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Exortação apostólica ‘Gaudete et exsultate’ (‘Alegrai-vos e exultai’), do Papa Francisco
Santidade é para todos
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O Papa Francisco sublinha que todos são chamados à santidade e destaca, como exemplos, os que “vivem perto de nós”. Na sua exortação apostólica ‘Gaudete et exsultate’, divulgada no dia 9 de abril, o Papa aponta as ameaças deste chamamento e apela à “ousadia” e “coragem apostólica” que impele os cristãos a irem “mais além do conhecido, rumo às periferias e aos confins”.

 

“Fazer ressoar a chamada à santidade” é o objetivo da nova exortação apostólica ‘Gaudete et exsultate’ (‘Alegrai-vos e exultai’), do Papa Francisco. No novo documento, que foi divulgado no dia 9 de abril, o Santo Padre recorda que a chamada à santidade é a vocação de cada cristão. O Senhor “quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa”, escreve Francisco.

O texto papal, que é composto por cinco capítulos, começa por especificar que a santidade não se atribui apenas a todos os que foram beatificados ou canonizados. Para o Papa, existem exemplos de santidade que “vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus”. “Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade «ao pé da porta»”, classifica o Papa.

Num tom muito pessoal, o Papa argentino define um caminho “único e específico” para cada pessoa, na procura da santidade. “Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los (...). Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal, e não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele”, escreve Francisco.

Na mais recente exortação apostólica são constantes os apelos ao “encontro com o outro” e a referência à Igreja e à comunidade como lugares onde se pode encontrar tudo o que é preciso para “crescer rumo à santidade”, transformando a “vida como uma missão”. “Tenta fazê-lo, escutando a Deus na oração e identificando os sinais que Ele te dá. Pede sempre, ao Espírito Santo, o que espera Jesus de ti em cada momento da tua vida e em cada opção que tenhas de tomar, para discernir o lugar que isso ocupa na tua missão”, desafia o Papa.

 

Inimigos

No capítulo II da ‘Gaudete et exsultate’, onde é citada uma carta de São Francisco de Assis a Santo António de Lisboa, o Papa aponta “dois inimigos subtis da santidade”, bem atuais nos dias de hoje e “dentro da Igreja”: o gnosticismo e o pelagianismo. O gnosticismo traduz-se em “uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos”. “Trata-se duma vaidosa superficialidade: muito movimento à superfície da mente, mas não se move nem se comove a profundidade do pensamento”, aponta Francisco, alertando para o facto de que quem quer “tudo claro e seguro”, também pretende “dominar a transcendência de Deus”.

O pelagianismo é também uma mentalidade a ter em conta nos dias de hoje. Para Francisco, quando alguns “se dirigem aos frágeis, dizendo-lhes que se pode tudo com a graça de Deus, basicamente costumam transmitir a ideia de que tudo se pode com a vontade humana, como se esta fosse algo puro, perfeito, omnipotente, a que se acrescenta a graça”. Este “inimigo” deve ser combatido pela aceitação do “dom de Deus, livremente acolhido e humildemente recebido”, defende o Papa. “Trata-se de nos oferecermos a Ele que nos antecipa, de Lhe oferecermos as nossas capacidades, o nosso esforço, a nossa luta contra o mal e a nossa criatividade, para que o seu dom gratuito cresça e se desenvolva em nós”, aponta Francisco, criticando “alguns grupos cristãos” que “dão excessiva importância à observância de certas normas próprias, costumes ou estilos”.

 

“Isto é santidade”

O Papa Francisco reconhece neste documento que viver a santidade é “contracorrente ao que é habitual”. O Romano Pontífice destaca, no capítulo III, as Bem-Aventuranças como caminho para a santidade. “São como que o bilhete de identidade do cristão. (...) Nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida”. “Ser pobre no coração; Reagir com humilde mansidão; Saber chorar com os outros; Buscar a justiça com fome e sede; Olhar e agir com misericórdia; Manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor; Semear a paz ao nosso redor; Abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas”: “Isto é santidade”, afirma Francisco.

Neste capítulo, o Papa volta a alertar para o perigo de se transformar o cristianismo “numa espécie de ONG”, separando o Evangelho do “relacionamento pessoal com o Senhor, da união interior com Ele, da graça” e também para o facto de desprezar-se o “compromisso social dos outros, considerando-o algo de superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista”. Neste campo é sublinhada a atenção à defesa “clara, firme e apaixonada” dos nascituros e a crítica à colocação em segundo plano da situação dos migrantes. “Poderemos nós reconhecer que é precisamente isto o que nos exige Jesus quando diz que a Ele mesmo recebemos em cada forasteiro?”, questiona o Papa.

 

Violência

A mais recente exortação apostólica, composta por 177 pontos, destaca ainda a internet e as redes sociais como terreno para lutar contra as “inclinações agressivas e egocêntricas” que vão para lá dos limites. “Mesmo nos media católicos, é possível ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia e parecendo excluir qualquer ética e respeito pela fama alheia”, aponta Francisco, lembrando que “não nos faz bem olhar com altivez, assumir o papel de juízes sem piedade, considerar os outros como indignos e pretender continuamente dar lições. Esta é uma forma subtil de violência”.

O caminho da santidade faz-se, segundo o Papa, “através das humilhações”. “Sem elas, não há humildade nem santidade. Se não fores capaz de suportar e oferecer a Deus algumas humilhações, não és humilde nem estás no caminho da santidade. A santidade que Deus dá à sua Igreja, vem através da humilhação do seu Filho: este é o caminho”, avisa.

Apesar da fragilidade de cada um, o Papa Francisco apela à “ousadia” e à “coragem apostólica” que são “constitutivas da missão”. “Deus é sempre novidade, que nos impele a partir sem cessar e a mover-nos para ir mais além do conhecido, rumo às periferias e aos confins. Leva-nos aonde se encontra a humanidade mais ferida e aonde os seres humanos, sob a aparência da superficialidade e do conformismo, continuam à procura de resposta para a questão do sentido da vida. Deus não tem medo! Não tem medo!”, escreve o Papa, sublinhando a importância da comunidade, “chamada a criar aquele «espaço teologal onde se pode experimentar a presença mística do Senhor ressuscitado». Partilhar a Palavra e celebrar juntos a Eucaristia torna-nos mais irmãos e vai-nos transformando pouco a pouco em comunidade santa e missionária”.

 

Discernimento

No último capítulo da exortação apostólica ‘Alegrai-vos e exultai’, o Papa Francisco alerta para a luta contra “algo mais do que um mito”: o demónio. “Não admitiremos a existência do demónio, se nos obstinarmos a olhar a vida apenas com critérios empíricos e sem uma perspetiva sobrenatural. A convicção de que este poder maligno está no meio de nós é precisamente aquilo que nos permite compreender por que, às vezes, o mal tem uma força destruidora tão grande”, afirma o Papa, indicando as “armas poderosas” para a luta: “A fé que se expressa na oração, a meditação da Palavra de Deus, a celebração da Missa, a adoração eucarística, a Reconciliação sacramental, as obras de caridade, a vida comunitária, o compromisso missionário”.

A terminar, o Papa Francisco convida os cristãos a pedirem o “dom sobrenatural” do discernimento. “Somente quem está disposto a escutar é que tem a liberdade de renunciar ao seu ponto de vista parcial e insuficiente, aos seus hábitos, aos seus esquemas. Desta forma, está realmente disponível para acolher uma chamada que quebra as suas seguranças, mas leva-o a uma vida melhor, porque não é suficiente que tudo corra bem, que tudo esteja tranquilo. Pode acontecer que Deus nos esteja a oferecer algo mais e, na nossa cómoda distração, não o reconheçamos”, alerta o Papa.

 

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“Não há identidade plena, sem pertença a um povo. Por isso, ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana: Deus quis entrar numa dinâmica popular, na dinâmica dum povo.” (nº 6)

 

“Não é saudável amar o silêncio e esquivar o encontro com o outro, desejar o repouso e rejeitar a atividade, buscar a oração e menosprezar o serviço. Tudo pode ser recebido e integrado como parte da própria vida neste mundo, entrando a fazer parte do caminho de santificação. Somos chamados a viver a contemplação mesmo no meio da ação, e santificamo-nos no exercício responsável e generoso da nossa missão.” (nº 26)

 

“Graças a Deus, ao longo da história da Igreja, ficou bem claro que aquilo que mede a perfeição das pessoas é o seu grau de caridade, e não a quantidade de dados e conhecimentos que possam acumular.” (nº 37)

 

“Deus supera-nos infinitamente, é sempre uma surpresa e não somos nós que determinamos a circunstância histórica em que O encontramos, já que não dependem de nós o tempo, nem o lugar, nem a modalidade do encontro. Quem quer tudo claro e seguro, pretende dominar a transcendência de Deus.” (nº 41)

 

“A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda a pessoa, independentemente do seu desenvolvimento.” (nº 101)

 

“Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente.” (nº 101)

 

“Deus é sempre novidade, que nos impele a partir sem cessar e a mover-nos para ir mais além do conhecido, rumo às periferias e aos confins. Leva-nos aonde se encontra a humanidade mais ferida e aonde os seres humanos, sob a aparência da superficialidade e do conformismo, continuam à procura de resposta para a questão do sentido da vida. Deus não tem medo! Não tem medo!” (nº 135)

 

“Somente quem está disposto a escutar é que tem a liberdade de renunciar ao seu ponto de vista parcial e insuficiente, aos seus hábitos, aos seus esquemas. Desta forma, está realmente disponível para acolher uma chamada que quebra as suas seguranças, mas leva-o a uma vida melhor, porque não é suficiente que tudo corra bem, que tudo esteja tranquilo. Pode acontecer que Deus nos esteja a oferecer algo mais e, na nossa cómoda distração, não o reconheçamos.” (nº 172)

 

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A exortação apostólica ‘Gaudete et exsultate’ (‘Alegrai-vos e exultai’), do Papa Francisco, está disponível online, em português, no site da Santa Sé (www.vatican.va), e em livro nas livrarias de todo o país e também na Livraria Nova Terra, no Patriarcado de Lisboa (Mosteiro de São Vicente de Fora).

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