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O drama esquecido de milhões de refugiados na RD Congo
A conspiração do silêncio
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Crise política prolongada, conflitos étnicos, milícias armadas que semeiam o terror… A República Democrática do Congo vive uma crise humanitária de proporções gigantescas e o mundo parece ignorar o que se passa por lá. Ninguém está a salvo. Nem a Igreja escapa à onda de violência…


Ataques a seminários e paróquias, conventos e congregações. Nem a Igreja escapa à onda de violência que tem assolado a República Democrática do Congo. De dia para dia, de semana para semana, a situação parece agravar-se cada vez mais, como se fosse possível ficar ainda pior do que já está. Quando se fala em populações em debandada, em refugiados e deslocados, pensamos logo na Síria ou Iraque. No entanto, é na região da República Democrática do Congo que se regista, actualmente, a maior crise humanitária à escala global. Os números são trágicos e falam por si. Segundo dados da ONU, desde Agosto de 2016, o número de deslocados no Congo mais do que triplicou. Estima-se que quase 4 milhões de pessoas terão fugido de suas casas para conseguirem escapar a uma onda de violência aterradora. Na origem desta situação está a crise política causada pela recusa de Joseph Kabila em abandonar a presidência, após 17 anos de exercício do poder e depois de ter terminado o seu mandato. No entanto, é necessário encontrar outras razões para explicar a demência sem nome que afecta o país. A corrupção que tem minado as estruturas do Estado ajuda também a compreender esta situação, esta crise, assim como a violência étnica ampliada pela proliferação de milícias armadas que semeiam o terror entre as populações.

 

Denunciar as injustiças

Nem a Igreja tem escapado a este horror. Nos últimos tempos, dezenas de paróquias foram atacadas. Muitas delas acabaram mesmo de portas fechadas. Mais de 30 centros de saúde geridos pela Igreja foram saqueados. Cerca de centena e meia de escolas vandalizadas e mais de três mil e quinhentas casas arruinadas. Calcula-se que 20 aldeias foram praticamente destruídas. A Conferência Episcopal da República Democrática do Congo tem denunciado este verdadeiro inferno, lembrando à comunidade internacional que é raro o dia em que não ocorre o “rapto e assassinato de crianças e adultos, roubos recorrentes à mão armada, e ataques a paróquias e outras estruturas da Igreja Católica”. Ainda recentemente, a Irmã Vedruna Maria-Núria Solà, que se encontra actualmente na capital, Kinshasa, partilhava a sua perplexidade perante o desmoronar da paz neste país africano. Para ela, os ataques contra a Igreja só se explicam como tentativa de silenciamento da única voz que se tem erguido em favor das populações completamente desprotegidas e contra todos os autores dos abusos. “A Igreja fala, escreve e age contra as injustiças, a violência e a ditadura camuflada de democracia”, afirma esta freira carmelita. “A Igreja Católica actua com valentia, continua a denunciar as injustiças e, para ser fiel ao Evangelho, não pode deixar de fazê-lo. O único objectivo é o bem comum da população – acrescenta a Irmã Maria-Núria Solà. “As comunidades religiosas vivem a insegurança, como qualquer outro cidadão que se oponha e lute pela liberdade e justiça.”

 

Desejo de paz

Também o Padre Apollinaire Cibaka, professor do Seminário Maior de Malole – que foi atacado por milícias rebeldes em Fevereiro – vive a perplexidade de estar num país em profunda crise humanitária e de perceber que o mundo parece não querer escutar os gritos das pessoas em sofrimento, os pedidos de ajuda. Como se houvesse uma conspiração de silêncio. “O mundo parece ter-se esquecido do Congo.” No meio do caos, a presença da Igreja Católica neste país é um oásis de esperança. Cada sacerdote, cada irmã é mais do que um simples homem ou uma mulher. Os seus sorrisos são a certeza do sorriso de Deus, são a garantia da ternura de Deus. Com milhões de deslocados, milhares de pessoas em fuga, procurando salvar as próprias vidas, com campos de refugiados atolados de homens, mulheres e crianças em lágrimas, a presença destes sacerdotes e destas irmãs é a garantia de que não está tudo perdido. Há dias, o mundo assinalou o nascimento do Menino Jesus. Na República Democrática do Congo, os desejos de paz, saúde e prosperidade são, infelizmente, apenas palavras. Dias antes do Natal, o Padre Apollinaire confessava à Fundação AIS que, apesar de tudo, é sempre possível descortinar uma semente de esperança no meio do caos. “O Congo é um país empobrecido, sem meios para celebrar o Natal como nos outros lugares. Mais a mais, vivemos uma guerra silenciosa. Em vez de presentes e do encontro das famílias, muitos de nós estarão a fugir para sobreviver. Mas vamos rezar, pedindo ao Menino Jesus a conversão dos responsáveis pelo nosso infortúnio. É o único presente que pedimos a Deus.” Já estamos em Janeiro, já estamos em 2018. Na República Democrática do Congo continua tudo na mesma, com grupos armados à solta e populações em fuga. O Padre Apollinaire e a Irmã Maria-Núria Solà precisam muito das nossas orações. Vamos ajudá-los?

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