano intelectual. Para se tornar existencialmente autêntico, é preciso ser assumido na vida humana concreta num projeto para o presente e para o futuro. (…) Com efeito, só aquele que se decide por Deus ficará livre para dar as autênticas valorações às realidades da vida, fazendo através da verdade reencontrada da vida a experiência da verdadeira liberdade”. E, neste ponto, relembra João Bénard da Costa, por este mostrar “recetividade à palavra do Papa”, que pode significar um sinal de esperança e indício de como “vem ao encontro das perplexidades culturais e espirituais do nosso tempo, que a sua geração tão agudamente sentiu”. Como recordou o Padre José Tolentino Mendonça a grande lição do Professor Henrique Noronha Galvão foi a de partir da crise contemporânea para a busca de caminhos novos de uma rica e fecunda espiritualidade. E que melhor via senão a de regressar à “conversão à sabedoria” ou à poderosa força renovadora de Agostinho de Hipona?