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P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Cristãos anónimos

Para além dos fiéis que formalmente pertencem, pelo Baptismo ou pela profissão de fé, à Igreja católica, também há os que, o não sendo em sentido institucional, são-no contudo espiritualmente. É verdade que a distinção é perigosa, porque poderia levar a crer que a adesão formal não é relevante, na medida em que se poderia ser tanto ou mais católico sem fazer parte, formalmente, da entidade eclesial. Mas também é verdade que, desde sempre, a Igreja reconheceu que, para além das suas fronteiras canónicas, outros, como os catecúmenos, embora não sejam membros da instituição eclesial, de certo modo a ela já pertencem pelo seu desejo do Baptismo ou, melhor dizendo, pelo seu Baptismo de desejo. O mesmo se diga de todos os que, não conhecendo a mensagem de Cristo, ignoram sem culpa a existência da Igreja, à qual certamente adeririam se dela tivessem verdadeiro conhecimento.

O que se pode afirmar da Igreja no seu todo, pode-se também dizer de uma sua estrutura, como é o Opus Dei, cujo 90º aniversário ocorreu no passado dia 2 e foi devidamente recordado em Eucaristia de acção de graças, presidida pelo Patriarca de Lisboa e concelebrada, entre outros, pelo Núncio Apostólico.

Toda a gente sabe que a prelatura do Opus Dei não é secreta nem sequer sigilosa, pois são bem conhecidos os nomes do prelado e dos seus vigários, bem como os dos homens e mulheres que fazem parte dos respectivos conselhos. O boletim oficial da prelatura é público: qualquer pessoa o pode comprar ou consultar (www.romana.org). As pessoas do Opus Dei são conhecidas como tais pelos seus familiares, amigos e colegas. Também os restantes católicos são como tal identificados pelos seus próximos, sem que a paróquia de que fazem parte seja secreta, embora não publique a lista dos seus paroquianos, nem estes usem um distintivo.

Mas é verdade que, se todos os fiéis da prelatura o sabem e não o escondem, também há cristãos que, não o sendo canonicamente, são de facto opus Dei. Era o caso do Manuel – nome fictício – que, antes de aderir à instituição fundada por São Josemaria Escrivá, já era um leigo cristão normalíssimo, casado e pai de uma numerosa prole. Precisamente por ser um leigo como qualquer outro, que participava com frequência na Eucaristia, rezava todos os dias o terço, lia a Palavra de Deus e participava regularmente nas actividades paroquiais, muitos pensavam que era do Opus Dei. Sobretudo quando dizia ter seis filhos, surgia, inexorável, a fatídica pergunta:

- És do Opus Dei?

É verdade que alguns fiéis da prelatura têm bastantes filhos, mas também os há que, embora casados, os têm poucos, ou até nenhum, e não faltam cristãos que, pertencendo a outras instituições católicas, ou não, também têm uma numerosa prole. Como, cada vez que dizia ser pai de seis filhos, surgia a pergunta sobre a sua suposta ligação ao Opus Dei, o Manuel ficou com dúvidas, ao ponto de passar a responder:

- Que eu saiba, não. Mas já não tenho a certeza!

De facto, não lhe constava que fosse do Opus Dei mas, se tantos o tinham como tal, seria ele, sem o saber, dessa obra de Deus?!

Claro que o não era ainda porque, se a adscrição a uma diocese se faz automaticamente, por razão da residência do fiel, mesmo que o próprio não tenha disso consciência, um católico só se pode integrar na prelatura do Opus Dei por um acto explícito da mais livre e consciente vontade. Mas também é verdade que muitos leigos e sacerdotes seculares que, como o Manuel, vivem com naturalidade a sua vocação cristã, procurando santificar-se através dos seus deveres familiares, profissionais e cívicos, dando um testemunho amável da fé cristã, são, de facto, opus Dei! Alguns, como o Manuel, regularizaram a sua situação: já não são membros ‘anónimos’ da prelatura, mas seus fiéis de pleno direito.

Talvez seja esta a explicação para a malfadada suspeita de secretismo da instituição agora nonagenária: como a especialidade dos fiéis da prelatura é mesmo a de não serem especiais, há quem os tenha por secretos! Outro tanto se poderia dizer de tantos outros homens e mulheres cristãos que vivem, com a mesma naturalidade, a sua vocação cristã no meio do mundo. Não será esta a prova mais cabal de que são, afinal, bons discípulos daquele mesmo Mestre que, de tão natural, escandalizou os seus conterrâneos quando se Lhe atribuíram factos extraordinários?!