Entrevistas |
Almirante Luís Macieira Fragoso, presidente da Cáritas Diocesana de Lisboa
“É absolutamente fundamental o trabalho com as paróquias”
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O novo presidente da Cáritas Diocesana de Lisboa destaca a importância da ligação a “quem está no terreno” – as paróquias – para garantir que os apoios chegam a quem mais precisa. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, o almirante Luís Macieira Fragoso aponta os objetivos para o novo mandato e sublinha o trabalho que está a ser feito para tornar a contabilidade da instituição “compreensível a qualquer pessoa”. “A transparência, em tudo isto, tem que ser absoluta”, aponta.

 

O que o fez aceitar esta missão?

O que me fez aceitar esta missão foi, desde sempre, pensar que seria importante dar um contributo para apoiar os que precisam de ajuda. A ação social da Igreja foi sempre algo que me preocupou e que, pela situação da minha vida profissional, nunca tinha tido disponibilidade para poder dar o meu contributo. Mas o fundamental foi responder “sim” ao meu Bispo. O senhor Patriarca fez-me esse convite e, obviamente, dei-lhe o meu sim.

 

Quais os objetivos para este mandato à frente da Cáritas Diocesana de Lisboa?

Devo dizer que não tinha qualquer contacto com a Cáritas diocesana, nacional ou até paroquial. Portanto, vim à procura de descobrir o que se estava a fazer. Obviamente que eu e a direção, a que tenho o privilégio de presidir, durante este período estivemos a tomar conhecimento das realidades e a apercebermo-nos das questões mais complexas que precisam de ser trabalhadas e melhoradas, sempre procurando corresponder ao mandato do senhor Cardeal-Patriarca, onde nos são dadas prioridades como o apoio aos migrantes e a todas as realidades relacionadas com o envelhecimento da nossa sociedade. Estas sãos as grandes linhas da nossa ação, naturalmente enquadradas na Doutrina Social da Igreja e iluminadas pela encíclica ‘Deus Caritas est’ – uma recomendação muito explícita do senhor Patriarca.

Subjacente a todas as ações que queremos levar a cabo, a nossa primeira prioridade será sempre a resposta, atempada, àqueles que estão em situação de emergência. Essa será sempre a nossa primeira ação, mas sempre com o conceito de que as pessoas não devem permanecer pobres ou naquela situação de fragilidade em que se encontram.

 

Nesse sentido, há algumas medidas, a curto prazo, para serem implementadas?

A Cáritas Diocesana de Lisboa será sempre o apoio daqueles que estão no terreno. Quem está no terreno e conhece as realidades das pessoas que necessitam, são as paróquias. Portanto, para nós, é absolutamente fundamental o trabalho com as paróquias.

 

Como tem corrido essa articulação com as Cáritas paroquiais?

Ainda estamos numa fase muito inicial. Procurámos solidificar tudo o que já havia, mas ainda estamos a desenvolver trabalho nesse sentido. Neste sábado, dia 22 de setembro, vai haver um encontro das Cáritas paroquiais. No futuro, pretendemos que este seja não só um encontro que reúna as Cáritas paroquiais, mas que seja alargado a todos os grupos de ação social paroquiais que não têm a mesma designação. Pretendemos, assim, que exista uma maior abrangência. Contudo, é necessário salientar que já existe muito trabalho a ser feito com as paróquias. Todo o apoio que nos é pedido pelas paróquias, depois de sujeito a uma análise, é atendido, garantindo o cumprimento dos critérios estabelecidos.

 

Do que vai conhecendo, como apresenta a realidade social na Diocese de Lisboa?

A realidade social é aquela que o cidadão comum acaba por ter. Temos uma população envelhecida, onde o fenómeno do isolamento é muito preocupante, por todas as situações difíceis daí decorrentes. Depois, temos o problema dos migrantes pobres, um fenómeno em expansão. Apesar do esforço que foi feito, por exemplo, na questão da habitação social, para eliminar os bairros de barracas, continuamos a ter migrantes que vão chegando em situações muito precárias e, por vezes, a viver em guetos ou em condições insalubres. Tudo isso são assuntos que nos preocupam e que estamos a seguir.

 

Como está a correr o projeto Famílias ComVida, em pareceria com a Pastoral Familiar do Patriarcado, dedicado à orientação e apoio das famílias?

Ainda está numa fase embrionária, mas já temos pessoas formadas nas paróquias e que estão disponíveis para começar este programa. O último ano foi de arranque, com a formação, e agora estamos numa fase de implementação. Já fizemos os contratos com os párocos que se quiseram associar a este projeto e estamos a fazer a evolução deste programa. Claro que tudo isto tem custos, mas esta é uma das áreas onde temos que dar o nosso contributo.

Neste e noutros projetos da Cáritas Diocesana de Lisboa, creio que é muito importante passar a mensagem de que somos os intermediários entre aqueles que dão e os que necessitam. Portanto, é absolutamente claro que a transparência em tudo isto tem que ser absoluta. Uma das áreas onde nos estamos a focar é na contabilidade e na forma de a tornar compreensível, não apenas a um técnico desta área, mas a qualquer pessoa, sobretudo aos doadores. Há muitos doadores regulares a quem gostaríamos de dar melhor informação sobre a forma como estamos a empregar os valores doados. Trata-se de melhorar a comunicação.

 

Como é que esse processo de maior transparência se vai efetivar?

Nesta primeira fase, estamos a trabalhar na parte da apresentação de contas. Depois, vamos comunicar isso. O principal veículo são e serão as paróquias. Para mim, seria desejável que conseguíssemos ter, nas paróquias, um mapa com o que recebemos e o que estamos a fazer. No fundo, darmo-nos a conhecer. Só assim podemos avançar. Naturalmente que não queremos alterar ou criar problemas a nenhuma estrutura, mas o dia a dia da nossa instituição – e que as pessoas não veem – são as ações com as paróquias, através das Cáritas e dos grupos de ação social. Comunicar o trabalho e os apoios assegurados pela Cáritas Diocesana de Lisboa constitui um desafio acrescido, mas é importante as pessoas perceberem melhor como são geridos e empregues os bens e dinheiro que nos são confiados.

 

Quem aparece a bater à porta da Cáritas Diocesana de Lisboa?

São, normalmente, pessoas em situação de necessidade extrema. E o nosso dia a dia é atender as paróquias que não conseguem, por si próprias, fazer face aos pedidos vários, que vão desde rendas em atraso, situações de saúde difícil, necessidade de próteses, entre outros. Cada pedido é sujeito a uma avaliação para assegurar que não existem resoluções diferentes, para situações iguais ou semelhantes.

 

Uma das preocupações da Cáritas diocesana tem sido o acompanhamento e integração de refugiados. Como está a decorrer este projeto?

A funcionar em Cascais, em colaboração estreita com a Câmara Municipal, temos o Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM). O maior problema de quem o procura é a integração que passa, em primeiro lugar, pelo registo da sua situação, por prestar o apoio que promova a integração dos que nos procuram. Falamos de pessoas que chegam a Portugal sem nada, sem perceberem minimamente como funciona a nossa sociedade e que precisam de ser apoiadas e encaminhadas para os sítios adequados. Depois, é evidente que também há muitas situações de carência material básica a que é preciso responder.

 

Como é que são preparados todos os voluntários que procuram dar o seu tempo às iniciativas da Cáritas Diocesana de Lisboa?

Volto novamente à importância das paróquias que são quem está no terreno. Nós pretendemos dar todo o apoio para que os voluntários sejam bem preparados. Ainda há pouco, na reunião de direção, estivemos a falar sobre o projeto + Próximo, que é um projeto que visa a formação dos voluntários que se predispõem a trabalhar na ação social paroquial. Esta atividade de formação é feita com as paróquias, vigararias ou outras realidades eclesiais. Por exemplo, para lidar com a questão da solidão dos mais velhos, não basta ter boa vontade; é preciso saber abordar as pessoas. Tudo tem as suas regras e abordagens próprias, em primeiro lugar do ponto de vista da psicologia e sociologia, mas também do ponto de vista religioso. Não se trata de fazer proselitismo ou olhar ao credo da pessoa que vamos ajudar, mas temos que saber dizer ao que vimos. Todas essas coisas são muito importantes em termos de formação…

Há outro aspeto muito importante, e que está cada vez mais em voga – e é bom que assim seja – é poder contar com as pessoas que terminam a sua vida ativa, profissional, mas que estão bem de saúde, para continuarem a dar um bom contributo. É muito importante trabalhar bem esta realidade porque temos gente muito válida. Mas há outro grupo que eu acho igualmente importante. Falo dos jovens. O voluntariado não deve ficar só para os mais velhos. Por isso, a nossa proposta passa por identificar e mostrar aos jovens as periferias que também temos cá, perto de nós. Não é preciso, necessariamente, ir para fora. É importante que haja gente nova! Para os jovens, o voluntariado é muito educativo. Este ponto vai merecer uma atenção especial da nossa parte, mas depende muito da dinâmica de cada paróquia.

 

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Perfil

Luís Macieira Fragoso tem 65 anos, é casado e é, desde 12 de março de 2018, o presidente da Cáritas Diocesana de Lisboa. Antes, entre outras funções na Marinha, exerceu o cargo de Chefe do Estado-Maior da Armada. Está ligado à Paróquia de Santa Isabel, em Lisboa.

 

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Colaboração mensal

A partir da próxima edição do Jornal VOZ DA VERDADE, os leitores vão poder contar com a colaboração mensal da Cáritas Diocesana de Lisboa. Todos os meses, vai poder ler as principais notícias sobre as iniciativas da instituição do Patriarcado de Lisboa.

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