Na Tua Palavra |
D. Nuno Brás
Deixemos Fátima na simplicidade

Claro que é importante estudar o fenómeno Fátima. Podemos olhar para ele a partir de vários pontos de vista: como teólogos (interrogando-nos, por exemplo, como é que as aparições da Virgem se integram no todo da revelação cristã); como sociólogos (procurando perceber o fenómeno que conduz um peregrino, durante tantos quilómetros a pé, até à Cova da Iria; ou como é viver entre as multidões de 13 de Maio); como gente de cultura (procurando perceber que lugar é que Fátima tem na cultura portuguesa – na “alta cultura”, com a pintura, escultura ou música criadas à volta das aparições, ou estudando simplesmente os valores que Fátima tem construído na sociedade portuguesa e nos peregrinos que até ali caminham); e mesmo como economistas (porque Fátima é, também, um fenómeno que conduz tantos milhares de turistas a Portugal e que representa um valor significativo em termos económicos).

Fátima é, com efeito, uma realidade que tem implicações nas múltiplas áreas da vida nacional contemporânea. Penso que podemos dizer que não existe nenhuma área da vida portuguesa deste século e do século passado que tenha escapado a uma influência de Fátima.

Mas tudo isto, por muito importante que seja (e é), constitui sempre um “olhar de fora” – se não mesmo “de cima”, com não raras atitudes de sobranceria – para aquela realidade tão simples e tão misteriosa: três pequenos pastorinhos que afirmam e testemunham com a sua vida que viram Nossa Senhora; que Ela os convidou a regressarem àquele local por mais cinco vezes; e que ao longo desses encontros lhes foi entregando uma mensagem que eles, por sua vez, deveriam dizer ao mundo inteiro, e que é, em resumo, a mensagem do Evangelho.

Nos últimos tempos tenho, por vezes, a sensação de que achamos pouco esta simplicidade desarmante de Fátima. Que a gostaríamos de transformar num fenómeno erudito e complicado. Que os cânticos populares que unem pobres e ricos, sábios e ignorantes, portugueses e estrangeiros no amor à Mãe do Céu (“temos Mãe”, dizia-nos há um ano o Papa Francisco) e a Seu Filho Jesus Cristo são demasiado simples; que os gestos habituais com que se expressa este amor (a emoção dos lenços brancos, por exemplo), já não são para o nosso tempo…

Fátima é de todo o povo de Deus. Fátima une todo o povo de Deus na igualdade do baptismo e no amor a Jesus, à Virgem e ao Santo Padre. Como gostava de afirmar o cardeal Cerejeira, “não foi a Igreja que impôs Fátima, mas Fátima que se impôs à Igreja”. Fosse a Igreja a impôr Fátima e, tenho a certeza, tudo seria bastante mais complicado. Deixemos que Fátima, na sua simplicidade, vá marcando o nosso ritmo de vida, o nosso ritmo de sermos Igreja.


foto por Filipe Amorim

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