Lisboa |
Padre Dâmaso Lambers (1930-2018)
“Que grande graça que recebi de Jesus!”
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“Meteu-se” com a vida no “mundo dos presos” e foi o primeiro diretor nacional dos Cursilhos de Cristandade. Mas foi aos microfones da Rádio Renascença, durante quase 40 anos, que o padre Dâmaso Lambers deu a conhecer “Jesus fantástico”. A sua “alvorada evangélica” foi recordada na Missa de exéquias pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa.


Não apresentava programas musicais, não lia noticiários nem fazia relatos desportivos, mas a sua voz tornou-se uma das mais inconfundíveis da rádio portuguesa. O seu forte sotaque holandês e o timbre particular da sua voz foram características essenciais de um sacerdote nascido a 9 de junho de 1930 na Holanda, naturalizado português, batizado como Hermano Nicolau Maria Lambers, mas que viria ser conhecido (e reconhecido) em todo o Portugal apenas por duas palavras: Padre Dâmaso. Ou, quando muito, o Padre Dâmaso da Renascença. Ou, ainda, o “padre das prisões”.

Faleceu na quinta-feira, 22 de fevereiro, terminando uma ligação de mais de 60 anos com Portugal, país para onde veio, contrariado, mas obedecendo, em 1957, para colaborar com o então Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Cerejeira, nas missões populares.

Uma vida cheia que o atual Cardeal-Patriarca, D. Manuel Clemente, definiu, na Missa Exequial do passado sábado, como uma vida “verdadeiramente apanhada por Jesus Cristo” (ver caixa).

Ordenado sacerdote em 1955, com 25 anos, na Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, adotando o nome de Dâmaso, o jovem Lambers desenvolveria em Portugal uma extensa atividade pastoral junto dos pobres, dos doentes, dos presos e implantando no país os Cursilhos de Cristandade, sempre com um único propósito: levar aos outros o “Jesus fantástico” que preenchia a sua vida.

Mas foi aos microfones da Rádio Renascença que se tornou conhecido do país inteiro, numa colaboração de quase 40 anos, com apontamentos diários destinados aos doentes e aos presos, bem como meditações, tanto na Renascença como na Rádio Sim.

“Agradeço a Jesus porque não há nenhum padre – ou talvez muito poucos no mundo – que já tenha, há 33 anos, uma rádio como púlpito. Que grande graça que recebi de Jesus! Eu fico calado quando penso nisto…”, dizia, numa entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, em julho de 2009.

Em 2015 publicou, em colaboração com Isabel Figueiredo, da Renascença, o livro “Uma vida de doação”, sobre a experiência de 60 anos de sacerdócio em Portugal, que resumiu numa frase simples: “Sou um felizardo”. Tinha ainda intenção de lançar um outro livro sobre a sua atividade nas prisões, contando as numerosas histórias que viveu nas cadeias e nos contactos com os reclusos. Mas já não o conseguiu escrever.

 

Cursilhos de Cristandade
Chegado a Portugal no início de 1957, o Padre Dâmaso foi coadjutor na Paróquia da Penha de França e colaborou na Paróquia de Arroios, desenvolvendo atividade junto dos pobres e começando depois a pregar as missões populares pelas paróquias da capital. O objetivo das missões populares, definido pelo Cardeal Cerejeira, era recristianizar a diocese, numa altura em que as pessoas se afastavam ou abandonavam por completo a Igreja. As missões incluíam uma procissão, normalmente com a imagem peregrina de Nossa Senhora, e uma pregação. “Esta passagem da imagem era uma tentativa de recristianizar Lisboa, mas não dava resultado. Toda a gente andava atrás da santinha, mas não para se converter. Era para pedir a Nossa Senhora. E eu não podia concordar com isso”, conta.

Definindo-se essencialmente como um pregador, o Padre Dâmaso encontrou num livro francês sobre missões populares, entre os quais estava um programa em que, disse, se devem ter baseado os Cursilhos de Cristandade em Espanha. “Portanto, eu pregava segundo aquele esquema”, recordou, numa entrevista recente à Renascença. Foram “anos fantásticos”, em que “me encontrei com Jesus. Em que me encontrei realmente”. Foi propor a introdução dos Cursilhos em Portugal ao Cardeal-Patriarca. D. Manuel Cerejeira enviou dois sacerdotes a Espanha estudar o movimento e um deles, o então Padre António Ribeiro, futuro Cardeal-Patriarca de Lisboa, recomendou que fosse dada autorização para se realizarem em Portugal, o que veio a acontecer no final de 1960. Tornou-se então no primeiro diretor nacional dos Cursilhos de Cristandade em Portugal. Até deixar o movimento, dirigiu mais de uma centena de Cursilhos por todo o país.

 

Prisões
Pouco tempo antes, em 1959, tinha iniciado a ligação com as cadeias, na sequência de um convite da Direcção-Geral de Prisões para efetuar conferências na cadeia de Tires. “Essas conferências, não sei bem porquê, tiveram um certo impacto e convidaram-me para dar mais conferências noutras cadeias. Eu deveria ter uma linguagem diferente do que era costume falar… não sei”, referiu na entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, acrescentando que à época eram nomeados para as prisões “aqueles padres que já não serviam para nada”. A mentalidade foi sendo mudada, mas só em 1966 foi nomeado capelão no Estabelecimento Prisional do Linhó (ao qual esteve sempre ligado toda a vida) pelo Cardeal-Patriarca. Por essa altura, referiu, já conhecia praticamente todas as cadeias portuguesas, por causa dos Cursilhos de Cristandade, que dirigia por todo o país, pois aproveitava essas deslocações para visitar as prisões. “É preciso meter-se no mundo dos presos e para isso temos de nos renunciar a nós mesmos. Não percebi logo isso e quando saía da cadeia apetecia-me mandar toda a gente para vários sítios. Mas depois compreendi que não eram eles que tinham de mudar. Eu tinha que mudar”, desabafou, numa entrevista à Renascença.

Nomeado Coordenador Nacional da Assistência Religiosa nas Cadeias Portuguesas em 1982, levou a sua atividade pastoral para o período pós-prisão ao criar, em 1987, a associação “o Companheiro”, com o fim de colaborar na reintegração dos ex-reclusos. O lema da associação é bem claro: “Para que não haja Homem excluído pelo Homem”. O seu trabalho nesta área foi distinguido em 2011 pela ‘Prision Fellowship International’, uma organização mundial de inspiração cristã que se ocupa da pastoral prisional, que o homenageou pelos 50 anos de atividade nas prisões.

 

Rádio Renascença
A ligação à Rádio Renascença começou ainda em 1960, quando conheceu, na Paróquia dos Mártires, Monsenhor Lopes da Cruz, fundador da Emissora Católica Portuguesa, que o convidou a falar aos microfones por duas vezes, sobre Nossa Senhora de Fátima e sobre as visitas da imagem peregrina de Nossa Senhora às paróquias lisboetas, integradas nas missões populares. A partir de 1976, a colaboração torna-se mais assídua, tomando um carácter regular, assinando três apontamentos semanais: um destinado essencialmente aos doentes, um segundo virado para os reclusos e um terceiro vocacionado para o cidadão comum.

Colaboração que, mais tarde, se viria a tornar diária, a ponto de Graça Franco, diretora de Informação da Renascença, afirmar, num texto sobre o falecimento do Padre Dâmaso: “Teve durante anos a Renascença como a sua segunda paróquia, na palestra diária que levava a cada um as palavras de consolo e companhia, noite dentro. Com um sotaque e uma linha de raciocínio inconfundível”.

Até 2017 manteve uma presença diária aos microfones, nas madrugadas da Renascença, com os “Caminhos da vida”, e na rádio SIM, com o apontamento “Boa Noite”, antes da meia-noite. Além disso, durante muitos anos celebrou missa semanal na capela da emissora. A jornalista recorda que o Padre Dâmaso era “pré-conciliar por idade e formação e pós-conciliar por temperamento. Não havia rótulo que se lhe aplicasse: nem conservador nem progressista, era simplesmente ele”.

Defensor intransigente dos pobres, era também grande devoto da Virgem Maria, mas, sublinha Graça Franco, rejeitando “a religiosidade popular em torno de Nossa Senhora de Fátima”. “Escandalizava-o a ele, que levara anos a fio aos pobres a Imagem peregrina, que reduzissem a Mãe de Deus a uma ‘santinha’ a quem se vão apenas pedir graças e mais graças, quando ela viera implorar orações pelos outros, pela paz, pela conversão dos pecadores”, assinala.

A sua longa ligação à Renascença ficou perpetuada em julho de 2016 numa das salas de reuniões da nova sede da emissora, na Buraca, a que foi dado o nome de Padre Dâmaso Lambers.

Uma homenagem que o deixou muito emocionado: “Não esperava. Porque tudo o que eu fiz foi sempre com imenso gosto e com a entrega da minha vida. Sou religioso e um religioso não pensa em si mesmo, pensa nos outros”.

Homenagem que também recebeu das mãos do Presidente da República Cavaco Silva em 2009, ao ser agraciado no Dia de Portugal com o grau de Grande Oficial da Ordem de Mérito. Com a humildade habitual: “Eu no meio daquela gente importante senti-me o homem mais humilde. Eu não sou nada de especial, sou apenas um servo de Jesus. Eu não devia ser homenageado. Quem devia ser homenageado era Jesus Cristo, porque eu trabalho só ao serviço de Jesus. Eu sou o criado de Jesus”. Esse “Jesus fantástico” que nunca se cansou de proclamar e de servir. Como escreveu o jornalista Filipe d’Avillez no sítio da Renascença na Internet: “A comunhão com Jesus agora é plena, face-a-face, e quem o conheceu pode adivinhar as suas primeiras palavras ao entrar no Céu. “Isto é fantástico”.

 

__________


Fascinado por Jesus “fantástico”

O Cardeal-Patriarca de Lisboa afirmou que o padre Dâmaso Lambers foi um “magnífico exemplo”, deixando a todos um “testemunho forte do que é a vida de Jesus Cristo quando é verdadeiramente apanhada”.

“Há uma palavra que ele repetia muitas vezes, ‘fantástico’. E quando nós o ouvíamos sabíamos qual era o significado, o conteúdo e a sustância deste ‘fantástico’. Fantástico significa, entre outras acepções, aquilo que tem tal valor que nos fascina. E não era uma ‘coisa’ para o padre Dâmaso, era Jesus Cristo”, sublinhou D. Manuel Clemente na missa de corpo presente realizada no sábado, 24 de fevereiro, na Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Benfica.

“Falava de Jesus Cristo com tanta intensidade, com tanta vida e fulgor, que aquilo saia-lhe lá de dentro como algo de profundamente seu, assimilado e autêntico. Daí o seu entusiasmo”, acrescentou, recordando a forma entusiasmada com que o padre Dâmaso falava de Deus nos seus apontamentos na Rádio Renascença. “De dia, e às vezes já de noite, lá tínhamos o padre Dâmaso com aquela alvorada evangélica com ele nos sacudia”, não se cansando de dizer aos ouvintes que “Jesus é fantástico”.

Referiu, ainda, que o “padre das prisões”, como também era conhecido, escolheu ele próprio as leituras para a missa das suas exéquias, pedindo que não fosse um momento triste. “Ele quis que esta celebração fosse de ação de graças, não fosse de pesar, mas já cheia de ressurreição. Daquela ressurreição garantida a quem vive com Cristo, morre com Cristo e com Cristo vive eternamente”, concluiu D. Manuel Clemente.

O padre Dâmaso Lambers, 87 anos, faleceu na passada quinta-feira, 22 de fevereiro, em Lisboa. Além da preparação das leituras para as suas exéquias, o sacerdote quis deixar tudo pronto: pagou com muita antecedência o seu funeral, porque não queria que ninguém se preocupasse. “Não quero incomodar ninguém. Quero servir”, disse, em entrevista à Renascença.

texto por João Pinheiro de Almeida; fotos por João Cláudio Fernandes e D.R.
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