Na Tua Palavra |
D. Nuno Brás
Cultura do desporto

Habitualmente caracterizamos (e bem) a cultura ocidental contemporânea como “digital”. O universo digital marca de forma indelével o nosso modo de viver. Já não somos capazes de passar sem ele. Se, por um acaso – que esperamos nunca aconteça – o mundo ficasse, de um dia para o outro, sem essa “realidade mágica” (parece contradição!) que dá pelo nome de “internet”, seria absolutamente o caos. Tal como hoje se encontram as coisas, seríamos incapazes de garantir a sobrevivência para todos.

Mas, a tomar a sério os noticiários – sobretudo destas últimas semanas – a nossa cultura poderia também ser chamada “cultura do desporto”. Com efeito, o fenómeno desportivo tem dominado claramente as atenções nacionais e internacionais. E não raros são os órgãos de informação (televisivos, radiofónicos e em papel), que não concedam espaço nobre ao fenómeno desportivo e a todos os casos, notícias e comentários a seu propósito, quase como se nada de mais importante acontecesse no mundo.

O mundo do desporto passou a ser uma indústria que faz girar à sua volta somas incalculáveis, para já não falar da inúmera quantidade de pessoas que dele dependem para viver. Tornou-se mesmo assunto de Estado – e a prova é que os Presidentes da República não resistem a estar presentes numa partida de futebol mais importante e a manifestar publicamente o contentamento quando a sua seleção marca um golo. A vitória num campeonato dá origem a feriados; mudam-se nomes de ruas; condecoram-se os desportistas como se fossem os representantes do desígnio nacional e uns verdadeiros heróis.

E alguém seria capaz de imaginar um mundo sem clubes de futebol; sem estrelas que fazem correr multidões atrás de si; sem as paixões que todo este fenómeno origina? De que iríamos falar numa qualquer “conversa civilizada”, esgotado que foi o tema da chuva ou do sol? O desaparecimento do fenómeno desportivo não seria tão grave como o “apagão da internet”, mas andaria por lá perto.

Claro que entre uma luta no estádio e uma batalha de armas e bombas, com mortos e feridos, prefiro, obviamente, uma boa partida de futebol: divertimo-nos; somos rivais; mas, depois, ninguém morre – a maioria das vezes acabamos amigos como dantes. No fundo, o desporto profissional não é mais que uma extensão do que já foi também chamada “cultura de Hollywood”, ou “cultura do espectáculo”, e que tem vindo a determinar grande parte dos comportamentos e valores do nosso tempo.

Como estamos longe daquele mundo desportivo da “mente sã em corpo são”; da entreajuda e colaboração entre todos os membros de uma equipa; da representatividade de um clube em relação a uma terra, ou a uma outra qualquer comunidade humana!

Nem sei como avaliar, com um olhar cristão, todo este mundo desportivo (não apenas do futebol, mas de todas as demais modalidades desportivas). Quase parece algo capaz de unir Deus e o diabo, o melhor e o pior da natureza humana. Da bondade do desporto não tenho dúvidas; já sobre a bondade da indústria desportiva tenho a maior das reservas.

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