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Pe. Alexandre Palma
Fome de aprender

O Homem é o mais faminto de todos os animais. Talvez não o seja sempre. Talvez não o seja tanto quanto poderia. Mas é-o, pelo menos, quando está à altura de si próprio. Este seu lugar cimeiro não decorre da quantidade de alimento que busca. Sob este aspecto, ele está longe de merecer qualquer destaque. Decorre sim da qualidade da sua fome e da qualidade do seu alimento. E também da diversidade de ambos. Porque nele habitam muitas fomes e de muitos alimentos. De alguns, nunca saciado, porque deles nunca plenamente saciável. Alimentos há que são bastante paradoxais. Em vez de matar a fome, antes a activam e intensificam. Sim, talvez só com o Homem se dê esta estranha experiência: quanto mais come mais fome tem.

O Homem é, como disse, habitado por muitas fomes. A mais fundamental – a que alimenta o seu corpo – será apenas uma sua manifestação mais imediata. Para lá dela, haverá ainda fome de reconhecimento e relação; fome de amor e afecto; fome de sentido e horizonte. Todavia, quero aqui apontar ainda para outra fome, que só no Homem acontece: fome de saber. Esta será um óptimo exemplo dessas tais fomes paradoxais. A fome de saber é inflamada pelo seu próprio alimento. Aprender é, precisamente, isto: a procura activa do alimento que corresponda a esta fome. Eis porque na arte de aprender o Homem está, como em poucas outras circunstâncias da vida, à altura de si próprio. Então, ele é mesmo o mais faminto dos animais, movido pelo desejo insaciável de um alimento de qualidade única e só por si apreciado.

Precisamos de voltar a este assunto. Seja porque ele nos constitui e nos define como humanos. Seja porque a tal arte de aprender está hoje sujeita a profundas transformações. Serão estas só de forma ou também de substância? Ou seja, será que o que hoje se altera são apenas as formas como acedemos ao saber que desejamos? Em eras passadas, porventura, memorizando informação, hoje sabendo onde essa informação se encontra disponível e treinando a capacidade de a processar? Ou será que qualquer transformação na forma acarretará, inevitavelmente também, uma metamorfose na substância do que se aprende? E a ser assim, será que esta transformação do alimento alterará, por sua vez, a própria fome de saber que há em nós? É que a metáfora da alimentação continua, também neste ponto, a fazer sentido. Assim como ingerir alimentos diferentes tende a alterar aquilo de que sentimos fome, assim também o diferente que se aprende alterará a necessidade de aprender?

Enquanto as perguntas se multiplicam, as respostas escasseiam. Pelo menos assim é comigo. Não saberei responder a estas (e outras) perguntas que formulo. Sei apenas que o assunto inquieta. Penso nisto, em especial, neste belo período do ano, em que alunos e professores, escolas e universidades (lugares mágicos em que se geram esses alimentos que induzem sempre mais fome) retomam as suas rotinas de aprendizagem. Mas sei ainda uma última coisa: precisamos de salvar a curiosidade! Independentemente de forma e substância ou das suas transformações, o saber precisará sempre da curiosidade, tal como o alimento precisa da fome. No futuro tal como no passado, o saber será dos curiosos.