Missão |
Rui Miguel Fernandes, da Companhia de Jesus
“Percebi que a fé estava intimamente ligada à vida”
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Rui Miguel Fernandes nasceu em Santarém, a 10 de janeiro de 1983, sendo o terceiro de quatro filhos. Faz parte da Companhia de Jesus e, entre 2012 e 2015, durante o tempo de estágio que fez na sua formação, esteve em Timor Leste.


Dos seus pais e irmãos, diz-nos que ganhou “o gosto pelos escuteiros”. “Os acampamentos, os teatros e cantigas à volta da fogueira; ouvia-lhes as histórias de aventuras de subir montes e, sobretudo, de fazer muito com pouco, e isso fazia-me querer agarrar numa mochila e explorar sítios. Mas, se gostava de campo, de sujar as mãos a construir coisas e assar chouriços sobre as brasas, também sempre gostei de ler e ouvir música. Casa e escuteiros; livros e sons: foi com essas coisas que nasci e cresci”, conta. Até ao final do ensino secundário, estudou em Santarém, “dividido entre ciências e música (piano)”. Ao terminar essa etapa, “acabei por ir parar ao curso de engenharia mecânica, no IST de Lisboa (2001). Rapidamente percebi que estava no sítio errado. A matemática e a física pareciam não chegar. Entrei no seminário diocesano, onde fiz o mestrado integrado em teologia (2002-2008). Já na Companhia de Jesus, licenciei-me em filosofia (2010-2012) e, mais tarde, completei um 2º ciclo em teologia e uma pós-graduação sobre o diálogo entre os três monoteísmos (2015-2017), particularmente com o islão. De momento, sou doutorando nessa mesma área (na UCP de Lisboa)”, partilha.

 

“O esqueleto do Evangelho estava ali”

Considera que o encontro com um missionário Comboniano (Pe. Alfredo Neres), amigo dos seus pais, foi um marco importante na sua vida. “Lembro-me pouco de ‘momentos’ (palavras, histórias: tudo isso passou, porque era pequeno demais), mas tenho bem presente o sentimento de paz que tinha quando ele estava por perto. Lembro-me de ler as cartas que ele nos escrevia, do Congo, contando aventuras e, sobretudo, partilhando as suas preocupações de missionário diante de um povo em conflito”, partilha. Um outro encontro que o marcou teve lugar em Taizé, com o irmão Roger, como nos conta: “Vê-lo assim, frágil mas sorridente; ouvi-lo no seu francês murmurado; pressentir um coração bom, sábio e disponível; ter a experiência de estar perto de um homem simples: esse convívio repetido, das muitas vezes que lá esteve, marcou-me profundamente. A bondade de coração, ou a santidade, são coisas impressionantes…” Os anos como escuteiro deixaram marcas na sua vida e diz-nos que “as horas de caminhada com amigos, onde conhecemos paisagens, onde nos conhecemos a nós próprios, onde construímos amizades que durarão uma vida inteira; os momentos de serviço, simples, em que visitávamos lares, em que recolhíamos alimentos para distribuir; as conversas sobre os evangelhos e sobre a fé feitas entre amigos com espírito crítico; os primeiros passos nos namoros, com a sorte de ter pessoas mais velhas com quem falar e crescer. O escutismo foi, para mim, esta constelação de experiências que me ajudaram a tentar descobrir quem sou e o que posso fazer no mundo.” Refere ainda como “fundante” o tempo no seminário, entre 2002 e 2008, “sobretudo pelo aspeto comunitário”. “Para mim, o seminário foi uma escola de relações humanas – e essa foi, talvez, a coisa mais espiritual que me poderia ter sido oferecida! Viver com pessoas que não conhecia fez-me perceber muitas coisas sobre o meu carácter. O «amai a Deus e ao próximo como a vós mesmos» torna-se uma bênção mas também uma tarefa concreta. O esqueleto do Evangelho estava ali”, garante.

 

“Percebi que queria Viver e Servir”

“Os meus primeiros heróis usavam jarreteiras e lenço; contavam histórias e discutiam política e religião até altas horas. Os meus primeiros heróis andavam de autocarro e cumprimentavam as pessoas com quem se cruzavam. Os meus primeiros heróis davam aulas, eram pais de família, eram catequistas, e trabalhavam com pessoas sem-abrigo. Os meus primeiros heróis eram missionários, rezavam e estavam em situações de guerra com quem precisava. Os meus primeiros heróis eram compositores e atores: e eu vestia gravatas verdes para os ver e ouvir, sentado no pequeno teatro da cidade, aos domingos. Os meus primeiros heróis falavam de justiça e de paz. Os meus primeiros heróis eram sábios e astrónomos, escritores e poetas. Talvez esta lista pareça estranha – mesmo sem ser exaustiva –, mas sem ela não saberia dizer por que motivo cheguei a pensar ser padre. Adolescente, percebi que a fé estava intimamente ligada à vida e que, por isso, o futuro da minha vida era, também uma questão de fé. Foi no seminário que conheci os jesuítas, primeiro com colegas seminaristas, depois através dos Exercícios Espirituais - uma forma de retiro, em silêncio, que segue um programa e um método criados por santo Inácio de Loyola, um dos fundadores da Companhia de Jesus. Muito simplesmente, acho que percebi que queria «viver e servir» desta maneira: em comunidade; com formação teológica para poder ajudar outros a formar-se; disponível para ir para onde fosse preciso; ter tempo para rezar e para saborear as coisas simples da vida, com outros, na Igreja. Entrei no noviciado, em 2008 em Cernache - Coimbra. Foram 2 anos ótimos: alegres e muito exigentes interiormente. No entanto, o tempo mais rico que tive como jesuíta foi passado em Timor-Leste de 2012 a 2015, durante o tempo de estágio que fazemos na formação, entre os estudos de filosofia e teologia: o tempo do magistério. A missão principal que recebi, durante esses 3 anos, foi a de colaborar na fundação de um colégio jesuíta naquele país. Mas, claro está, passam-se tantas coisas, em 3 anos. A experiência de chegar a um país com uma cultura e tradições realmente diferentes das portuguesas; um país marcado pelas dores de colonizações e invasões sucessivas (pelos portugueses, japoneses e indonésios) e ainda a fazer os seus lutos; um país com uma população muito jovem e, por isso, cheio de vitalidade, energia e vontade de crescer e singrar, com as inseguranças e incertezas próprias desses períodos; um país de sábios e contadores de histórias, de cantores e domadores de crocodilos; um país de montanhas forradas a verde; um país em que se esculpe com tecidos e plantas. 3 anos de surpresas, gratidão e aprendizagem. Como (aprendiz de) professor de português e música, descobri como a arte de ‘ensinar’ é, fundamentalmente, uma arte de «acompanhar», «encorajar» e «discernir». Depois de Timor, Paris de 2015 a 2017. Outras paisagens, outras árvores; outras belezas. Regressar à Europa depois de Timor não me foi fácil. Não que faltassem encantos, nas ruas de Paris. Não que faltasse profundidade, nos livros franceses. Mas foi necessário fazer o luto, sem dúvida. Para isso, muito ajudou a preparação para ordenação diaconal, em Abril de 2017, em Paris”.

Atualmente, para além dos estudos, integra uma equipa de jesuítas que “prepara uma nova missão dos Jesuítas em Portugal, no campo da cultura.” Termina, dizendo que “numa época em que as «fábricas de cultura» passaram das escolas e da academia para as ruas e para os ecrãs, precisamos de repensar as linguagens e os meios não apenas para «comentar» o que se passa, mas também para «fazer cultura». Certamente, não poderemos fazer este trabalho sozinhos. Um «espaço de cultura» feito só «de padres» não vai longe. Precisaremos de colaborar com leigos de várias áreas para pensar e agir com criatividade, qualidade e abertura, partindo do evangelho e do património da Igreja, com os olhos e o «verbo» de cristãos que vivem em Portugal, no século XXI”.

texto por Catarina António, FEC | Fundação Fé e Cooperação
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