Entrevistas |
Dália Rodrigues, diretora técnica da instituição ‘O Ninho’
“Mulheres prostituídas felizes, nunca encontrámos”
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A instituição ‘O Ninho’, dedicada ao acompanhamento de mulheres em situação de prostituição, comemorou recentemente 50 anos de existência em Portugal. Ao Jornal VOZ DA VERDADE, a diretora técnica, Dália Rodrigues, fala da forma como o problema da prostituição em Portugal vai aumentando e ganhando novos espaços, e encara a luta contra a legalização deste flagelo social como um desafio para os próximos tempos.


Dália Rodrigues dedicou os últimos 20 anos ao trabalho com mulheres em situação de prostituição. Começou com o apoio “direto”, no Bairro Alto, em Lisboa, e gere agora a instituição de cariz católico ‘O Ninho’, que luta pela “promoção humana e social” das mulheres que encontraram na prostituição “a opção para quem não tem mais opções”. Nesta entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, que decorreu na sede da instituição, no centro de Lisboa, esta responsável revelou esperar da Igreja uma posição “clara e frontal” contra a lei da regulamentação da prostituição, e partilhou que continua a impressioná-la a “resiliência” das mulheres que mantêm o sonho de uma mudança de vida.

 

Ao fim de 50 anos, a missão da instituição ‘O Ninho’ continua atual?

O nosso objetivo continua a ser a promoção humana e social de mulheres em situação de prostituição e que sejam vítimas de tráfico para fins de exploração sexual. Essa promoção passa por conhecer a realidade, conhecendo os problemas e as dificuldades que estas mulheres enfrentam, e como é que está organizado o meio. ‘O Ninho’ considera a prostituição um problema social que atinge um grande número de pessoas, levando-as à exclusão social. Portanto, a nossa intervenção sempre passou por conhecer, para depois poder ajudar. Este meio é um sistema organizado, com vários intervenientes – a mulher prostituta, o proxeneta ou traficante, e o cliente –, que se vai adaptando à realidade e vai mudando, criando um verdadeiro ‘mercado’, onde seres humanos são vendidos, trocados, usados e postos à disposição.

 

Qual a origem da instituição?

‘O Ninho’ nasceu em Paris, França, em 1936, criado por um padre que, ao passar várias vezes por ruas onde estavam mulheres a prostituírem-se, começa a parar, a falar com elas e a aperceber-se das suas histórias de vida e dos seus dramas. Decide, então, pedir apoio para se criar uma estrutura que ajudasse estas mulheres, para que se lhes fosse proporcionada uma alternativa à prostituição.

 

Como é que ‘O Ninho’ chegou a Portugal?

Em 1967 vivamos um sistema proibicionista onde a prostituição era considerada crime, e onde quem se prostituísse podia ser julgado, condenado e preso. Nesse contexto, a diretora geral dos serviços prisionais de então, Ana Maria Braga da Cruz, começa a ver mulheres detidas por aquele delito e percebe que, depois de serem libertadas, voltavam novamente a ser presas pelo mesmo crime. Questiona-se, assim, sobre o facto de o que existe na sociedade não ser suficiente para que essas mulheres possam ter uma alternativa. Então, baseia-se no modelo francês de ‘O Ninho’ e adapta-o à realidade portuguesa, pede apoio a vários organismos, nomeadamente estatais, e o único organismo que dá apoio é a Igreja. A instituição instala-se num local que, na altura, era de prostituição: o Bairro Alto. Aí nasce o centro de atendimento, que ainda hoje se mantém, e que tem dois objetivos: por um lado, conhecer a realidade e, por outro, darmo-nos a conhecer às mulheres, dizendo-lhes: ‘Estamos aqui, se precisares da nossa ajuda’. Ajudamos as mulheres a conhecerem os seus direitos como cidadãs, apoiamo-las no acesso aos apoios sociais e à saúde, por exemplo. É um passo para a sua inserção social. Estamos a falar da vida das pessoas, de vidas bastante destroçadas, feridas. São mulheres que vêm com vários tipos de problemas – alguns são irreversíveis –, e que acreditam que, se calhar, não é possível a mudança. A nossa função é dizer-lhes: ‘Se quiseres, podes mudar’.

 

Ao longo destes 50 anos no nosso país, quantas mulheres já foram acompanhadas por esta instituição?

Entre 8 e 9 mil.

 

Quem procura a associação pede ajuda para sair da prostituição ou espera um apoio meramente pontual?

O centro de atendimento trabalha com mulheres que ainda estão em situação de prostituição. Estamos disponíveis para quando elas quiserem sair, mas isso não significa que não apoiamos as mulheres enquanto se prostituem, em situações pontuais como acesso à saúde ou o acesso ao Rendimento Social de Inserção, por exemplo. Quando nos pedem para mudar para um projeto alternativo, temos outras respostas. Acreditamos que o primeiro passo para a inserção na sociedade é o trabalho, que dignifica e que, para além de nos dar o provento económico, é o que nos faz sentir parte do todo. Por isso, somos absolutamente contra a regulamentação da prostituição e a ideia de considerar a prostituição um trabalho como outro qualquer.

 

Como é feita a integração das mulheres na sociedade?

Acreditamos que o trabalho é o primeiro passo para a promoção plena das mulheres. Por isso, criámos as ‘oficinas’ de treino-trabalho. É um espaço que funciona na nossa sede, aqui no centro de Lisboa, onde as mulheres aprendem e ganham competências para depois, já preparadas, poderem ambicionar a integração no mercado trabalho. É um período de tempo em que elas cumprem um horário de trabalho, recebem um subsídio mensal e aprendem a gerir o dinheiro ao mês – algo que não acontece na prostituição. Por isso, até agora, nestes 50 anos, nunca nos apareceram mulheres prostituídas ricas ou com uma poupança. A desorganização interna, e até do próprio meio, impossibilita fazer uma poupança. Mulheres prostituídas felizes, nunca encontrámos. Se existem, nós não as conhecemos.

Outro dos factores de ajuda à inserção da mulher é o contexto familiar. Muitas delas, numa primeira fase, cortaram os laços com a família. Outras tinham uma espécie de vida dupla. Quando começam esta fase de mudança, é também um tempo de reatar esses laços familiares. A nossa ajuda, neste campo, também entra.

 

O que se sabe acerca da evolução da prostituição, ao longo dos últimos anos, em Portugal?

Não se conhecem números oficiais da evolução da prostituição. O que observamos, de forma empírica, é que nos anos mais recentes, em que houve uma crise económica e social, houve um aumento da prostituição. O negócio do proxenetismo adapta-se à realidade. Temos notado, juntamente com outras zonas do país, que a prostituição está a ir para sítios fechados, para apartamentos, para casas particulares. Nós também temos essa percepção porque uma das coisas que fazemos para chegar às mulheres que não estão na rua é pegar nos classificados de ‘convívio’ – que são uma promoção encapuçada da prostituição –, mandar uma mensagem e disponibilizar o nosso apoio. Por existirem menos mulheres na rua, não significa que exista menos prostituição. Se calhar, até existe mais! O próprio ‘mercado’, mais uma vez, adaptou-se à realidade e já ultrapassou a fronteira dos jornais, com imensos sites, na internet, a publicitar mulheres. Cada anúncio custa cerca de 20 euros ou mais, por dia.

 

Quais as principais causas que levam uma mulher a prostituir-se?

Há uma causa que altera tudo: a pobreza. A grande maioria das mulheres que se prostituem vêm de uma parte da sociedade mais vulnerável. A outra é uma desigualdade de género. Claro que também existem homens na situação de prostituição, mas são sobretudo as mulheres as primeiras vítimas do desemprego, da pobreza, das crises sociais. Aqui, o género feminino é também uma causa, infelizmente, para levar à pobreza. Isto está por trás de uma determinada mentalidade em que, por muito que se tenha evoluído, o homem prevalece e a mulher tem um papel de subalterne. Mesmo assim, penso que, para qualquer mulher, a prostituição é sempre o último recurso. É a opção para quem não tem mais opções.

 

Qual a maior dificuldade para quem procura sair da prostituição?

A falta de autoestima, de acreditar em si própria. Também há dificuldades práticas, como, por exemplo, uma mulher, vítima de tráfico, que nos aparece sem documentos, sendo muito difícil a sua regularização para poder trabalhar.

Apesar de tudo, uma coisa que sempre me impressionou, e continua a impressionar nestas mulheres, é a sua capacidade de resiliência que, depois de tanta violência porque passaram, conseguem pedir ajuda. Significa que ainda conseguem ter um sonho ou a capacidade de sonhar uma vida melhor. Por isso, acho que estas mulheres são admiráveis, são verdadeiras forças da natureza, porque ainda têm capacidade de se reerguer. É talvez a maior característica destas guerreiras e sobreviventes. Não sei se muitos de nós teríamos essa capacidade de dar a volta por cima.

 

O Papa Francisco falou recentemente da exploração sexual das mulheres, considerando-a até como “um crime”. O que acha que a Igreja pode fazer mais para chamar a atenção deste problema?

Eu acho que pode tomar uma posição clara e frontal contra a regulamentação da prostituição. Acho que a Igreja tem um papel e uma responsabilidade fundamental. É contra qualquer mandamento um ser humano ser reduzido a um produto mercantil. A sociedade não pode considerar a prostituição como um trabalho como outro qualquer porque não o é, de facto.

 

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Utopia

Para a diretora técnica de ‘O Ninho’, o grande desafio da instituição passa por “não permitir que a prostituição seja considerada um trabalho como outro qualquer”. “Devemos pegar nos exemplos dos países que fizeram isso, como a Alemanha e a Holanda. São países onde aumentou, obviamente, o tráfico de seres humanos e onde os traficantes conseguem estar muito mais à vontade”, aponta Dália Rodrigues. Por outro lado, um “desafio diário” para esta instituição cinquentenária passa por continuar o combate às “causas que levam à prostituição”, criando “respostas cada vez mais eficientes”, que ajudem as mulheres a não verem este caminho como “uma opção”. “Pode parecer uma utopia, mas a sociedade só evoluiu quando se tem sonhos. Acreditamos muito nestas mulheres”, realça.

 

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Aposta na sensibilização

Atualmente, a instituição ‘O Ninho’ emprega 12 profissionais, distribuídos por vários serviços. Para além da sede, na Rua Luciano Cordeiro, e do centro de atendimento, no Bairro Alto, existe também um lar para as mulheres que não encontram habitação. A aposta mantém-se na sensibilização. “Apostamos muito nas ações de sensibilização junto dos jovens. Os futuros homens de amanhã poderão fazer a diferença”, explica Dália Rodrigues, lembrando também as visitas do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e do Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, ao lar da instituição, por ocasião das comemorações dos 50 anos.

 

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Perfil

Dália Rodrigues está há cerca de 21 anos ligada à instituição ‘O Ninho’. Nos últimos meses, assumiu as funções de diretora técnica, depois de trabalhar, no centro de atendimento, diretamente com as mulheres em situação de prostituição. Todas as histórias a têm marcado, mas esta responsável, “talvez pelo facto de ter sido mãe”, destaca aquelas em que sobressai o amor que as mulheres nutrem pelos filhos. “No fundo, querem compensá-los daquilo que elas não tiveram. É algo de fenomenal, de admirável. Eu aprendo todos os dias com estas mulheres e quase diariamente elas me dão lições de vida e de capacidade de mudança”, salienta.

 

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‘O Ninho – Sempre alguém que escuta, compreende, respeita’

Telefones: 213426949 / 963172593 / 911886265

Site: www.oninho.pt

Email: escuta@oninho.pt

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