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P. Duarte da Cunha
As Raízes cristãs da Europa 2

O conjunto de países que constituí o Continente europeu tem a uni-los mais do que a geografia. Esta é importante, mas a história que aqui se passou é ainda mais relevante.  Num passado mais ou menos longínquo, chegaram a estas terras diversos povos. No início não havia nada que pudesse ligar as diversas culturas que cada um trouxe consigo. Acontece que, aos poucos, alguns princípios de coexistência foram sendo absorvidos por todos e tornaram-se o rosto daquilo a que podemos chamar a cultura europeia. Apesar das muitas diferenças de língua e até de tradições culturais algo de muito profundo a que todos aderiram começou a unir estes povos.

O primeiro desses princípios, que com o tempo se foi tornando evidente a todos, é a certeza de que há um só Deus. Os povos europeus, na sua origem, não eram monoteístas! Não reconheciam a transcendência da divindade e não percebiam que entre Deus e os homens pode haver uma relação de amor. Na Europa, esta descoberta aconteceu com a evangelização. Foi o conhecimento de Jesus Cristo que trouxe a descoberta de que Deus é único. Como consequência, a descoberta da existência de um único Deus veio a par com a descoberta da Sua presença, do seu amor e da Sua paternidade.

Saber que existe um Deus Criador que é Pai providente faz parte da identidade europeia. Aliás, este é um dado decisivo, que levou a perceber que o objectivo da vida social é a paz com Deus e, consequentemente, com todos os filhos de Deus. Há uma relação estreita entre o desejo de paz e a certeza de que Deus, que é o Senhor, é Pai. Mesmo as guerras, que as houve e, infelizmente, muitas, deixaram de ser feitas por amor à violência ou por obediência a um deus da guerra. Entre cristãos elas aconteceram – e acontecem – por causa do pecado de homens concretos, ávidos de poder ou riquezas. Todos os cristãos, porém, mesmo sendo pecadores, sabem que acima deles está Deus e que o objetivo final é a paz. Com o cristianismo não desapareceu o pecado, mas tornou-se claro que os que fazem mal serão julgados e que Deus quer a justiça e a paz. Onde há pecado contra Deus há desunião! Onde chega a fé cristã descobre-se a misericórdia de Deus!

O cristianismo trouxe consigo não só o conhecimento de Deus, mas também a percepção da dignidade humana e do valor quer da pessoa individual quer da sociedade. Somos filhos de Deus, criados à sua imagem e semelhança, somos seres livres, capazes de conhecer a verdade e de amar. É a descoberta desta dignidade que, depois, explica como se deve viver. Não com indiferença, mas amando e cuidando do outro. Que este amor seja a lei da vida só se tornou evidente porque Jesus Cristo, que é o próprio Deus feito homem, quando deu a Sua vida por nós, ensinou-nos a viver e tornou possível realizar a verdade da imagem de Deus. Quem vive este amor quer que o outro exista e defende a vida dos inocentes como se fosse a própria vida; torna-se ajuda aos mais pobres e gera obras de caridade; inventa hospitais e promove a solidariedade. É este amor que procura a verdade, desenvolve leis justas, promove a liberdade e procura novas tecnologias para que a vida seja mais serena.

Segundo um plano inscrito na natureza pelo Criador, e que aos poucos os cristãos conseguiram tornar evidente a todos, este modo de viver chega a cada pessoa através da família. Que seja o amor a unir um casal e a gerar filhos não era uma coisa evidente. Para alguns, antes do encontro com Jesus Cristo, a família e o clã eram só um modo de sobrevivência. Afirmar que a família seja a célula da sociedade tem a ver com a descoberta do amor cristão. Assim se compreende que a sociedade está viva se a constituí-la estão pessoas unidas por laços de amor e não indivíduos isolados.

A Europa, na sua diversidade cultural, desde que se tornou cristã, passou a ter estas raízes que geram um tipo de frutos muito especiais. Nem sempre os europeus foram coerentes, mas os seus valores são claros: adorar Deus, cuidar da paz, promover e defender a vida humana, cuidar das famílias, amar a verdade e a liberdade. É um modo de viver que corresponde aos anseios da natureza humana, mas é a fé que os torna claro e dá força para se concretizarem na vida concreta. Este é o grande tesouro que deu consistência à Europa e a projetou para a frente. Ter presente a profundidade a que as raízes cristãs europeias nos levam faz-nos ver a necessidade de recuperar a relação com elas para construir o futuro.