Domingo |
À procura da Palavra
Até ao fim…
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SANTÍSSIMA TRINDADE Ano B

“Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos.”

Mt 28, 20


Quem não gostaria de encontrar alguém que lhe dissesse, do fundo e ao fundo do coração: “Estarei contigo até ao fim dos tempos”? Não até ao fim da estrada, ou de um projecto, da emoção que tudo doira, ou do calor que se deixa de se alimentar apaga, mas até o fim, quer dizer, sempre! Na poesia e na música este tema não deixa de ser glosado. Assim Diogo Piçarra canta: “Ficarei contigo até ao fim / Até ao fim”, e Carolina Deslandes parece responder: “Dissemos que era amor para a vida toda / Que era contigo a minha vida toda / Que era um amor para a vida toda”.

 

O evangelho de Mateus abriu com o anúncio do “Emanuel”, o “Deus connosco”, e termina com essa mesma afirmação nas palavras de Jesus. Ele é o “Deus connosco” para sempre, o Deus que não é solitário mas comunhão de pessoas, e que nos abraça nessa família sem fronteiras. Ele é o Deus presente, que não assiste ao espectáculo do mundo, mas vive e vibra em cada um dos seus filhos e irmãos, que não desiste de oferecer o seu amor e de convidar a amar. No tempo em que tudo passa, é difícil acreditar num amor assim, tanto mais que os sofrimentos e a morte não desapareceram, e a maldade continua a encontrar acolhimento nos corações humanos. Ser “Deus connosco” não significa “ser Deus sem nós”, e mesmo nas nossas imperfeições, nas tentativas e erros, Deus acredita que podemos ser pessoas melhores, a acabar com sofrimentos evitáveis e a suportar juntos os inevitáveis. E lembro o que canta Jorge Palma: “Enquanto houver estrada para andar / a gente vai continuar / enquanto houver estrada para andar / enquanto houver ventos e mar / a gente não vai parar / enquanto houver ventos e mar.”


O fim da vida é um tema difícil. Mas é importante falarmos dele. E ter a coragem de salvá-lo. António Fonseca, professor Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, diz aos seus alunos que “quase toda a gente quer envelhecer num lugar que conhece”. E realizou um projecto sob o lema “Ageing in Place” (Envelhecer no lugar) em que “identificou 81 exemplos distribuídos por dez áreas: apoio aos cuidadores, combate ao isolamento, gerotecnologias e investigação, inovação em apoio domiciliário, inovação em centro de dia, intervenção na vida da comunidade, lazer, actividade física e aprendizagem ao logo da vida, melhoria das condições de habitação, recursos de saúde, animação, nutrição e acompanhamento psicológico, segurança, mobilidade e bem-estar” (Público, 14.05.2018 - https://gulbenkian.pt/evento/ageing-in-place). Vale a pena ler. São alguns sinais de como o “até ao fim” nos desafia a todos. São precisos meios (e terrível é a sociedade que idolatra a juventude e a riqueza egoísta sem cuidar da vida até ao fim) e redes de relações comunitárias (se deixamos de ser “com os outros” ainda nos chamaremos pessoas?). “Até ao fim”, em palavras e em dádiva, talvez seja o segredo da felicidade que Jesus semeou na terra!

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