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Trabalho incansável da Igreja junto dos refugiados na Etiópia
Vidas em suspenso
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No acampamento de Hitsatge, na Etiópia, 25 mil pessoas esperam pelo dia de partida. São refugiados. Vêm da Eritreia, Somália ou do Sudão. Fugiram da violência, da perseguição e da miséria. Sonham com uma vida melhor. Na verdade, ninguém quer estar ali, embora muitos saibam que Hitsatge poderá ser mais um ponto final nas suas vidas do que um ponto de passagem…


A Etiópia é um país de contrastes. Na sua imensa pobreza, ainda têm espaço para acolher outros, milhares de outros, que estarão ainda pior. Só no campo de Hitsatge cerca de 25 mil pessoas, na sua esmagadora maioria provenientes da Eritreia, Sudão e Somália, esperam pelo dia de partida rumo a um país de sonho. Rumo à liberdade, a uma vida sem medo e sem fome. Não pedem muito. Apenas isso. Na região Tigré, no norte da Etiópia, há vários campos de refugiados. Todos os que se acotovelam por ali têm histórias semelhantes e estão de mãos vazias, sem argumentos para escreverem o futuro das suas vidas. Estão por ali. O Padre Hadgu Hagos, um sacerdote católico de rito etíope, faz da visita a estes campos, a estas pessoas em desespero, o ponto central da sua missão. Todas as semanas ele visita os campos de Shimelba, Mai-Aini e Hitsatse. Todas as semanas ele tenta consolar pessoas que estão como que num beco sem saída. Todas as semanas ele fica alarmado com o que vê. Os refugiados que vão chegando aos campos da Etiópia são cada vez mais jovens e, em muitos casos, são apenas crianças. E muitas vezes vêm desacompanhadas.

 

Uma pequena capela

Quando alguém chega a um dos campos de refugiados da Etiópia está de mãos vazias, num local onde o futuro pode ser demasiado longe, onde os sonhos se vão transformando em pesadelo. O Padre Hadgu Hagos já sabe que vai encontrar sempre pessoas em lágrimas, às vezes mesmo desesperadas. Mas ele leva sempre consigo um sorriso de esperança. Uma esperança que agora ocupa também um lugar muito especial em Hitsatse. É que, graças à generosidade dos benfeitores da Fundação AIS, foi possível construir uma pequena capela no meio do campo. Foi uma alegria imensa para todos aqueles refugiados. É que antes de haver a capela a Missa era celebrada debaixo da copa das árvores…

 

Consolar, cuidar, proteger

Que faz um sacerdote quando chega a um campo de refugiados com 25 mil pessoas? Começa por onde? Faz o quê? O Padre Hadgu visita doentes, famílias, brinca com crianças, prepara baptismos na capela que veio substituir a sombra das árvores… “As pessoas que sofreram privações psicológicas precisam de consolo – diz o sacerdote. Precisam de reconciliação.” O trabalho do padre é esse: consolar, abraçar, cuidar. Proteger. “O padre tem de lhes falar de Deus.” Não é fácil falar de Deus a quem vê os seus dias a esvaírem-se em processos que não avançam, em burocracias que emperram, em papéis com carimbos que nunca chegam. Todos os que estão no campo de Hitsatse têm histórias para contar. Muitos deles, uns milhares, são eritreus – um país que já foi classificado como a Coreia do Norte de África, onde os Cristãos são perseguidos por um regime que aprisiona gerações de rapazes a um serviço militar sem fim… Fogem dessa prisão e estão ali presos a uma oportunidade que nunca mais chega. Não é fácil falar de Deus a quem já tanto sofreu. Fugir da Eritreia, por exemplo, é muito arriscado e custa muito dinheiro. Às vezes, tudo o que se tem. É preciso pagar aos contrabandistas, aos soldados… É preciso pagar sempre.

 

Sonhos desfeitos no mar

Dali, dos campos de refugiados, todos os caminhos para a Europa ou os Estados Unidos passam por atalhos controlados por contrabandistas. É preciso arriscar. Há rotas ilegais para a Europa através do Sudão, do Egipto, da Líbia e que desaguam na ilha italiana de Lampedusa. Os que partem são normalmente os mais jovens, os mais impacientes. “Os jovens comovem-me”, diz o Padre Hadgu Hagos. “Muitas vezes partem sem qualquer certeza sobre o seu futuro. Sonham com uma vida melhor.” O Padre Hagos tenta sempre demover os que partem a envolverem-se com os traficantes, os contrabandistas. Mas nem sempre o escutam. “Muitos estão desesperados, decidem ir e arriscam muito. Às vezes, alguém desaparece no mar. São os meninos com quem jogávamos futebol, que serviam no altar, que se afogaram no Mar Mediterrâneo. Um dia – lembra o Padre Hagos – perdemos 16 rapazes… Chorei por eles.” Um desses rapazes chamava-se Tadese. Era brilhante, gostava de fazer perguntas, procurava levar os outros rapazes até à igreja, apresentava-os ao Padre Hagos. “Afogou-se no Mediterrâneo no ano passado. Ainda estou a ver o seu rosto…”

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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