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Nuno Rogeiro, politólogo: ??Caritas in veritate? propõe uma urgente reformulação do sistema internacional?
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Especialista em política internacional, Nuno Rogeiro considera que a encíclica ‘Caritas in veritate’ propõe “a urgente reformulação do sistema internacional”. Em entrevista à VOZ DA VERDADE, o analista político, comentador na SIC Notícias, diz que a Igreja defende “a ideia de concertação de nações, de forma mais equilibrada do que a da actual ONU”.

Sendo um especialista em política internacional, que sinal considera que a encíclica ‘Caritas in veritate’ envia aos líderes mundiais?

Revisitando, entre outras, a encíclica “Populorum Progressio”, de Paulo VI, Bento XVI interpreta a actual crise mundial, assinala os males da injustiça social, nacional, regional, global, analisa a ameaça aos valores da pessoa, incluindo o da identidade e da liberdade de culto, lembra a perversão de ideologias e utopias que desligam o desenvolvimento da sua dimensão humana e social, e propõe um novo caminho, com um novo plano de estrada. Este, claro, basear-se-á sempre na essência: caridade, amor e verdade. Caridade como amor e verdade, melhor dizendo.

Noutros tempos, dir-se-ia que este documento baseava uma “nova ordem mundial”, centrada na “economia” caritativa, lembrando-se o amor dado e recebido, como fundamento de todas as relações justas entre homens e nações.

 

Na encíclica, o Papa refere: “Perante o crescimento incessante da interdependência mundial, sente-se imenso – mesmo no meio de uma recessão igualmente mundial – a urgência de uma reforma quer da Organização das Nações Unidas quer da arquitectura económica e financeira internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de nações”. Concorda com esta visão de Bento XVI?

Mais do que concordar, trata-se de verificar uma evidência. Acrescento que a encíclica poderia ter-se limitado a lembrar que, face ao colapso dos sistemas comunistas e às insuficiências e chagas dos sistemas capitalistas, fica de pé, incólume, a “doutrina social” da Igreja. Mas vai além dessa que seria uma espécie de declaração de triunfo, ou de remoque paternalista (do género “eu bem vos disse”), para propor a urgente reformulação do sistema internacional. Bento XVI não é o único a propor esta mudança, mas é uma voz autorizada.

A ideia de “família de nações” é feliz, mas trata-se aqui de uma comunidade de irmãos verdadeiros, mais do que uma transposição do poder tutelar dos pais, do mundo privado para o mundo público.

 

Acredita então ser possível a criação de uma autoridade mundial capaz de enfrentar adequadamente os problemas da comunidade internacional, como defende o Papa?

A encíclica explica que a Igreja não propõe “soluções técnicas” específicas, nem para a crise económica, nem para as deficiências do sistema institucional presente. Mas a ideia de concertação de nações, de forma mais equilibrada do que a da actual ONU, é outro apelo que, aliás, tem levado às discussões internas sobre a reformulação da organização, quer através do alargamento do Conselho de Segurança aos novos mundos e às potências emergentes, quer através da suavização das desigualdades, realizadas na diferença da posse do veto.

 

Acrescenta Bento XVI que “sente-se a urgência de encontrar formas inovadoras para actuar o princípio da responsabilidade de proteger e para atribuir também às nações mais pobres uma voz eficaz nas decisões comuns”. De que forma os países pobres poderão ter a tal voz que o Papa alude?

Para já, vejo a reforma da ONU, de que falei, e cuja procissão ainda vai no adro. Outras vozes acham que a mudança pode começar com um alargamento do actual G20, e com a institucionalização deste como “mini-ONU” de intervenção rápida. Mas importante ainda é saber em que bases se faz a reforma. A encíclica refere a necessidade de uma nova “síntese humanista”, capaz de guiar pessoas de diferentes credos, nacionalidades, etnias, sociedades, tradições e projectos. Essa síntese fundamentar-se-á, segundo Bento XVI, ainda no valor da caridade. Este não nega a velha máxima de que cada nação define os seus critérios de justiça, através de leis e decretos, mas exprime a ideia de que a caridade é superior à transitória justiça dos arranjos políticos, e concretiza valores intemporais. Uma “Comunidade de Nações” refundada precisa de adoptar, na sua Carta constitucional, esses valores. Eles integram, por exemplo, a noção de um mundo com “deveres recíprocos”, apostado no “desenvolvimento integral” do homem (e não apenas no “progresso técnico”), que tem de combater, antes de tudo, os desvalores da morte e da destruição.

 

Para vários analistas, a possibilidade de gerir a economia global – ou seja, milhares de milhões de opções económicas levadas a cabo por milhares de milhões de pessoas e instituições numa base diária – é virtualmente impossível. Qual é a sua visão?

Para já, é impossível ser proprietário da economia global. Esta é feita de muitos subsistemas, com regras próprias, mesmo tendo em conta que as regras de disciplina financeira, comercial e laboral são cada vez mais universais (com a acessão de vários estados às organizações internacionais reguladoras). O problema é que, ao lado dessa acessão, crescem fenómenos de flexibilização da aplicação das normas, de reclamação de situações ou estatutos de excepção, de não respeito pelo acordado, de divergências de interpretação, de contencioso, etc.

Por outro lado, a crise bancária levou a um movimento para recriar o FMI (Fundo Monetário Internacional), com novos poderes, capacidades de alerta prévio, universalidade de actuação e meios suplementares. A concretizar-se, o projecto traduziria uma primeira tentativa de disciplinar o sistema financeiro global.

 

Tem esperança que os futuros líderes, espectadores em tempo real desta crise de ética profunda, possam ser gestores socialmente mais responsáveis?

A encíclica, como sabe, refere várias vezes, sem lamentações estéreis, mas sem renunciar à denúncia da situação, o declínio dos valores individuais e colectivos, da ética empresarial e negocial, da moral que deveria inserir-se nos agentes de progresso material, da justiça que precisaria de guiar todos os subsistemas políticos, sociais e económicos. Mais uma vez, e falando noutra codificação, diríamos que o esquecimento da caridade leva ao apagamento da humanidade.

Mas o brilho da caridade é o brilho do amor. Permitirá que reentre, mesmo através de portas fechadas.

 

 

Perfil

Comentador e analista político, investigador e ensaísta nas áreas da Politologia, Direito Constitucional, História das Ideias Políticas. Publicou doze livros nesses domínios e ainda nos da geopolítica, segurança e defesa, incluindo “Guerra em Paz” (Lisboa, 2002). A sua última obra chama-se “Obama em Guantanamo: A Nova Segurança Americana” (2009), e resulta da visita, com uma equipa da SIC, à prisão de Guantanamo, no início de 2008.

Fundador da Associação Portuguesa de Ciência Política e da revista “Futuro Presente”, Co-Director do Instituto Euro-Atlântico, mantém, com Martim Cabral, há sete anos, o programa “Sociedade das Nações”, na SIC Notícias, dedicado à análise semanal.

Pai de quatro filhos, benfiquista, com uma costela materna da Beira Alta e uma paterna da Beira Baixa.

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