Domingo |
À procura da Palavra
Nem surdos, nem mudos…
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DOMINGO XXIII COMUM Ano B

“Erguendo os olhos ao Céu,

suspirou e disse-lhe: «Efatá»,

que quer dizer «Abre-te».”

Mc 7, 34


Para Deus que se revelou chamando e esperando uma resposta, seria uma desilusão se Adão ou Abraão fossem surdos, e, talvez, mudos! Na maravilhosa complexidade humana, ouvir e falar são modos excelentes de comunicar e entrar em relação. A surdez e a mudez dificultam o “ser com outros” e “ser para outros” que é essencial a todo o ser humano. Por isso, como tantas outras doenças ou incapacidades, foram vistas como maldição ou castigo, e não ficamos “incomodados” ainda, quando nos encontramos com alguém que as vive quotidianamente?


No povo de Israel, a fé brota e cresce na escuta da palavra de Deus e na confissão do seu amor a Deus. Alguém surdo-mudo, não só vivia a solidão da incomunicabilidade com os outros, como era incapaz de conhecer Deus e lhe responder filialmente. Seria certamente castigo maior do que a cegueira ou a paralisia. Talvez um pouco semelhante à lepra, que impedia o contacto até com os próprios familiares. Como não desejar que o Messias viesse também curar essas enfermidades? Como não trazer a Jesus alguém que sofria essa solidão?


A cura do surdo-mudo do evangelho deste domingo dá um especial trabalho a Jesus. Para além de gestos pouco comuns a outros milagres, foi preciso Jesus dizer-lhe: “Abre-te!” Um pedido que tem o sabor de uma ordem, precedido de um suspiro que lembra a criação do primeiro homem. Parece necessária uma colaboração daquele que tem vivido fechado, como se houvesse portas que só se abrem por dentro.


Abre-te” é uma palavra que faz eco, e convida-nos (surdos e ouvintes, mudos e falantes) a abrirmo-nos de novo à vida. A escutar o sofrimento e a alegria de outros, abandonando o círculo vicioso dos “meus problemas”. A partilhar as riquezas interiores e a redescobrir a confiança. Nos outros e em Deus. A vencer a tentação da solidão e o inferno de tanta comunicação vazia. Gabriel Marcel dizia que “só há um sofrimento, que é o de estar só”! E a solidão não é apenas falta de contacto entre pessoas. Se a vida de alguém é um deserto, o mundo inteiro é um deserto, ainda que com muitas e variadas pessoas, e palavras debitadas à velocidade da luz por milhões de aparelhos.


A palavra de Jesus “Abre-te!” é semelhante à pergunta de Deus Criador a Adão: “Onde estás?”. Ambas revelam como Deus quer habitar connosco, fazer reverdecer os nossos desertos, manifestar o amor que tem por cada um de nós. Curando a surdez e a mudez, capacita-nos para a relação mais íntima e profunda, em que nos damos e recebemos os outros. Na descoberta de solidões que matam, que isolam, que calam verdades que devem ser ouvidas, podemos ser como os amigos do surdo-mudo do evangelho? Na tarefa de nos abrirmos à voz de Jesus, que outras realidades comunitárias e institucionais precisam abrir-se também? Porque adiamos a felicidade que Deus semeou em nós, quando somos surdos-mudos voluntários?

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