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RD Congo: mundo assiste com indiferença a violência sem fim
Silêncio culpado
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Milhões de pessoas foram obrigadas a fugir por causa de ataques de grupos armados na República Democrática do Congo. Ninguém escapa da violência à solta. O Padre Apollinaire falou com a Fundação AIS para denunciar o “inferno” em que se transformou este país. “Isto aqui é 500 vezes pior do que na Síria.” Será que ninguém escuta o seu grito de alerta?

 

A vida acabou para Elisabeth Majunma Ngoy, mãe de uma menina de 6 anos raptada quando bandos armados atacaram a sua aldeia há alguns meses. Nunca mais se soube nada dela. “Dói-me o coração, não consigo dormir. Não tenho mais esperança na minha vida”, desabafa esta mulher de olhos tristes a uma equipa das Nações Unidas que está a recolher testemunhos de raptos de crianças na República Democrática do Congo (RDC). Desconhece-se quantos rapazes ou raparigas já foram retirados violentamente às suas famílias. Os meninos são forçados, muitas vezes, a combater ou a servir nas fileiras de milícias, de grupos armados. Para elas, infelizmente, o destino ainda consegue ser mais cruel. Agustine Mwamba Feze não sabe da sua filha há mais de um ano. Há mais de um ano que chora a triste sorte da sua menina. “Não há esperança… Nunca mais vou voltar a ver a minha filha de novo”, diz, numa exaltação já resignada.

 

Guerras sem fim

A República Democrática do Congo é um dos países mais ricos de África e é também um dos mais pobres. Na verdade, é um país a saque. As riquezas que se escondem no subsolo são a causa da sua perdição. O país podia ser um paraíso, mas transformou-se num verdadeiro inferno sobre a terra. Conflitos étnicos, corrupção generalizada, pobreza extrema, guerras que parecem não ter fim… O sobressalto permanente em que se encontra este país provocou já uma das mais graves crises humanitárias dos tempos actuais. Mas, como denuncia o Padre Apollinaire Cibaka Cikongo à Fundação AIS, parece que o mundo está surdo a tantas vozes que clamam por ajuda, a tantas mães que, em lágrimas, gritam pelos seus filhos. A tantas pessoas enlutadas. De acordo com as Nações Unidas, mais de 4,5 milhões de congoleses já foram forçados a fugir de suas casas por causa das guerras, da violência, da ausência total de segurança. Mais de 700 mil fugiram mesmo para alguns dos países vizinhos, um dos quais é Angola.

 

Pior do que na Síria

”A situação aqui é 500 vezes pior do que na Síria”, afirma o Padre Apollinaire. No entanto, há um manto de silêncio sobre tudo isto. “O interesse económico na exploração dos minérios é mais forte.” Para este sacerdote, é incompreensível esta hipocrisia, este silêncio culpado da comunidade internacional que mata tantos inocentes no seu país. “Agora que surgiu um surto de Ébola – lembra o padre –, a RDC é novamente notícia. No entanto, porque ninguém fala das vítimas da guerra? É claro que todas as perdas são terríveis, mas 40 a 50 pessoas podem morrer por causa do Ébola, e as guerras já causaram mais de 12 milhões de mortos, e centenas de crianças estão a morrer de fome…”

 

Ataques contra a Igreja

A ausência de segurança e a proliferação de grupos armados são uma das faces visíveis de um país falhado. A enorme instabilidade política que se vive na República Democrática do Congo ajuda a perceber porque tudo isto está a acontecer. O presidente Joseph Kabila terminou o seu mandato em Dezembro de 2016, mas recusa-se a abandonar o poder e a assegurar efectivamente novas eleições. Milhares de pessoas têm protestado nas ruas com o apoio da própria Igreja Católica. Muitas dessas manifestações foram reprimidas pelas forças de segurança. Por causa do excesso de violência utilizado, dezenas de pessoas foram mortas. Ninguém tem escapado a esta onda de violência. Vários sacerdotes foram mesmo assassinados e algumas igrejas fechadas pela polícia. A Igreja Católica continua, porém, ao lado dos mais necessitados, das populações que se sentem abandonadas, das mães que choram os seus filhos desaparecidos. “A nossa força vem de Deus – diz o Padre Apollinaire, cujo trabalho é apoiado directamente pela Fundação AIS. “Apesar de tudo, apesar das atrocidades, nós não perdemos a nossa fé na humanidade. Este país pode ser um inferno, mas, mesmo assim, ainda é o meu país…”

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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