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P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Apesar dos pesares

A propósito dos tempos difíceis que a Igreja católica vive na actualidade, veio à minha memória um episódio da vida de Josemaria Escrivá de Balaguer. Apesar do seu imenso amor à Igreja ou, melhor dizendo, precisamente por isso, São Josemaria fazia gala em ser e afirmar-se anticlerical.

A afirmação pode parecer surpreendente, se se tiver em conta que foi proferida por um padre que se destacou pela sua grande fidelidade à Igreja, que alguns até consideraram exagerada. Mais ainda, o jovem Padre Escrivá sofreu na pele os excessos anticlericais da república espanhola, de que resultaram tantos sacrilégios, centenas de igrejas e conventos queimados e destruídos, milhares de leigos, padres e bispos martirizados. No entanto, o fundador do Opus Dei, que foi precursor da teologia conciliar do laicado, dizia-se anticlerical, no mesmo sentido em que agora o Papa Francisco, na sua recente carta sobre os deploráveis abusos cometidos por sacerdotes, condenou o clericalismo.

Quando o sacerdócio é entendido não como serviço mas como poder, presta-se a abusos intoleráveis, que contradizem a lógica do Evangelho. Se Jesus Cristo disse que não tinha vindo ao mundo para ser servido, mas para servir (Mt 20, 28; Mc 10, 45; e Lc 22, 27), é óbvio que aqueles que com Ele estão configurados pelo sacramento da Ordem, devem também viver o seu ministério como um serviço aos fiéis e a todos os homens. Não em vão o Papa se intitula e é o servo dos servos de Deus.

Certamente, o presbítero é chamado a participar nas funções de governo, docência e santificação que competem à hierarquia. Neste sentido, é ao padre que corresponde presidir à celebração eucarística, bem como desempenhar as funções pastorais que lhe tenham sido confiadas pelos seus superiores hierárquicos, nomeadamente assistindo espiritualmente ou até, mais por via de excepção, dirigindo instituições de ensino ou de natureza socio-caritativa, como escolas, centros pastorais, lares da terceira idade, creches, etc. Mesmo no desempenho de funções de direcção, o padre está ao serviço das almas. Não é o dono dos fiéis, não os pode instrumentalizar para fins pessoais, nem impor-lhes nada que não decorra com necessidade da fé católica.

Quando o padre, em vez de, pelo exercício das suas funções sagradas, sobretudo a pregação da Palavra de Deus e a administração dos sacramentos, servir os fiéis, se serve deles para finalidades alheias à santificação e ao apostolado, está a perverter o seu ministério, mesmo que não lhes peça nada que seja contrário à fé ou à moral cristã. Desse seu excesso ao abuso deplorável sobre menores há, certamente, uma grande distância, mas ambas são expressões do mesmo mal: o clericalismo.

No Credo, confessamos a nossa fé em Deus Pai, em Deus Filho, em Deus Espírito Santo e, por último, na Igreja, que se define por ser “una, santa, católica e apostólica”, embora pecadora nos seus membros.

Os teólogos explicam que não é no mesmo sentido que se afirma crer em Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, e na Igreja. Quando dizemos “creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”, não estamos a afirmar, obviamente, a divindade da Igreja, mas que cremos “em a” Igreja. De facto, a Igreja, não obstante a sua fundação por Cristo, não é divina, nem pode portanto ser considerada ao mesmo nível que o Pai, o Filho, ou o Espírito Santo, embora seja, verdadeiramente, “una, santa, católica e apostólica”.  

Que se pretende dizer então, quando se afirma crer “na Igreja”? Que só “em a Igreja” é possível crer em Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo, porque a fé, sendo um dom de Deus a cada alma, por Ele chamada à santidade e ao apostolado, só pode ser vivida na comunhão eclesial, ou seja, “em a” Igreja, ou, como se diz abreviadamente no símbolo dos apóstolos, “na Igreja”. Neste sentido a fé é pessoal, mas não individual porque, embora não seja colectiva, não pode acontecer e realizar-se senão na comunidade dos fiéis.

Embora não seja lícito alterar a fórmula da profissão de fé, Escrivá confidenciou “uma vez a um cardeal que, com muita frequência, ao recitar o Credo, afirmando a sua fé (…) na Igreja una, santa católica e apostólica, acrescentava: apesar dos pesares. Quando o cardeal lhe perguntou a que é que se queria referir, respondeu: aos seus pecados e aos meus”.

Neste tempo de tantos pesares, é hora de reafirmar a nossa fé em Deus, com e na sua Igreja, que é una, santa, católica e apostólica. E, se nos abalar a tristeza ou a vergonha por tantos escândalos, podemos sempre acrescentar interiormente, como São Josemaria, “apesar dos pesares”.