Lisboa |
3ª Jornada Diocesana da Comunicação
Uma nova narrativa na comunicação da Igreja
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A terceira edição da Jornada Diocesana da Comunicação reforçou a necessidade da criação de uma estrutura de comunicação da Igreja em Portugal. No painel conclusivo do encontro foram analisadas as consequências das ‘fake news’ nos media e a degradação do espaço público, provocado pelas redes sociais.

 

O ponto de partida foi a Mensagem do Papa Francisco para o 52º Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado no próximo dia 13 de maio. As ‘fake news’ são o novo fenómeno mediático que, apesar de existirem desde sempre, têm um efeito cada vez mais nocivo e, muitas vezes, responde a grandes interesses que procuram mudar o rumo dos acontecimentos e da sociedade, como a conhecemos. Perante este fenómeno, quando associado a notícias menos boas que têm como foco a Igreja, como é que a instituição com mais de 2000 anos de história poderá responder? Este foi o desafio deixado para a 3ª Jornada Diocesana da Comunicação, que decorreu no passado dia 28 de abril, na Paróquia de Carnaxide, na Vigararia de Oeiras.

De manhã, os inscritos participaram numa sessão de media training, onde trabalharam e questionaram as diferentes atuações, enquanto responsáveis de comunicação, perante vários casos.

No período da tarde, o painel conclusivo ‘Polémicas e escândalos – Que respostas?’ juntou, na mesma mesa, o jornalista do Observador João Francisco Gomes, o fundador da agência All Comunicação, José Aguiar, e o cronista Henrique Raposo, num debate moderado por Rita Carvalho, do portal SJ. Da discussão, submergiram caminhos que podem ajudar a Igreja em Portugal a criar, ela própria, uma nova “narrativa na comunicação”.

 

É notícia ou não?

“O que interessa aos media?”, foi a pergunta deixada ao jornalista de 22 anos, recém premiado com o prémio de jornalismo D. Manuel Falcão, atribuído pela Conferência Episcopal Portuguesa, em pareceria com a Renascença. Para João Francisco Gomes, é necessário existir uma compreensão, por parte dos agentes de comunicação da Igreja, de quais os “critérios que os jornalistas usam para considerar determinado fator uma notícia ou não”. Se assim não for, “talvez não estejam com todas as capacidades para fazerem o melhor trabalho possível”, considerou. Os “valores-notícia”, indicados pelo sociólogo italiano Mário Wolf, e enumerados pelo académico Nelson Traquina, foram apresentados pelo jornalista para dar a conhecer os critérios que “são considerados suficientemente importantes, significativos e relevantes para serem transformados em notícia”. São eles: “1º) A morte; 2º) Notoriedade das pessoas envolvidas; 3º) Proximidade; 4º) Relevância; 5º) Novidade; 6º) Tempo; 7º) Notabilidade; 8º) Conflito, controvérsia, infração”. “Esta é uma reflexão que todos nós, nas redações, fazemos diariamente, de uma forma muito apressada, muito rápida porque não temos tempo. Isto deve estar no ADN dos jornalistas, mas também nas pessoas que trabalham a comunicação, do outro lado”, apontou o jovem jornalista, que também apelou a uma maior abertura e disponibilidade da Igreja “para falar” com os jornalistas.

 

Narrativa da realidade

Por sua vez, José Aguiar, da agência All Comunicação, trouxe ao debate a sua resposta sobre “como analisar o problema” das ‘fake news’ – uma realidade que considerou “tão antiga quanto o homem”. “Aquelas notícias falsas que nos devem preocupar mais são as que têm na origem da sua existência o poder”, considera. Para este profissional, que se afasta de uma tentativa de “proibição das notícias”, é dever de todos “não ficarmos quietos nem passivos perante aquilo que nos é apresentado como sendo verdade”. “Hoje em dia há mais notícias para além daquelas que aparecem no jornalismo através dos media. Há muita informação que circula nas redes sociais que é fabricada nas redes sociais e que é verdadeira. Mas também existe o contrário: informação falsa. O maior problema é quando essa informação salta para os media, parecendo existir uma espécie de legitimação. Hoje em dia, os media não têm os recursos para verificar, controlar, validar a informação”, analisou.

Apesar de considerar que o papel do jornalismo, que é o de “transmitir a verdade”, está agora “posto em causa”, este profissional continua a considerar que o jornalismo “continua a ser a melhor garantia para conseguirmos ter acesso a melhor informação”.

Na discussão, José Aguiar falou ainda da “degradação do espaço público” que foi “reconfigurado” pela internet e pelas redes sociais. “A partir do momento em que o espaço público está bastante degradado e há uma migração extraordinariamente importante daquilo que era o papel do jornalismo, passa a ser assumido também pelas redes sociais – que são em si boas e aproximam as pessoas. A verdade é que o nível de discussão e de informação passa para aquilo que se tem apelidado de pós-verdade, em que muito mais importante do que os factos são as perceções, muito mais importante do que a realidade é a narrativa da realidade”, considerou.

 

Factos

O cronista do Expresso e da Renascença Henrique Raposo começou por recordar uma das vezes em que teve de pedir desculpa, num dos seus textos, há uns anos, por se ter referido a uma notícia falsa, que envolveu a Igreja. “Havia um Bispo espanhol, bastante execrável, que dizia coisas inacreditáveis sobre as mulheres. Fui investigar e descobri uma peça que ainda aprofundava mais o carácter negro desta personagem. Então, fiz uma crónica pegando naquilo. Passados dois ou três dias, recebo um email do Pedro Gil, diretor do Gabinete de Imprensa do Opus Dei em Portugal, que dizia uma coisa muito simples: ‘Henrique, desculpa mas o que tu disseste está errado porque o site que tu usaste é de notícias falsas, que esconde a sua veia satírica, dando a entender que é sério. Portanto, o que disseste, está objetivamente errado. Não é uma questão de opinião. É uma questão de facto’”, revelou Henrique Raposo, partilhando que “obviamente” este email levou-o a pedir desculpa no texto seguinte.

Sobre este caso, o cronista sublinhou duas ideias: “A primeira é assumir o meu erro. Isto das ‘fake news’ e internet joga com aquilo que é o pecado original: nós definirmos para nós próprios os critérios de verdade que avaliam a nossa atuação. Portanto, dizemos basicamente aquilo que nos vem à cabeça e não aceitamos qualquer tipo de referencial externo”, aponta Henrique Raposo que, por opção, se encontra ausente das redes sociais. “Em 15 anos, houve um desgaste civilizacional tremendo e a causa é, obviamente a natureza humana, mas as redes sociais foram gasolina”, apontou.

 

“Fragilidade comunicacional da Igreja”

A segunda ideia que o conhecido cronista quis deixar na sua intervenção foi a “tremenda fragilidade comunicacional da Igreja”. “A Igreja em Portugal tem que ter outro tipo de aparato profissional, com um departamento altamente profissional, com uma contra-redação de 20, 30, 40 pessoas para entrar no jogo narrativo. Somos católicos, sabemos qual é a Verdade e somos os únicos que sabem que a história acaba bem, mas, neste jogo, isso não interessa. Estamos num duelo permanente de narrativas e a nossa tem que ter mais força”, alerta. Dentro desta ideia, o cronista apresentou três pontos de atuação: “O primeiro é educar-me. No caso anterior, reconhecer o erro. O segundo ponto, mais geral, tem a ver com a antecipação dos problemas internos da própria Igreja. É o nosso trabalho, limpar nossa própria casa. O terceiro ponto, ainda mais importante, é preparar o ataque. Por exemplo, sobre a eutanásia, é bastante difícil encontrar alguém em Portugal que tenha uma base de dados completa sobre aquilo que se tem feito na Holanda e na Bélgica. Eu acho que a Igreja, no geral, está sempre na reativa. Nós vamos agora discutir a eutanásia nos termos definidos pelo outro lado, quando este tema devia ser debatido nos nossos termos, com a produção de elementos. O que se está a passar na Bélgica e Holanda é chocante. A Igreja tinha que ter uma equipa de jornalistas que fizesse esse trabalho competente, sério e muito necessário. É uma pena que não seja feito. Como não é feito, vamos estar sempre a perder constantemente. Partimos sempre de uma posição de derrotados”, considerou o cronista, de 39 anos, que sublinhou a importância da instituição Igreja para o futuro da civilização: “Estamos a caminhar para um espaço onde não existem instituições. A Igreja, como instituição, é fundamental para ocupar este espaço”.

 

Maior sensibilização

No final do encontro, o diretor do Departamento da Comunicação do Patriarcado de Lisboa, padre Nuno Rosário Fernandes, reconheceu a necessidade de uma maior sensibilização para a Pastoral da Comunicação e apontou o trabalho que está a ser realizado, nesse sentido, na Igreja em Portugal. “Ainda há pouco tempo, a Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa debateu esta questão e, nas conclusões, foi dito que vai ser iniciado um trabalho nesse sentido, depois de terem sido auscultadas todas as dioceses do país, onde foi manifestada esta necessidade”, observou o sacerdote, concordando com a necessidade de existir um gabinete de comunicação “que se possa pronunciar publicamente, em nome da Igreja em Portugal”. “Acredito que esse trabalho vai ser feito. A reflexão que aqui fizemos é boa para tomarmos maior consciência e para fazer mais pressão”, apontou.

 

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“A verdade deve ser o nosso ADN”

O diretor do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais, padre Américo Aguiar, apontou, como primeira “recomendação” para lidar com o “fenómeno mediático” das ‘fake news’, “não sair do espaço da própria verdade”. “A verdade deve ser o nosso ADN. Enquanto estivermos nesse terreno, nada de mal nos acontecerá”, referiu o sacerdote, numa mensagem vídeo, apresentada na 3ª Jornada Diocesana da Comunicação, que decorreu, no passado dia 28 de abril, em Carnaxide. O também presidente do Conselho de Gerência do Grupo Renascença apelou para a disponibilidade em esclarecer os jornalistas e pediu uma maior atenção às “regras” que são precisas aplicar, nas redes sociais, para “limitar, diminuir e, de preferência anular, a presença de ‘fake news’”.

 

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“Uma comunicação mais rápida gera notícias falsas”

O Bispo Auxiliar de Lisboa D. Nuno Brás referiu, na apresentação da Mensagem do Papa para o Dia das Comunicações Sociais de 2018, que o “abandono da verdade” é a consequência mais significativa que resulta das ‘fake news’. No início da 3ª Jornada Diocesana da Comunicação, o prelado contextualizou as ‘fake news’ num ambiente onde “a verdade deixou de ser algo de importante para a vida humana” e alertou para a dimensão “coletiva” da mentira que é referida na Mensagem do Papa Francisco. Para o vogal da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, “uma comunicação mais rápida gera notícias falsas” e a responsabilidade na busca pela verdade deve ser individual e jornalística. “A verdade é fruto de uma procura”, salientou o membro da Secretaria para a Comunicação da Santa Sé.

texto por Filipe Teixeira; fotos por Pedro Cachaldora
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