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Pe. Alexandre Palma
A odisseia do Natal

Começou a odisseia do Natal. Não a sua celebração, pois por essa teremos de esperar ainda algumas semanas. Começou sim a odisseia de tudo quanto antecede o Natal. E este tudo é hoje muito. Como o velho Ulisses nesse seu regresso a Ítaca, também nós mostramos muito do que somos na forma como atravessamos este tempo e executamos as tantas tarefas que agora nos impomos. Diria que as lojas tornam-se, por esta época do ano, cenários dignos de um documentário da BBC ou da National Geographic. Não porque elas se tornem palco de «vida selvagem» – muito embora tal possibilidade não seja absolutamente de excluir! Mas porque a forma como indivíduos e massas se comportam nestes meios merecem atenta observação.

Multidões convergem, então, para pequenos e grandes espaços de consumo. Há, desde logo, dois grandes tipos de consumidores: os objectivos e os pesquisadores. Os primeiros sabem de antemão o que pretendem adquirir e a quem destinar tal oferta. Dirigem-se assim directamente para a loja ou produto que procuram, sem se deixarem desviar no seu percurso ou distrair no seu intento. Com frequência, são estrategas competentes na arte de perseguir a melhor promoção da quadra, para assim poderem poupar enquanto gastam (talvez o paradoxo mais emblemático das modernas sociedades de consumo). Mas esta concentração esconde também uma distracção. É que se lhes perguntássemos que outros tesouros encerrava tal loja, provavelmente não saberiam o que responder. Diferentes e bem mais angustiados são esses outros, que deambulam por entre lojas, estantes e prateleiras à procura de algo para oferecer, mas antes disso à procura de ideias e inspiração. A forma caótica como se movem (exasperante para os mais objectivos), com que pegam e largam em tantos e tão diferentes objectos denuncia uma curiosidade táctil e uma disponibilidade para a surpresa, mas também vulnerabilidade perante as estratégias de sedução do marketing. Este binómio pode ainda conhecer múltiplas derivações, como a que distingue estes consumidores natalícios entre stressados e descontraídos, entre despachados e indecisos, entre previdentes e de última hora.

Não registo aqui estas sumárias observações para agora moralizar o discurso e zurzir na mercantilização do Natal que o afasta da sua simplicidade e sentido originais. Faço-o porque, de facto, me dá genuíno gozo observar o comportamento humano, procurando captar aquelas coisas da vida que de tão correntes e evidentes nem sempre merecem da nossa parte a devida reflexão. Encanta-me captar o humano que, nas suas grandezas e misérias, nas suas virtudes e vícios, assim se mostra. No Natal e na odisseia que o prepara, como em qualquer outro tempo ou ocasião. Mas talvez este encanto pelo humano não esteja, enfim, tão longe desse Natal simples e original. Bem pelo contrário, é de encanto de Deus pelo humano e pela humanidade que nos fala o Natal. É do valor infinito das pequenas coisas que nos fala o Evangelho da encarnação. E isso está aí para que se possa observar e encontrar. Porque hoje como há dois mil anos, é no humano que Deus faz acontecer Natal.